PUBLICIDADE
Topo

Eliana Alves Cruz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Eliana Alves Cruz: Quando a guerra sobe ao pódio

Ivan Kuliak, atleta russo, fez exaltação ao exército da Rússia na Copa do Mundo de Ginástica - Reprodução
Ivan Kuliak, atleta russo, fez exaltação ao exército da Rússia na Copa do Mundo de Ginástica Imagem: Reprodução
só para assinantes
Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

15/03/2022 14h06

O ginasta russo Ivan Kuliak subiu ao pódio para ganhar a medalha de bronze da Copa do Mundo de Ginástica, no início deste mês de março, em Doha, no Qatar. Em seu uniforme, bem no meio do peito, se via uma grande letra "Z". Ivan levou a guerra imediatamente para dentro de um esporte olímpico. O "Z" faz alusão à expressão "za pobedu" (pela vitória) e está estampada em todos os veículos bélicos da Rússia.

O gesto do ginasta russo de 20 anos foi ainda mais simbólico porque o ganhador da disputa foi o ucraniano Illia Kovtu, logo, foi uma provocação muda, mas que gritou ao mundo e a imagem do uniforme de Kulliak foi estampada em todos os principais veículos do planeta.

A Federação Internacional de Ginástica (FIG) abriu um processo disciplinar contra Ivan pelo que classificou como "comportamento chocante do atleta". Realmente é. No entanto, não sabemos pelos mesmos motivos que levaram a Federação a abrir o processo. Vejamos.

Ivan Kulliak nasceu em 2002 e, como milhares de atletas ao redor do planeta, teve um treinamento nas forças armadas de seu país. Sabemos que para além de técnicas de combate, um treinamento militar é, sobretudo, uma preparação mental. Quanto de amor incondicional à pátria, aos seus símbolos e valores é preciso incutir para que alguém esteja disposto a dar sua vida por ela? Qual a dose de supervalorização de suas qualidades e aptidões é preciso ministrar para que alguém se ache capaz de envergar um armamento com potencial de arrasar um quarteirão, uma cidade...?

Isto posto, não choca que Ivan tenha feito o que fez, pois muito certamente para ele (e para muitos de seus compatriotas) seu ato foi heroico, corajoso e honroso com o seu "clã". O que apavora são em pleno 2022 as noções disseminadas sobre força, fraqueza, defesa, ataque, superioridade, inferioridade, fronteiras étnicas, pátria... no planeta inteiro.

Foram estes valores encruados na mente e no espírito que fizeram com que Ivan cortasse cuidadosamente cada pedaço do esparadrapo que formou o "Z" branco colado em seu peito, no lugar onde deveria estar o símbolo do próprio país. É o mesmo mergulho nesta espécie de "não pensamento", de "não reflexão" sobre o sentido da vida, leva pessoas tão jovens quanto o ginasta russo a entrarem em um blindado e bombardear uma creche, onde estão os filhos de pessoas que eles nunca viram e que não fizeram absolutamente nada contra eles.

Segundo contam, as competições olímpicas surgiram também como trégua entre as guerras em que as cidades-estados gregas viviam envolvidas. É estarrecedor como os séculos passaram, o mundo "evoluiu" e os europeus, ao invés de cada vez mais limitar a disputa no campo das modalidades olímpicas, levaram o olimpismo para dentro da própria guerra.