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Djokovic quebra recorde de Federer como #1, mas domínio é maior faz tempo

Getty Images
Imagem: Getty Images
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

08/03/2021 04h00

A ATP oficializou nesta segunda-feira: Novak Djokovic é o tenista que mais tempo acumulou como número 1 do mundo. Neste 8 de março, o sérvio passa a somar 311 semanas na liderança do ranking mundial, deixando para trás as 310 semanas somadas por Roger Federer. Um recorde que até alguns anos atrás era visto por muitos como inalcançável.

Junto com o recorde de conquistas de slam em simples, a marca de maior tempo como número 1 é uma das mais relevantes do tênis mundial. Significa, obviamente, quem passou mais tempo vencendo e somando mais pontos do que seus contemporâneos. Registra quem mais dominou seus rivais, e Djokovic, inquestionavelmente, foi senhor do circuito durante a maior parte dos últimos 10 anos. De 2011 até hoje, Nole conquistou 17 slams, enquanto Nadal levantou 11 taças, e Federer venceu quatro torneios desse porte. Uma superioridade refletida nos ranking e, agora, também no livro dos recordes.

No que diz respeito ao tamanho do feito, contudo, Djokovic nem precisava do recorde. O que o sérvio fez, tanto para chegar ao topo quanto para se manter lá, já significava muito mais do que as 310 semanas de Federer. Não que a marca de Roger não seja relevante. É enorme. Nole, contudo, podia ter parado em, digamos, 250, e seu período como número 1 já teria sido mais impressionante do que as 310 semanas do suíço. O motivo para isso é simples: grau de dificuldade.

A chegada

A escalada de Novak Djokovic até o cume tenístico foi muito mais dura. Quando venceu seu primeiro slam, em 2008, Roger Federer estava no auge, e Rafael Nadal já mostrava um rival capaz de equilibrar duelos com o suíço em quadras duras e até na grama. Dali até 2011, quando finalmente tomou o posto de número 1, Nole teve de ralar um bocado, e isso só foi possível porque ele foi vice do US Open em 2010, e semifinalista de Roland Garros, campeão do Australian Open e campeão também em Wimbledon em 2011. No dia 4 de julho daquele ano, quando chegou ao topo, o sérvio somava 13.285 pontos, e o top 10 daquele dia tinha Rafael Nadal, Roger Federer, Andy Murray, Robin Soderling, David Ferrer, Gael Monfils, Mardy Fish, Tomas Berdych e Andy Roddick.

Para fazer isso tudo, Djokovic teve de destronar um Rafael Nadal que parecia imbatível. O espanhol, que a essa altura já era bicampeão de Wimbledon e se mostrava superior a Federer, ganhou Roland Garros, Wimbledon e o US Open em 2010. Tudo indicava que a temporada 2011 seria sua afirmação como melhor tenista do planeta. Djokovic mudou radicalmente o cenário, derrubando esse Rafa, que já era fenomenal, em Indian Wells, Miami, Madri, Roma e Wimbledon - e mais tarde, já como número 1, Nole bateu Rafa também nas finais do US Open de 2011 e do Australian Open de 2012 (aquela final de quase 6h). Um feito hercúleo.

Roger Federer, por sua vez, chegou ao topo em fevereiro de 2004, quando o top 10 tinha, abaixo dele, Juan Carlos Ferrero, Andy Roddick, Guillermo Coria, Andre Agassi, Rainer Schuettler, Carlos Moyá, David Nalbandian, Mark Philippoussis e Paradorn Srichapan. Um grupo de respeito, obviamente, como qualquer top 10, mas não com o peso de Federer-e-Nadal-em-2011. Os dois concentravam muitos pontos e dificultavam absurdamente a chegada de outro ao topo. A prova disso? Federer tinha 5.225 pontos quando chegou a número 1. Na época, a maioria dos torneios importantes dava a metade dos pontos (slams valiam 1.000, Masters valiam 500, etc.), então é como se, em números atuais, considerando uma ou outra variação, o suíço tivesse cerca de 10.500 pontos. São quase 3 mil a menos do que o que Djokovic precisou para chegar ao topo. Aliás, quando Nole tornou-se número 1, Nadal, vice-líder, tinha 11.270.

A manutenção

Roger Federer foi espetacular em 2005 (81v e 4d) e 2006 (92v e 5d), e seu ano de 2007 (68v e 9d) não foi muito pior. Foram 31 troféus levantados no período. Um domínio absoluto. O suíço transformou um circuito equilibrado em seu parque de diversões. Cada semana era como uma parada diferente da Federer World Tour. Suas derrotas eram zebras grandes. Até os primeiros reveses diante de Nadal em Roland Garros ('05 e '06) foram vistos como resultados surpreendentes. Até 2007, o mundo do tênis ainda parecia confuso, buscando explicações para quando Federer não terminava a semana com um troféu na mão.

A grande diferença entre os reinados de Federer e Djokovic? De novo: o grau de dificuldade. Embora Federer tenha sido número 1 também em 2009 (auxiliado por uma lesão de Nadal, que jogou machucado em Roland Garros e não defendeu seu título em Wimbledon), 2012 e 2018, é inegável que o sérvio teve rivais mais fortes - e o próprio suíço é parte desse grupo. O grande domínio de Roger (2004-08) veio na época em que Rafa ainda era uma sombra do tenista que viria a ser, Djokovic dava apenas aperitivos de seu potencial, e Andy Murray também era pouco mais do que um talento em ascensão. Nole, por sua vez, superou e - por que não? - dominou as melhores versões de Rafa, Roger e Andy.

Além de tornar-se inquilino permanente na mente daquele enorme Rafa em 2011, Djokovic foi superior ao brilhante Federer de 2014-15, que voltou de um 2013 abaixo da média usando uma raquete nova, jogando de forma mais agressiva e sob a tutela de Stefan Edberg. Era um atleta muito melhor que sua versão anterior. Ainda assim, Nole derrotou esse Roger Reboot nas finais de Wimbledon em 2014 e 2015, na decisão do US Open de 2015 e no duelo que valia o troféu do ATP Finals de 2015. Só isso já seria o bastante para fazer a "Era Djokovic" mais relevante do que o domínio do suíço.

Porém, mais tarde, depois de uma lesão séria, Djokovic voltou ao topo no fim de 2018 e, no ano seguinte, atropelou Rafa em Melbourne e venceu aquela final de Wimbledon contra um Federer que beirou o espetacular e ficou a um ponto do troféu (quem vai esquecer aquele 40/15?). Tudo isso, entre outras coisas, incluindo uma vitória sobre Del Potro no US Open e uma virada memorável em cima de Thiem no Australian Open, valeu a Djokovic mais 80 semanas como número 1. Valeu o recorde estabelecido nesta segunda-feira e que parece que será ampliado por um bom tempo. Com a fome de Nole, que vai atrás de superar os 20 slams de Rafa e Roger, que ninguém se espante se ele chegar às 400 semanas no topo do tênis.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL