PUBLICIDADE
Topo

Olhar Olímpico

Documentário da Netflix tem até o príncipe Harry criticando a Rio-2016

Príncipe Harry - reprodução/England Rugby
Príncipe Harry Imagem: reprodução/England Rugby
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

31/08/2020 04h00

Produzido para ser lançado na abertura dos Jogos Paraolímpicos, o documentário Rising Phoenix (Pódio para Todos) está disponível na Netflix desde a semana passada apesar do adiamento de Tóquio-2020 para 2021. O filme não é ruim — pelo contrário, tem belas imagens, ótima trilha sonora —, mas não explica a que veio. Ao tentar misturar histórias de superação e propaganda política, o documentário não faz bem nem um, nem outro.

Como documento histórico, ele é no mínimo preguiçoso. Hoje presidente do Comitê Paraolímpico Internacional (IPC) e à época à frente do Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB), Andrew Parsons conta do seu ponto de vista o drama vivido nos dois meses que antecederam a Rio-2016, quando a Paraolimpíada correu risco de não ser realizada.

Nascido no Rio de Janeiro, Parsons tem ascendência britânica. Ele e outros dois dirigentes do movimento olímpico culpam o Comitê Organizador da Rio-2016 por ter gastado todo o dinheiro na Olimpíada e reclamam da falta de atenção à Paraolimpíada. Mas só um lado da história aparece no filme. Ninguém do comitê é ouvido pelo documentário para se defender — Nuzman está recluso, mas outros dirigentes seguem à disposição para entrevistas — e não se questiona a responsabilidade de Parsons ou do então presidente do IPC. Pinta-se uma catástrofe para que o dirigente brasileiro seja apresentado como o herói que a evitou.

Até o príncipe britânico Harry, que, sem nenhuma explicação aparente, é ouvido como um comentarista externo sobre o assunto, critica a Rio-2016. "Havia milhares de lugares que poderiam mudar aquelas vidas. Porque, não se esqueça, vidas mudam na pista, mas também mudam na arquibancada", diz ele, quando o documentário trata da falta de público no início da competição. O filme não ignora que, depois, o torcedor apareceu em grande número. Mas não cita que, no final das contas, a Rio-2016 foi a segunda edição dos Jogos Paraolímpicos que mais vendeu ingressos.

O trecho sobre a Rio-2016 é só uma parte do documentário, que faz uma salada em uma hora e 40 minutos, misturando a história do médico que criou o movimento paraolímpico, a história da Paraolimpíada em si, o "sucesso" (na visão dos diretores) dos Jogos de Londres e a trajetória de oito atletas de diferentes nacionalidades.

Até nisso o documentário é preguiçoso. Os Jogos Paraolímpicos são feitos por atletas com deficiências intelectuais, visuais e físicas. Mas só esse último grupo é contemplado no filme. Quem assiste ao documentário fica com a impressão que a Paraolimpíada é uma competição entre pessoas que perderam alguma parte do corpo. Sem parte de ambas as pernas e ambos os braços, a carismática italiana Beatrice Vio é a melhor parte do documentário.