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Fórmula 1

Há 20 anos, Fórmula 1 tinha engavetamento recorde e dobradinha inédita

Tom Shaw/Allsport/Getty Images
Imagem: Tom Shaw/Allsport/Getty Images

Emanuel Colombari e Julianne Cerasoli

Do UOL, em São Paulo e Spa-Francorchamps

25/08/2018 11h00

Quem estava vendo o Grande Prêmio da Bélgica de 1998 não se esquece da corrida. Não apenas pela dobradinha da Jordan, a única da história da equipe irlandesa na Fórmula 1, mas principalmente pelo espetacular acidente que envolveu 13 carros na primeira volta – o maior engavetamento da história da categoria.

Vinte anos atrás, em 30 de agosto de 1998, um acidente com a McLaren de David Coulthard deu início a uma sequência de pancadas entre carros. As circunstâncias foram tão incomuns que a relargada da prova aconteceu sem quatro pilotos, já que as equipes não conseguiram oferecer carros para todo mundo que se espatifou logo na primeira volta.

"Foi uma corrida de sobrevivência", disse o vencedor Damon Hill ao UOL Esporte. "Tive muita sorte de não ter batido na primeira largada. Mas depois as condições do clima estavam tão ruins que eu até cheguei a tocar no carro do Jarno Trulli em determinado momento, simplesmente porque não tinha visto que ele estava ali."

Passadas duas décadas, o UOL Esporte relembra o GP da Bélgica de 1998 que ficou na história pela chuva, pelo acidente e pelo pódio incomum. Confira:

A batida: Coulthard escapa e leva todo mundo embora

O final de semana da corrida foi marcado pelas chuvas sobre o circuito de Spa-Francorchamps. A McLaren dominou os treinos e conquistou a primeira fila no grid de largada, com Mika Hakkinen em primeiro e David Coulthard em segundo. No melhor momento de sua história, a Jordan colocou Damon Hill em terceiro, ao lado da Ferrari de Michael Schumacher. Eddie Irvine (Ferrari) e Jacques Villeneuve (Williams) completavam as seis primeiras posições do grid de largada.

Só que a chuva seria um problema considerável naquele domingo. No warm up, Coulthard escapou e bateu sem gravidade, enquanto o italiano Giancarlo Fisichella também sofreu uma pancada que danificou a asa traseira de sua Benetton. Momentos antes da largada, na transmissão da Rede Globo, o narrador Galvão Bueno anunciou que a McLaren chegou a pedir, sem sucesso, que a largada fosse realizada com o safety car.

Com o sinal verde, os carros passaram a curva La Source em baixa velocidade e aceleraram. A partir daí, começou a pancadaria: Mika Hakkinen, Jacques Villeneuve e Michael Schumacher passaram, mas David Coulthard perdeu o controle, acertou o muro à direita e atravessou a pista. Fisichella surgiu intacto em meio ao spray e seguiu. Damon Hill, mesmo tendo o carro atingido pelo escocês da McLaren, também passou.

Fora eles, todo mundo acabou envolvido na confusão, atingido ou apenas barrado pelo engavetamento. Quando o spray diminuiu e permitiu que a TV registrasse a cena, Ralf Schumacher já deslizava para a grama e Eddie Irvine rodava, enquanto carros de Sauber, Prost, Arrows, Stewart e Tyrrell rodavam e se abalroavam. Em 15 segundos, a organização agitava uma bandeira vermelha.

"Estava muito difícil ver, com todo aquele spray por conta da chuva", relembrou Johnny Herbert ao UOL Esporte. "Lembro que não estava em uma posição ruim, vi tudo acontecendo na minha frente mas vi um espaço e consegui passar por ele, com as batidas acontecendo do meu lado direito. Mas tinha uma roda - acho que era do carro do Coulthard - pulando na minha frente. Ela passou por cima de mim, mas caiu na suspensão traseira do meu carro e, por causa disso, eu rodei. Mas eu tinha conseguido passar por um tipo de acidente que nunca tinha visto antes!"

Bem no meio do bolo estava Hill, que contou que acabou sendo salvo por uma largada ruim. "Eu fiquei um pouco para trás, então vi tudo o que aconteceu. Lembro que decidi ir pela esquerda porque vi o carro de Coulthard atravessado indo para a direita."

“Tenho que admitir, foi um pouco assustador”, relembrou Irvine ao site da Fórmula 1 em 2015. “Eu não tinha freios, não tinha direção, nada estava funcionando. Eu estava lá, sentado no carro, correndo pela pista, enquanto rodas atingiam minha cabeça e os carros se esparramavam. Não havia nada a fazer, exceto ficar sentado e pensar: ‘M*rda, onde é que isso vai me levar?’. Não foi agradável”, acrescentou.

A pancadaria provocou uma paralisação de uma hora. Imediatamente após os acidentes, vários pilotos correram para os boxes em busca de consertos a toque de caixa ou de carros reserva. Rubens Barrichello (Stewart) foi aos boxes ao lado de Ricardo Rosset (Tyrrell), com quem conversava. Ao chegar, Rubinho sentia dores no cotovelo esquerdo e apresentava assustadoras manchas vermelhas no capacete e no macacão.

“Machuquei só o braço, mas nada de sério”, contou o brasileiro da Stewart na ocasião à transmissão da Rede Globo. Segundo ele, seu carro largava com o tanque cheio, apostando na estratégia para terminar a corrida na zona de pontuação. “Fui bem tranquilo. Só que alguém me bateu por trás, aí comecei a girar, bati no da frente, tomei atrás, aí bati o braço dentro do carro. O cotovelo está um pouquinho mais dolorido”, completou o piloto, que aproveitou os microfones da emissora para tranquilizar a família.

As marcas vermelhas, segundo ele, eram de graxa. “Veio de alguém. Como eu vi que meu corpo estava inteiro, eu pensei que era sangue de alguém. Então saí procurando no grid ali, mas está tranquilo”, acrescentou, indo para os boxes da Stewart.

Acidente na relargada, confusão nos boxes e dobradinha

Rubinho ficou entre os prejudicados pela batida da primeira largada. Sem um segundo carro para o brasileiro, a Stewart largou apenas com Jos Verstappen. Olivier Panis (Prost), Mika Salo (Arrows) e Ricardo Rosset (Tyrrell) também não largaram. Apenas 18 carros recomeçaram.

Mas a segunda largada também não foi das mais tranquilas. De novo, na curva La Source, Mika Hakkinen levou a pior em uma disputa de posição com Michael Schumacher e rodou. A Sauber de Johnny Herbert vinha logo atrás, tentou evitar o choque, rodou e atingiu o carro do finlandês. "Mika simplesmente rodou e acabou batendo em mim. Foi o fim da minha corrida. Foi uma prova em que bati duas vezes sem sequer ter passado da segunda curva", disse Herbert. Além de Hakkinen e do inglês, Alexander Wurz enroscou sua Benetton com David Coulthard na primeira volta e também abandonou. 

O escocês conseguiu retornar à pista, mas bem distante dos ponteiros. Na liderança, estava Damon Hill, que pulou de terceiro para primeiro com a Jordan na largada. Vinham logo atrás Michael Schumacher (Ferrari), Eddie Irvine (Ferrari), Jean Alesi (Sauber), Jacques Villeneuve (Williams), Heinz-Harald Frentzen (Williams), Ralf Schumacher (Jordan) e Giancarlo Fisichella (Benetton). Único brasileiro remanescente na pista, Pedro Paulo Diniz era o nono com a Arrows.

A chuva continuou caindo por toda a prova. "As condições estavam muito difíceis. Eu acabei batendo no carro do Trulli na Stavelot porque nem sabia que ele estava lá. Só quando senti o toque que percebi que tinha um carro ali", contou Hill.

Entre os novos abandonos que viriam na sequência, o que chamou mais atenção foi o de Michael Schumacher. O alemão da Ferrari liderava com vantagem sobre Hill quando, na volta 24, ao tentar dar uma volta em Coulthard, encheu a traseira da McLaren do escocês. Com três rodas, Schumacher levou o carro para os boxes e, ao abandonar, correu furioso para os boxes da McLaren para tirar satisfações com o adversário. Quase ao mesmo tempo, a outra Ferrari também abandonava em decorrência de uma rodada de Irvine.

Para Herbert, que viu o incidente já dos boxes, Schumacher não tinha razão em reclamar. "Sei que Michael ficou muito irritado e dá para entender porque ele pensou que foi de propósito. Mas quando você tem tanto spray na pista, é normal tirar o pé, e foi isso que David fez. Não foi de propósito. Michael estava muito mais rápido e não conseguiu ver por causa do spray. Não acho que dê para culpar ninguém. Mas até pela situação do campeonato [Schumacher lutava pelo título com Hakkinen e tinha a chance de vencer uma prova em que o rival terminaria zerado] dá para entender a frustração dele."

Já Hill coloca a culpa em Coulthard. "Eu realmente acho que David não deveria estar ali. Todo mundo sabe que, na chuva, não dá para ver. E você tem que tentar se manter fora da trajetória." 

Já na volta 26, Fisichella sofreu um acidente bastante parecido com o de Schumacher, atingindo a traseira da Minardi do japonês Shinji Nakano. O italiano deixou o carro rapidamente em meio a pequenas chamas. Àquela altura, poucos carros permaneciam na corrida. Para o líder Hill, foi um momento tenso na prova, pois sua vantagem acabou e ele passou a ser pressionado pelo companheiro Ralf Schumacher, que vinha em segundo. "Perguntei para Eddie [Jordan, chefe da equipe] se haveria algum tipo de ordem e, eventualmente, eles pediram para nós mantermos as posições. Ganhei a corrida, três horas depois da largada. E estava morrendo de frio!"

Jean Alesi completou o pódio. "Era muito difícil fazer um pódio com a Sauber naquela época, aquilo foi um feito", disse o francês. Heinz-Harald Frentzen, que segurou a Williams na chuva, foi quarto. Pedro Paulo Diniz foi quinto e Jarno Trulli (Prost) foi sexto.

No fim, festa da Jordan – e de Ralf Schumacher, que escapou da batida na primeira largada. “Foi bastante divertido”, relembrou o alemão ao site da Fórmula 1 em 2015. “Eu vi uma McLaren atravessada na minha frente e percebi a bagunça ao meu redor. Então, puxei o carro para a esquerda, estacionei em ponto morto e esperei – apenas para ver uma Arrows passar a 10 centímetros de mim. Então, quando tudo se arrumou, engatei a marcha e fui embora.”

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