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Flavio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Na F-1, a resistência gay sempre foi acelerar em silêncio

Mike Beuttler, da March-Ford, no GP da Suécia em 1973: morte em decorrência da Aids aos 48 anos - Blick Sport/RDB/ullstein bild via Getty Images
Mike Beuttler, da March-Ford, no GP da Suécia em 1973: morte em decorrência da Aids aos 48 anos Imagem: Blick Sport/RDB/ullstein bild via Getty Images
Flavio Gomes

Jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. "Um multimídia de araque", diz ele. "Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo."

Colunista do UOL

18/04/2022 04h00

Esta é parte da versão online da edição deste domingo (17/4) da newsletter de Flavio Gomes. Para assinar o boletim e ter acesso ao conteúdo completo, clique aqui.

Dos estranhos hábitos que cultivo desde a infância está a caça diária de efemérides, tarefa que a internet facilitou imensamente ao longo das últimas décadas. Hoje, basta digitar uma data qualquer no Google e milhares de sites se apresentam para informar quem nasceu e quem morreu no dia em questão, além de registrar o que de mais (ou menos) importante aconteceu neste planeta de acordo com o calendário organizado por séculos, décadas, eras.

Havia seções nos jornais e revistas dedicadas a isso. Uma delas, da histórica "Seleções do Reader's Digest", estava entre minhas leituras prediletas. Podia ser encontrada em todos os consultórios médicos e antessalas de dentistas nos anos 70, e soube que está completando um século de existência, firme e forte.

"Seleções" me distraía enquanto esperava ser chamado para a tortura do motorzinho do doutor Acley — que também deve estar esbarrando nos cem anos, firme e forte —, implacável dentista da família desde sempre, e foi assim, entre uma obturação aqui, uma vacina ali, um pediatra enfiando um palito na minha garganta acolá, que comecei a decorar datas e acontecimentos de modo que quando chegasse a noite, antes do jantar, tivesse algum assunto para conversar na mesa. Algo como "pai, você sabia que a Ford recebeu seu primeiro pedido de automóvel no dia do meu aniversário?", ou "mãe, sabia que a vovó nasceu no mesmo dia que o Yuri Gagarin?".

Raramente os temas interessavam ao círculo familiar. No máximo meu pai levantava levemente a vista do jornal que lia à mesa para às páginas voltar em frações de segundo, e minha mãe apenas sorria. Ninguém dá bola para crianças de dez anos nas famílias, o que é um erro, mas pelo menos eu demarcava território como se alertasse: o garoto aqui é esperto, não brinquem comigo não!

(Está demorando um pouco, reconheço, para chegar ao tema central da coluna de hoje, proposto pelo título e pela foto lá no alto que, me pedem, devem ser "quentes e atrativos" para que mais "usuários" se interessem e cliquem no link que, se eu tiver alguma sorte, pode ser que apareça na "home" do portal — a saber: a capa, a primeira página, o imenso cardápio de assuntos disponíveis para o amigo internauta; a concorrência é pesada. Mas como prefiro "leitores" a "usuários", confio nos que gostam de ler e não vou me desviar da estrutura que imaginei para este texto antes de começar a escrever. Chegaremos lá, o tema é importante, mas sem atalhos.)

No dia 17 de abril, por exemplo, eu pediria a atenção de todos em casa antes de começar mais um capítulo de "Anjo Mau" para avisar que foi num dia como este, igualzinho sem tirar nem pôr, que em 1961 mercenários cubanos recrutados pela CIA invadiram a Baía dos Porcos. E que em 1970 a Apollo 13 conseguiu voltar à Terra. E que em 1964 o Mustang foi apresentado ao público em Nova York. E que em 1945 os pracinhas da FEB liberaram a cidade de Montese, na Itália, dos nazistas. E, dito isso, me sentaria diante do bife de fígado que comeria em silêncio, num protesto bem claro pela desigual distribuição das batatas fritas entre mim e o irmão mais velho.

Muito bem. Quarta-feira passada, fazia meu tradicional tour pelas efemérides quando esbarrei no nome de Mike Beuttler. Naquele dia, 13 de abril, se estivesse vivo Beuttler completaria 82 anos. Sempre bato o olho nos aniversários de nascimento e morte de pilotos de Fórmula 1, na maioria das vezes sem nenhum motivo específico e, de quando em quando, alguma história desperta minha curiosidade. O caso de Beuttler foi um desses. Ele morreu muito jovem, aos 48 anos, de complicações decorrentes da Aids. Beuttler era homossexual.

Nascido no Cairo em 1940, filho de um oficial britânico que servia no Egito durante a Segunda Guerra Mundial, Michael Simon Brindley Bream Beuttler começou a correr tarde, aos 24 anos, e chegou à Fórmula 1 em 1971. Disputou 28 GPs até 1973, sempre correndo com carros March-Ford alugados num tempo em que era possível montar uma equipe própria para participar do Mundial de forma independente. A grana vinha de amigos do mercado imobiliário de Londres. Seu melhor resultado foi um sétimo lugar no GP da Espanha de 1973 em Montjuïc, Barcelona — vencido por Emerson Fittipaldi. Não chegou a pontuar na categoria. Naqueles tempos, só os seis primeiros marcavam.

A Fórmula 1 é um esporte de homens. Para "machos", como se diz — um clichê estúpido que todo mundo que escreve sobre corridas, e me incluo, claro, usa à farta como sinônimo de coragem, ousadia, virilidade. Entre minhas piadas preferidas de quinta série quando travo embates com colegas do meio, a turma do futebol que diz que automobilismo não é esporte, uso sempre a clássica "pra fazer o que vocês gostam precisa só de uma bola, pro meu esporte precisa de duas".

Sim, é ridículo, eu sei. Podem me cancelar, mereço. Mas, em minha defesa, digo apenas que é uma forma de encerrar logo uma discussão irrelevante e sem fim, para a qual não tenho muita paciência. E a postulação faz algum efeito entre ogros e broncos em geral.

No universo do automóvel, associar as corridas a lindas mulheres é algo muito comum ao longo da história. Pilotos têm namoradas belíssimas e sensuais, na maioria das vezes tratadas como figuras decorativas destinadas meramente a uma certa erotização do ambiente. Até pouco tempo atrás não havia grid de largada de corrida alguma que não fosse povoado por modelos vestidas de forma provocante para alimentar a fúria onanista de um público predominantemente masculino nas arquibancadas ou nos camarotes dos autódromos.

Em 2002 tal patifaria foi banida do GP do Brasil. O bonitão aqui, todo montado na macheza, escreveu na época que foi "a pior corrida da história em Interlagos". Podem me cancelar de novo. Merecidíssimo.

Mas voltemos a Beuttler, o aniversariante da semana passada. Enquanto correu, Mike nunca se assumiu publicamente como homossexual. Chegou a levar meninas muito bonitas como acompanhantes aos autódromos para evitar comentários maldosos — um eufemismo para homofobia. Quando morreu, em 1988, a Aids era chamada por muita gente — conservadores de todos os matizes, políticos, religiosos, jornalistas, até médicos — de "câncer gay", vinculando o alto índice de contágio a um comportamento sexual "promíscuo e libertino" praticado por... homossexuais, claro. A perversidade de tal conexão, desnecessário dizer, nada mais fez do que reforçar preconceitos e estigmatizar milhões de pessoas por sua orientação sexual.

Na história da F-1, são raríssimos os casos de pilotos gays que tenham declarado sua condição publicamente. Além de Beuttler, entre os homens, é conhecida apenas a história do português Nicha Cabral, primeiro piloto do país a largar em um GP, uma figura adorável que só foi revelar sua homossexualidade aos 75 anos num depoimento à escritora Raquel Lito no livro "3º Sexo - Histórias de vida de 12 homossexuais portugueses" (HFBooks). "Hoje sou muito mais homossexual do que era aos 20 anos", disse à autora na época, com raro bom humor e sensação de liberdade para quem nasceu num país terrivelmente católico como Portugal.

Nicha Cabral: revelação aos 75 anos - Reprodução/Motor24 - Reprodução/Motor24
Nicha Cabral: revelação aos 75 anos
Imagem: Reprodução/Motor24

Mário de Araújo Cabral, seu nome de batismo, morreu em 2020, aos 86 anos, em meio à pandemia. Nascido na freguesia de Cedofeita, no Porto, disputou quatro corridas na categoria máxima do automobilismo entre 1959 e 1964. Bon-vivant, músico, ex-ginasta, colecionador de arte, galerista e antiquário, parou de correr em 1977, aos 43 anos, depois de construir uma carreira admirável com carros de turismo e protótipos. Sua última vitória aconteceu no histórico autódromo de Benguela, em Angola. Dirigiu a escola de Fórmula Ford no circuito do Estoril e revelou ótimos pilotos lusitanos que chegaram à F-1, como Pedro Lamy e Pedro Matos Chaves. Aqui pode-se ver Nicha em atividade em muitas pistas e com vários tipos de carro, piloto eclético que era.

Sabe-se também que a italiana Lella Lombardi, única mulher a pontuar em um GP de F-1, era homossexual. Sexta colocada no GP da Espanha de 1975, marcou meio ponto na corrida encerrada antes da metade por causa de um acidente com o alemão Rolf Stommelen, cujo carro voou sobre a arquibancada matando cinco pessoas. Lella morreu de câncer aos 50 anos, em 1992.

Lella Lombardi: mulher, gay e pé pesado - Reprodução/Formula1.com - Reprodução/Formula1.com
Lella Lombardi: mulher, gay e pé pesado
Imagem: Reprodução/Formula1.com

A F-1 não fala sobre homossexualidade. Na verdade, não fala sobre muita coisa, e pode-se atribuir a Lewis Hamilton os primeiros passos numa direção civilizatória a partir do dia em que o inglês vestiu uma camiseta pedindo o fim do racismo e se ajoelhou numa pista. E depois protestou com uma mensagem num pódio. E depois fez a Mercedes estabelecer um programa de contratação de representantes de minorias em sua fábrica. E depois passou a apoiar programas de formação de engenheiros pretos pela equipe.

Poucos o seguiram.

No lote de 20 pilotos que disputam o Mundial, o único além de Hamilton que diz alguma coisa é Sebastian Vettel. O alemão passou a vestir as cores do arco-íris: no tênis que calça, nas roupas que veste, no capacete que usa para correr em países como o Qatar e a Arábia Saudita — notórios afrontadores dos direitos LBGTQIA+ tratados com leniência por entidades internacionais.

Beuttler, Nicha e Lella não tiveram a chance de dizer ao mundo quem eram. O ambiente e o tempo em que viveram não permitiam. A seu modo, porém, lutaram e resistiram. Em silêncio, aceleraram. E foi de dentro de seus carros, pelo rugido ensurdecedor de seus motores, que saiu seu grito de liberdade. Pode ser que, na época, ninguém tenha escutado.

Hoje, ouvimos.

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