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Britânica com doença genética e dois dedos a menos fura o quali do AO

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Imagem: Getty Images
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

14/01/2021 04h00

Eis uma daquelas histórias que mostram que o ser humano é capaz de coisas impressionantes apesar de limitações impostas pelo que chamamos vulgarmente de "deficiências". Sem mais delongas ou apelações para o manjado e banalizado uso do termo "superação", a notícia é a seguinte: a britânica Francesca Jones, 20 anos e número 241 do mundo, furou o quali e vai ao Australian Open competir em um slam pela primeira vez na vida.

O que a história de Fran tem de especial? Ela tem uma doença genética rara chamada Síndrome de ectrodactilia-displasia ectodérmica. Nasceu com quatro dedos em cada mão e três dedos no pé direito. Condições que lhe colocam em desvantagem não só na maneira de segurar a raquete como também no equilíbrio e na movimentação de pernas.

Como ela consegue? Além de muito trabalho físico, usando uma raquete mais leve e com cabo mais fino do que o "padrão" profissional. Como ela encara a coisa? Com certa naturalidade:

"Passei muito tempo só tentando ganhar força para apoiar meus músculos que possam compensar talvez as, não quero dizer deficiências, mas os pontos fracos que eu possa ter. Mas acho que todo ser humano tem pontos fracos físicos a não ser que você seja Cristiano Ronaldo ou algo parecido. Apenas tento melhorar os meus [pontos fracos] como tentaria melhorar de qualquer outro modo", disse ao jornal britânico The Guardian.

O que é natural para Fran hoje em dia nem sempre o foi. Segundo todas opiniões médicas que ouviu, o tênis profissional não estaria em seu futuro:

"Fui a médicos e eles me disseram que eu não conseguiria jogar tênis por causa de quaisquer desvantagens que eles achavam que eu tinha, e isso foi [o que provocou] a minha decisão: 'Quer saber? Como vocês disseram isso, agora vou provar que estão errados'", contou a britânica à ITF (veja o vídeo acima).

Fran, que treina na Espanha desde os 9 anos, também explicou os desafios físicos de tentar competir no nível profissional com uma doença rara. "Equilíbrio é importante. Quando você tem menos dedos nos pés, automaticamente você não vai ter tanto para apoiar o peso. Existe maior risco de lesão. Na vida, já passei por mais de dez cirurgias. É algo com que tenho que lidar de uma maneira diferente porque nunca tive uma lesão que me tirou das quadras e esteve ligada à minha síndrome ou foi causada pela síndrome." ... "Meu corpo não é estruturado para ser de uma atleta, mas para mim isso não significa que não possa ser. As pessoas constroem carros do zero, certo? A Rolls Royce começou do zero, então é como eu vejo isso."

O caminho no qualifying não foi nada fácil. Logo na primeira rodada, Fran teve de encarar a experiente Monica Niculescu, ex-top 30 (atual #144). Depois de bater a veterana por 6/3 e 6/2, derrotou a croata Jana Fett (#209) por 7/6(7), 2/6 e 6/1. Por último, superou a chinesa Jia Jung Lu (#200) por 6/0 e 6/1, em sua melhor atuação no qualifying.

O próximo passo para Fran é embarcar em um dos 15 voos fretados pela Tennis Australia, federação de tênis do país e organizadora do Australian Open. Uma vez em Melbourne, a britânica fará quarentena de 14 dias junto com a elite do tênis mundial. Nesse período, só poderá sair do quarto durante cinco horas por dia. Depois, a partir de 8 fevereiro, será, enfim, a vez de jogar um slam pela primeira vez na vida.

Coisas que eu acho que acho:

- Pra quem acredita, parece coisa do destino: Fran Jones entrou de última hora no quali. Ela não tinha ranking para o evento, mas contou com desistências e, pela primeira derrotou duas top 200 na mesma semana. Era pra acontecer.

- Ao furar o quali, Fran vai embolsar pelo menos 100 mil dólares australianos (cerca de R$ 410 mil), maior prêmio em dinheiro de sua vida por enquanto.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.