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Fábio Seixas

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como a Mercedes mudou de opinião em apenas 7 dias

O austríaco Toto Wolff, chefe da Mercedes, no fim de semana do GP do Azerbaijão  - Steve Etherington/Mercedes
O austríaco Toto Wolff, chefe da Mercedes, no fim de semana do GP do Azerbaijão Imagem: Steve Etherington/Mercedes

Colunista do UOL

21/06/2022 14h07

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Russell estava fazendo seu aquecimento para o GP do Canadá e um câmera o flagrou dando saltos para o alto. "É assim que você se aquece?", alguém perguntou. "Estou me preparando para as quicadas do carro", respondeu o piloto, com a fina ironia do humor britânico.

Irônica, também, é a posição da Mercedes no caso. A equipe passou meses reclamando do regulamento, das instabilidades do carro, do "porposing", as batidas contra o asfalto. O tom subiu em Baku, com as dores de Hamilton ao deixar o cockpit. Mas, agora que a FIA resolveu agir, Wollf e sua turma deram um passo para trás, na linha do "veja bem, não é pra tanto".

Após a corrida do Azerbaijão, no dia 12, o dirigente disse o seguinte: "Estamos há dois meses tentando resolver o porpoising e não conseguimos". Ele alertou para os níveis dos impactos sofridos pelos pilotos. "São 6G de carga vertical. Não é mais muscular, dói nos ossos."

Uma semana depois, milagrosamente, os problemas sumiram... e aqui a ironia é minha.

"O porpoising, como fenômeno aerodinâmico, está solucionado. A questão agora está mais no comportamento mecânico dos carros. São muito duros. Fica ruim para atacar as zebras, para enfrentar as ondulações", declarou o mesmo Wolff, em Montréal, no último domingo, dia 19.

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O inglês George Russell, da Mercedes, durante o GP do Canadá, no último domingo
Imagem: Jiri Krenek/Mercedes

O que aconteceu entre uma declaração e outra?

A Diretiva Técnica #39, da FIA, emitida na quinta-feira, dia 16. Após pressão de equipe e pilotos, a entidade máxima do automobilismo anunciou que vai "definir uma métrica, baseada na aceleração vertical dos carros" e então estabelecer um limite para as oscilações a cada GP.

A informação que circulou em Montréal é que a FIA pretende elevar em 10 mm a altura dos carros que estiverem acima desse limite de oscilações. Carros mais altos podem até balançar menos, mas são menos velozes. E isso é tudo o que a Mercedes não quer.

Em suma, o remédio revelou-se pior do que a doença. Daí a mudança repentina de discurso.

Talvez seja tarde demais para a Mercedes. Representantes técnicos das equipes foram convocados para uma reunião com a FIA nesta semana para discutir a aplicação da diretiva.

Engenheiros vão analisar dados coletados no Canadá e definir uma métrica tolerável para as oscilações. Segundo o comunicado emitido pela FIA na última quinta, a mudança será implantada ainda nesta temporada, no "médio prazo".

O maior receio de Wolff é perder o embalo que, aparentemente, começou no último fim de semana. Hamilton foi terceiro colocado, seu segundo pódio no ano, e Russell ficou em quarto, mantendo sua impressionante marca de terminar todas os GPs da temporada no top 5.

"O potencial está lá. Eu e a equipe estamos esperançosos", disse o heptacampeão no Canadá.

A próxima etapa do Mundial será em Silverstone, iniciando uma série de sete corridas em autódromos. Pisos mais regulares, em tese, tornarão as quicadas menos violentas. Mas caso continuem e ultrapassem o limite estipulado, a Mercedes pode ter que levantar seus carros.

E aí, boa parte do trabalho feito até agora irá pelo ralo...