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Marcel Rizzo

O dia que Maradona assombrou a seleção brasileira. E quase ninguém lembra

Maradona na conquista da Copa de 1986, quando entrou para a galeria de gênios - Alessandro Sabattini/Getty Images
Maradona na conquista da Copa de 1986, quando entrou para a galeria de gênios Imagem: Alessandro Sabattini/Getty Images
Marcel Rizzo

Marcel Rizzo - Formado em jornalismo em 2000 pela PUC Campinas, passou pelas redações do Lance!, Globoesporte.com, Jornal da Tarde, Portal iG e Folha de S. Paulo, no qual editou a coluna Painel FC. Cobriu Copas do Mundo, Olimpíada e dezenas de outros eventos esportivos.

Colunista do UOL

27/11/2020 04h00

Digite na pesquisa do Youtube algo como "Brasil-Maradona-Zico" ou "Brasil-Maradona-Maracanã" e aparece, até na íntegra se quiser, imagens de Brasil x Argentina pela Copa América de 1979. Naquele 2 de agosto Zico e Diego Armando Maradona, morto nesta quarta-feira (25), se encontraram, o camisa 10 argentino estreou no Maracanã (perdendo por 2 a 1) e, para a história, fez sua primeira partida contra o Brasil.

Não é bem assim.

Há pelo menos um antes e, se nenhum historiador achar um jogo anterior perdido, o primeiro de fato. Pouco menos de sete meses antes do confronto no Maracanã, em janeiro de 1979, Maradona esteve com a camisa da Argentina frente a frente com a seleção brasileira, pelo Sul-Americano Sub-20 (juvenil, como se falava na época). Então com 18 anos, venceu por 1 a 0.

Era um jogo entre times de base, é verdade, mas Maradona já tinha no currículo confrontos pela Argentina principal, pela qual estreou em 1977 aos 16 anos, e foi naquele janeiro de 1979 a estrela de um campeonato recheado de estrelas, ou corrigindo, recheado de futuras estrelas.

Rubén Paz, que seria considerado um dos melhores meias dos anos 1980 e jogou no Inter (é o grande ídolo de D'Alessandro), comandava o Uruguai, time dono da casa naquele Sul-Americano e que acabaria campeão — com a Argentina de Maradona como vice. No Paraguai um nome que é música para os ouvidos de torcedores do Fluminense: Romerito.

Os paraguaios ficaram em terceiro e se classificaram com uruguaios e argentinos para o Mundial da Fifa de agosto e setembro de 1979, no Japão — e que, para muitos, foi o primeiro show de Maradona ao levantar a taça mundial júnior. O Brasil, em quarto, acabou não se classificando.

Mas foquemos em 31 de janeiro de 1979. Naquela tarde, em Montevidéu, ocorreu a última rodada do quadrangular final do Sul-Americano. O campeão Uruguai venceu o Paraguai, 2 a 1, e a Argentina bateu o Brasil por 1 a 0. Com um Maradona endiabrado em campo.

"Ele já estava acabando com o campeonato e sabíamos que ele já tinha jogado pela seleção principal. Era uma época que não tinha muitas informações como hoje, mas tínhamos essa referência", contou ao blog o ex-zagueiro Márcio Rossini. Na época jogador do Marília, time do interior paulista, Rossini formou dupla de zaga naquela tarde com Wagner Basílio, do Corinthians. E sofreu.

"O cara era diferente. Ele ficava rabiscando ali no meio, pra lá e pra cá. Uma hora cheguei no Lotti, o lateral-direito [do Athletico] e no Deinha, volante do Santa Cruz, e falei 'olha, vamos chegar junto. Quando ele cair aí na direita, caímos de pau'. E lá fomos nós, ele chegou perto da bandeirinha de escanteio, o Lotti e o Deinha foram, eu cheguei por trás, e ele saiu não sei por onde que estamos procurando até hoje", lembrou Rossini, que depois do Marília passou por Santos, Flamengo, Inter, seleção brasileira principal e hoje tem uma escolinha de futebol na cidade do interior onde nasceu.

Rossini lembra que o torneio foi complicado para o Brasil. Na primeira fase, o time ficou concentrado na cidade de Paysandú, a 380 km de Montevidéu. E antes de sofrer com Maradona, sofreu com o calor.

"Colocávamos o colchão fora do quarto para dormir", lembrou. Em campo também não foi fácil contra times com jovens estrelas como Maradona, Paz e Romerito. Daquele time do Brasil, treinado por Mário Travaglini, se destacava o meia Jorginho, que como Rossini era cria do Marília e já estava negociado com o Palmeiras durante o Sul-Americano.

"Eu vinha me destacando, pelos gols. O Maradona era o cara do campeonato e sabíamos. A estratégia definida foi tentar colocar o Deinha, que era um volante forte, no homem a homem com o Maradona. Não deu certo", disse Jorginho. Como Rossini, Jorginho destacou que em meio a tantos bons jogadores como Rubén Paz e Romerito, Maradona já parecia alguns níveis acima.

"Todo o esquema foi feito para tentar parar o Maradona e não deu. Perdemos por 1 a 0, acho que até foi gol dele", afirmou Jorginho, que hoje trabalha com embalagens em Marília.

O gol não foi de Maradona, foi de Hugo Alvez, defensor do Boca Juniors, clube do coração do camisa 10 e que ele defenderia em duas oportunidades (anos 1980 e depois anos 1990). Na época do Sul-Americano Maradona atuava pelo Argentinos Juniors, clube que o projetou. Não há imagens em vídeo dessa partida, pelo menos não à disposição com poucos cliques (talvez uma TV uruguaia?). "Eu não tenho recordações desse campeonato, não tirávamos fotos como hoje em dia", disse Márcio Rossini.

Ao fim do torneio no Uruguai, Maradona foi considerado o melhor jogador do campeonato, com Romerito em segundo e outro argentino, Ramón Diaz (ex-técnico do Botafogo) em terceiro.

Em agosto de 1979, Maradona entraria em campo contra o Brasil entre os profissionais. Foram seis jogos no total, com somente uma vitória, nas oitavas de final da Copa do Mundo de 1990, na Itália (1 a 0 e seu passe genial para o gol de Caniggia), três derrotas e dois empates.

Maradona só fez um gol no Brasil, no empate por 1 a 1 no Mundialito de 1981, justamente em Montevidéu do encontro de janeiro de 1979.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.