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REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Meu querido irmão Tieppo (Marcelo Mora)

Menon

Meu nome é Luis Augusto Símon e ganhei o apelido de Menon, ainda no antigo ginásio, em Aguaí. Sou engenheiro que nunca buscou o diploma e jornalista tardio. Também sou a prova viva que futebol não se aprende na escola, pois joguei diariamente, dos cinco aos 15 anos e nunca fui o penúltimo a ser escolhido no par ou ímpar. Aqui, no UOL, vou dar seguimento a uma carreira que se iniciou em 1988. com passagens pelo Trivela, Agora, Jornal da Tarde entre outros.

09/05/2021 10h12

Um mês!
Um mês, porra!
Um mês e ainda não sei o que escrever sobre o Marcelo Tieppo!
O Tieppo!
O Tieppinho! O Tieppaço! O Titi...
My best friend! Meu melhor amigo... meu grande amigo... Meu irmão!
Li quase tudo o que escreveram sobre ele nas redes sociais. Redes sociais das quais eu não disponho, ressalte-se. Sinceramente, assino tudo embaixo e tenho muito pouco a acrescentar - quer dizer, não tenho nada a acrescentar ao que já escreveram -, mesmo ele sendo meu melhor amigo.
Quando falo em melhor amigo, não é pretensão minha. Ele REALMENTE FOI/É meu melhor amigo. Ele É meu grande amigo. Ao menos para mim. Falo por mim e tão somente por mim.
Por isso, brado para todo o litoral sul da Paraíba, de Grammame a Pitimbul, passando por Carapibus e Tabatinga: Tieppo é meu irmão! Meu grande irmão! Paulistas e paulistanos que se fodam!
De resto, não tenho como rivalizar com o que escreveram sobre o Tieppo. Craques como Anelson Paixão, Marquinhos Silveira, João Henrique Pugliesi (grande Jhonny...), Erick Castelhero, Menon, monstro Menon, só para ficar nos mais próximos, nos mais íntimos, nos mais gênios... Qualquer um deles, em poucas palavras, definiu e define o Tieppo, com mais precisão, muito melhor do que eu faria, sem sombra de dúvida...
E seria muita pretensão minha tentar equiparar o que venho sentindo desde o fatídico 9 de abril ao que a Érica, a doce e guerreira esposa do Titi - cara, que mulher é essa!??? -, ao que o Felipinho, a Camilinha, a Luísa, e o Gabriel - sei lá o que falar sobre o Gabriel nessa altura do campeonato -, estão suportando neste momento.
Não tenho redes sociais, já disse - e repito. Só sei o que o Gabriel tem escrito sobre o pai. E só posso dizer que o Gabriel é um monstro quando escreve. E quando escreve sobre o pai me derruba, me desmonta... E que minha dor equivale a dor dele. Acho... Vou deixar a Érica de lado neste momento...
Pois a Érica merece todas as reverências, todos os aplausos, toda a gratidão por ter sido tão dedicada e, assim, ter minimizado as agruras do Tieppo em todos os momentos de vida dele - não só nos últimos. Érica é sinônimo de fortaleza! Nunca vi nada igual, nada parecido... E só posso dizer que Érica é uma referência! Obrigado, Érica! Obrigado mesmo!
A dor do Gabriel é a de um filho que não perdeu apenas um pai. A dor do Gabriel é a de quem perdeu o seu referencial, o seu Norte, o seu Sul, o Leste, Oeste... Abram as comportas! Liberem os rebanhos! Passe a boiada... Ops...
Não quero escrever! Quero gritar! Quero berrar! Porra, Tieppo! Por quê!!?? Sei da dor do Gabriel, porque tem doído muito! É dor física! Dói mesmo! Dói perder alguém como o Tieppo!! Dói muito! E não consigo acreditar! Pior ainda! Não consigo aceitar!
Isso é o pior de tudo! Só para ter uma ideia: Timão jogou e perdeu para o Penãrol... Elaboro algum pensamento esdrúxulo no meu cocuruto e já vou logo pegando o celular para compartilhar como o Titi... "Cara..." Ops... Timão empata com os bâmbis: "Titi, os caras não..." Ops, de novo! Corinthians enfia 3 x 0 numas galinhas mortas do Peru... "... E o golaço do Luan, Titi??", ops, mais uma vez.
Isso só para ficar no futebol. Sem falar na política, no jornalismo (blargghhhh...), música, Beatles, claro, drogas, sexo, e o que mais estivéssemos dispostos a discutir, debater, brigar... Ahhhh, mulheres, claro...
Cara! E agora, Tieppo!!??? É um leque muito grande de assuntos para concentrar em um único só amigo! E você é esse cara! Vai ser para o resto da minha vida.
Foi contigo que compartilhei meus temores mais íntimos, meus desejos mais pudendos e minhas alegrias mais abjetas. Porque a vida é essa porra aí, essa miscelânea que não conseguimos traduzir em palavras...
Porra, Titi!! Como não lembrar do primeiro porre juntos em Presidente Prudente, em 1997 - coisas de A Gazeta Esportiva, o mais completo - e da última vez, em um bar de esquina na Vila Mariana. Me lembro como se fosse hoje, quando chegamos na entrada do seu prédio: "Cara, me dá um abraço logo antes que eu comece a chorar...". O Titi me abraçou, mas já estava chorando... E assim, cada um foi para seu lado.
Decepcionado com tudo como eu estava, havia decidido jogar tudo para o alto - tudo o que já não me pertencia mais, como emprego, carreira, profissão, vida familiar, vida social... - e me bandear de vez para um paraíso tropical, para viver de subemprego, com o mínimo necessário para pagar as contas, e tomar cerveja, e pescar em praias virgens e insulares.
Mesmo em tal estado de espírito, jamais, nem em meus piores pesadelos, acreditei que o Tieppinho partiria deste mundo antes de mim. Jamais! Principalmente porque acompanhei a luta dele contra o câncer desde o início. E o início, sem dúvida, foi o pior de tudo. Ao menos na minha cabeça. "Se o Titi venceu a primeira batalha, vai ganhar todas..." E que batalha!
E vieram outras! E ele as superou! Com galhardia! Com humor fino! Bebendo breja comigo no bar! Se indignando com a política! Se revoltando com a eleição do Coiso (Me recuso a escrever o nome de alguém tão abjeto, na boa...)
Tudo sem perder la ternura! Sua principal característica, como tantos fizeram questão de ressaltar em seus depoimentos...
E mesmo eu estando distante... e o Titi mesmo estando debilitado... Lá estava o zap dele, sempre um canal direto de contato, dia sim dia não, nem que fosse para um mero "oi, tudo bem?"
Por isso, para mim, Tieppo sempre estaria presente. Titi JAMAIS nos abandonaria. Jamais me deixaria. Jamais!
Me lembro até hoje de uma merda que falei quando o Tieppo me contou, trêmulo e choroso, que estava com câncer: "Tieppo, ninguém sabe quando vai morrer. Você vai enterrar muita gente. E vai me enterrar antes, pode ter certeza disso! Não aceito opinião em contrário!"
"Porra, Morinha! Não fode!" E levou a mão à boca, segurando a risada, gesto bem característico dele. Ao menos, eu havia conseguido aliviar a tensão no ar. Mas o meu desejo era sincero. Era o mais justo!
Tieppinho tinha o Felipinho. Tinha a Camilinha para criar, tinha o Gabriel, a Luísa... E tinha a Érica... Eu não tinha nada. Não tenho nada até hoje, aliás!
Então, nada mais justo do que o Titi tocar a vida, com Beatles de trilha sonora, indo ao Piu Piu ver a "ZoomBeatles" todas as terceiras quintas-feiras de todo mês, bater um tênis nas quadras do Ibira, tomar breja no Gamela, no Barxaréu e outros, levar e buscar as crianças na escola, ficar bolado com o Gabriel, porque ninguém é de ferro...
Mas essa porra dessa vida não é justa. Muito pelo contrário. Passa longe disso! Como bem a Érica, o Gabriel, o Felipinho, a Camilinha, a Luísa, os pais do Titi sabem... Aliás, que sina... Primeiro, a Priscilinha, agora o Titi... Nem vou entrar em maiores detalhes, porque tudo fica ainda mais pesado... Mas os pais do Titi são heróis, são bravos! E ponto!
Estou aqui, feito uma matraca, e ainda não sei o que dizer sobre o Tieppo. Na minha cabeça, egoísta que sou, só consigo remoer minha saudade e planejar a minha vingança, Titi. Porque dentre todas as cagadas, essa foi a sua maior cagada! E você sabe que jamais perdoarei isso. Porque até então "As Grandes Cagadas" era só uma piada "interna" nossa, que você, infelizmente, resolveu subverter, ao partir, assim, sem mais nem menos....
E a minha vingança vai ser justamente a que segue... Sim, vou me encontrar com você... Não sei onde, não sei quando, e não sei muito mesmo como... Como!!??? (hehe) Mas juro que iremos nos encontrar novamente... Juro mesmo... Preciso acreditar nisso...Preciso mesmo!!
E quando nos encontrarmos estarei de posse em mãos, prontamente para ser assinado, um contrato de amizade. Isso mesmo: um contrato de amizade! Vou encontrar um Sheldon Cooper parar elaborar todas as cláusulas e torná-lo bem minucioso. Deste contrato, a única cláusula que realmente importa será: "Nunca, em hipótese alguma, se abandona, parte-se ou deixa na mão, um que você considera verdadeiramente um amigo. Caso a partida se torne inevitável, imprescindível solicitar com três meses de antecedência, com o devido preenchimento de cinco (5) vias de formulário de comunicação, com os devidos reconhecimento de firma em todas as vias e registro em cartório, a autorização por parte dos amigos a partida desta para melhor. Do contrário, necas..."
Eu sei: pusta contrato egoísta!! Mas, peço escusas Titi, o egoísta foi você em nos deixar. E não falo apenas por mim, que choro ao escrever estas mal traçadas... Falo por uma legião de amigos e conhecidos, que compartilhamos ao longo destes anos...E falo pelo Gabriel, pela Luísa, pelo Felipinho, pela Camila, e claro pela Érica... Se eles me permitem tal liberdade, claro...
E já que você foi na frente, avisa a Priscilinha para separar uns livros bons para mim, por favor... E diga para o Gibica (ex-NP) não matar toda a breja antes de eu chegar... E pede para o Zé Batista contar uns causos legais para virarem pauta... E zoa com o Pessini, dizendo que o Palmeiras ainda não tem mundial... E dê um grande abraço no Nicolau... E não deixe de bater uma bolinha com o Doutor antes de irem assistir ao acústico do Lennon com o Harrison.. Não sei mais quem você vai encontrar por aí, mas mande um abraço meu a todos por mim... Deve ter muita gente boa por aí, não tenho dúvidas disso...
Ainda não sei o que escrever, não sei o que te dizer... Só sei que ainda vamos nos encontrar. Não sei onde. Não sei quando. Não sei como...
Só sei que ainda vamos nos encontrar, de verdade!
Então, vai na frente e vai em paz meu irmão...
Vai em paz!
Meu irmão!
Meu querido irmão Tieppo!

Menon