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Austrália 2x0 Brasil: em dia de derrota, consolo com empolgante Thiago Wild

Thiago Wild fez grande jogo contra Millman, mas perdeu de virada - Divulgação
Thiago Wild fez grande jogo contra Millman, mas perdeu de virada Imagem: Divulgação
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

06/03/2020 08h01

Foi a maior atuação de um brasileiro desde que Gustavo Kuerten destruiu a Espanha em Lérida/1999. Okay, minto. Um brasileiro não fazia nada tão espetacular em uma quadra desde Maria Esther Bueno em Wimbledon. Não, claro que não. Exageros (enormes, eu sei) à parte, a verdade-verdadeira é que há muito, muito tempo um tenista brasileiro não empolgava tanto em um confronto de Copa Davis.

Sim, o Brasil termina o primeiro dia em Adelaide perdendo por 2 a 0, com vitórias de Jordan Thompson (6/4 e 6/4) e John Millman (4/6, 7/6(0) e 6/2), respectivamente, sobre Thiago Monteiro e Thiago Wild, mas há um copo meio cheio (com sorte, de Coopers Pale Ale) a ser digerido após esta sexta-feira, no duelo qualificatório para a fase final da Copa Davis.

Um copo que serve para brindar, mesmo na derrota, as cerca de duas horas de um tênis agressivo, corajoso, preciso e - repito - empolgante. Por que tudo isso? Por que tantos adjetivos? Porque Wild, 19 anos, #113 do mundo, abriu a partida dominando Millman no saque e na devolução, disparando winners de toda parte da quadra e deixando o tenista da casa perdido ("shellshocked" foi a palavra usada por ele); porque Wild jogou nesse nível logo em sua estreia na Copa Davis; porque Wild fez isso saindo do saibro para a quadra dura, adaptando-se a uma diferença de horário de 13h30min em quatro dias; e porque Wild fez isso diante de um veterano que alguns dias atrás esteve a dois pontos de eliminar Federer de um slam pela segunda vez na carreira.

Wild foi seguramente o melhor tenista em quadra por um set e meio. Não perdeu o ritmo quando a partida foi interrompida por muito tempo para que uma espectadora que passou mal fosse atendida (o placar era de 5/2 no set inicial); não teve aquela queda de intensidade tradicional do azarão que vence uma parcial contra o favorito; e conseguiu a primeira quebra do segundo set, mantendo a vantagem até o décimo game.

Se o ponto não foi brasileiro, John Millman merece todos os méritos e aplausos. Quando Wild sacou para o jogo e esteve a dois pontos da vitória, o australiano foi impecável. Alongou trocas de bola, defendeu-se brilhantemente, e devolveu tudo como uma irritante máquina de Arkanoid. Devolveu a quebra, fez 5/5 e, aí sim, a história mudou. Wild não pipocou ou tremeu ou sentiu o momento. Até salvou quatro break points no segundo set antes de perder o serviço. O veterano de 30 anos, #43 do mundo, é que mudou o rumo do jogo.

Depois do 7/0 no tie-break, a história era outra no começo do terceiro set. Enquanto Wild já dava sinais de desgaste físico e mental, Millman voava de um lado para o outro da quadra, esbanjando confiança e absorvendo melhor as pancadas do brasileiro. Fechou o jogo com um 6/2 para colocar a Austrália à frente por 2 a 0, praticamente assegurando a vitória no confronto.

Na prática, na parte técnica das coisas de uma Copa Davis, a bela atuação de Wild não contou para nada. A Austrália ficou com o ponto, e o paranaense não leva de volta para o hotel pontos no ranking, mas as dores físicas e mentais de uma derrota em um jogo tão emocionante e parelho quanto este. O Brasil, por sua vez, leva de consolo a empolgação. A certeza de que Wild já deixou para trás o status de promessa para abraçar o posto de principal nome do esporte no país (Monteiro e o ranking que me desculpem); a quase certeza que, depois do que se viu no Rio de Janeiro, em Santiago e em Adelaide, o fã de tênis do país terá alguém para torcer em torneios grandes; e a garantia de que Wild será sempre sinônimo de tênis agressivo e corajoso, além de uma marrenta e maravilhosa autoconfiança.

E Monteiro?

Thiago Monteiro somou mais uma atuação de Copa Davis em nível abaixo do que mostra no circuito. O número 1 do Brasil e 82 do mundo conseguiu muito pouco contra um pouco agressivo Jordan Thompson (#63), que triunfou por 6/4 e 6/4. O australiano não agrediu tanto, mas fez uma partida inteligente - talvez conhecendo as dificuldades do cearense - variando os golpes e forçando o brasileiro a se mexer e rebater várias bolas diferentes no mesmo rali.

Monteiro ameaçou muito pouco nos games de devolução, mas ainda chegou aos momentos decisivos das parciais em pé de igualdade. O número 1 do Brasil, entretanto, foi muito mal quando não podia. No primeiro set, sacando em 4/5 e 30/30, perdeu a chance de matar um ponto com o backhand e cedeu um break point. Na sequência, mandou um forehand na rede e perdeu o set. Na segunda parcial, mais do mesmo. Com 4/5 no placar, cometeu quatro erros não forçados e viu o time australiano comemorar ao errar o último forehand do duelo. Ao fim do dia, Monteiro acumulava 13 winners e 36 erros não forçados.

E agora?

O confronto continua neste sábado (22h30min de sexta-feira no horário de Brasília). Primeiro, o jogo de duplas: John Peers e James Duckworth enfrentam Marcelo Demoliner e Felipe Meligeni Alves. Depois, se necessário, as simples invertidas: no quarto jogo, John Millman contra Thiago Monteiro; e, no quinto, Jordan Thompson contra Thiago Wild. A Austrália precisa de apenas um ponto para se classificar à fase final da Copa Davis, que será em novembro, em Madri. O Brasil precisa vencer todos os jogos deste sábado.

Coisas que eu acho que acho:

- O Brasil teve chances nos dois jogos (mais com Wild, obviamente), e o sábado poderia começar um tanto diferente com um par de pontos a mais aqui e ali para Wild e/ou Monteiro. Tênis, no entanto, é assim. Avança quem joga mais nos pontos mais importantes. É inquestionável o mérito da Austrália.

- O horário ingrato e a transmissão via DAZN, que não parece ter ainda uma grande base de assinantes que gostam de tênis, "esconderam" essa atuação de Wild. Recomendo fortemente que tentem ver algo dessa partida. Vale a pena. Assumindo a redundância, foi mesmo empolgante.

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