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História do Pacaembu vira sucata e é abandonada pela Prefeitura

Troféus jogados em caçamba de lixo do Pacaembu - Demétrio Vecchioli/UOL
Troféus jogados em caçamba de lixo do Pacaembu Imagem: Demétrio Vecchioli/UOL
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

21/01/2020 12h00

Resumo da notícia

  • Estádio Municipal do Pacaembu será transferido para concessionário no sábado, dia da final da Copa São Paulo
  • Contrato foi assinado há 90 dias, mas só agora funcionários do estádio cuidam da mudança
  • Cinco caçambas já estão lotadas de lixo, mas muitas salas precisam ser esvaziadas até sexta-feira
  • Prefeitura não indicou nenhum profissional para resgatar itens históricos
  • Funcionário é quem decide o que vai para o lixo e o que será guardado, incluindo diversos troféus

Dar uma última volta no Pacaembu antes de vê-lo privatizado é como acordar dentro de um episódio de Caçadores de Relíquias, programa clássico da TV paga. Em uma caçamba, no meio de entulhos de construção civil, um troféu de um campeonato de futebol de salão disputado em Vigo (Espanha) há duas décadas. Na prateleira de uma sala, uma flâmula do Comitê Olímpico Chinês, provável lembrança dada à Prefeitura paulistana pela acolhida pré-Olímpíada do Rio. No chão de um depósito de onde parece poder sair um animal peçonhento a qualquer momento, uma bandeira carcomida do município de São Paulo.

Menos de 100 horas depois da publicação desta reportagem, o Complexo Esportivo do Pacaembu deixará oficialmente de ser público, para se transformar, pelos próximos 35 anos, em um equipamento privado. O contrato de transferência para a Concessionária Allegra Pacaembu foi assinado em setembro, mas só nos últimos dias é que os poucos funcionários municipais ainda lotados ali começaram um trabalho amador de separar o que é lixo, o que é história e o que ainda será utilizado pela população em outro lugar.

Caçamba de lixo no Pacaembu - Demétrio Vecchioli/UOL - Demétrio Vecchioli/UOL
Imagem: Demétrio Vecchioli/UOL

A trave reserva comprada pelo Comitê Organizador da Copa do Mundo, um legado do Mundial disputado em 2014, está relativamente bem guardada em uma sala e será herdada pela Allegra, que, por contrato, pôde escolher o que que manter ali pelos próximos 365 dias. A rede de vôlei dos Jogos Pan-Americanos de 2007 também deve permanecer, assim com duas máquinas de fazer gelo, outro legado da Copa. O resto, exceto cerca de 800 itens inventariados, será jogado fora. Ninguém na Secretaria de Esporte da Prefeitura se interessou em ir lá buscar, ao menos não até a visita do Olhar Olímpico, ontem (20) de manhã.

Quarto secretário de Esporte da gestão João Doria/Bruno Covas (PSDB), Maurício Bezerra Landim, antigo tesoureiro municipal do Progressistas (ex-PP), está há um mês e meio no cargo e, desde então, não pisou no Pacaembu. Funcionários que estão há décadas cuidando do estádio reclamam não apenas do descaso de Landim e de seu antecessor, Carlos Bezerra Jr, mas também de nem um centavo, dos mais de R$ 90 milhões que já caíram na conta da Prefeitura graças à privatização, ter sido destinado ao estádio. Procurada, a Prefeitura não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Troféus jogados na caçamba de lixo do Pacaembu - Demétrio Vecchioli/UOL - Demétrio Vecchioli/UOL
Imagem: Demétrio Vecchioli/UOL

Segundo o cronograma de transferência, durante 30 dias, desde o Natal, Prefeitura e concessionário administram juntos o estádio. Eram pintores pagos pela Allegra que davam uma demão de tinta no ginásio, por fora, e que faziam pequenos reparos no salão nobre quando a reportagem visitou o estádio. No sábado (25), no primeiro dia da privatização, o estádio abre para a final da Copa São Paulo e, ao menos por onde passarem autoridades e convidados, a impressão será de o complexo estar melhor cuidado. Nas cadeiras numeradas, diversos assentos continuam quebrados, inutilizados.

Ocupante do imóvel durante quase 80 anos (o Pacaembu foi inaugurado em abril de 1940), a Prefeitura faz sua mudança como quem levanta da mesa da praça de alimentação e, por costume, joga os restos no lixo e coloca a bandeja no lugar indicado. Não foi contratada empresa para fazer a mudança. Não foram deslocados funcionários para a realização de um inventário. Tampouco foi indicado um historiador para identificar objetos ali estocados que podem ter valor histórico. Quem faz todo esse trabalho são três funcionários que se despedem do Pacaembu se perguntando onde trabalharão a partir de segunda-feira.

Flâmula da China no Pacaembu - Demétrio Vecchioli/UOL - Demétrio Vecchioli/UOL
Imagem: Demétrio Vecchioli/UOL

Algum desses funcionários determinou os troféus que seriam jogados no lixo e quais seriam devidamente embalados, colocados numa caixa e remetidos à sede da SEME, no Ibirapuera. Sua escolha pareceu sensata, mas só um especialista (ou um caçador de relíquias) para dizer com precisão. Já a flâmula do comitê chinês estava embaixo de uma coleção de pranchas de natação, esquecida.

O Pacaembu tem um estádio de futebol, um ginásio poliesportivo, um lindo e esquecido ginásio de tênis, uma piscina olímpica e uma quadra de tênis que serve muito bem como teatro de arena. Embaixo de cada uma dessas muitas arquibancadas há uma ou muitas salinhas. E dentro de cada uma delas, parte da história do complexo. A Allegra, claro, quer essas salas vazias no sábado. Não quer sucata ocupando espaço nem se responsabilizar com bens públicos que não pretende usar.

Em uma dessas salas de depósito a reportagem achou material para encher dezenas de caçambas. Na entrada, itens novos, como placas de sinalização usadas nos jogos recentes do Santos. Mais para o fundo, porém, a sensação é de que havia muito tempo ninguém entrava lá. No chão, algumas bandeiras de São Paulo, já bastante gastas, incluindo a que ilustra esta reportagem. Na parede, peculiares pôsteres de Youri Djorkaeff com a camisa da Inter de Milão e de Alan Shearer brilhando pelo Newcastle. Provavelmente são do tempo, no fim do século passado, em que atletas moraram ali.

Troféus jogados em caçamba de lixo do Pacaembu - Demétrio Vecchioli/UOL - Demétrio Vecchioli/UOL
Imagem: Demétrio Vecchioli/UOL

Meu mínimo talento para caçador de relíquia diz que as bicicletas ergométricas guardadas há sabe-se lá quantas décadas (chuto uma três) embaixo de uma arquibancada podem ter algum valor histórico, assim como os antigos postes de sinalização feitos de madeira. Muito provavelmente, porém,simplesmente serão jogados fora, como todo o resto, a toque de caixa, até sexta-feira. Como? Sabe-se lá. As quatro caçambas de tamanho usual estão cheias, e uma outra, bem maior, também.

Enquanto eu ia embora, dois homens testavam a durabilidade de um velho mural de recados para pendurar um aviso. A partir de sábado o estacionamento deixa de ser gratuito e passa a ser cobrado por hora. O valor ainda será definido. Ali perto, um estacionamento da mesma empresa cobra R$ 10 a primeira meia hora.