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Eliana Alves Cruz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Eliana Alves Cruz: O dia em que topei com Vladmir Putin

Vladimir Putin (centro), presidente da Rússia, na abertura do Mundial de Esportes Aquáticos em Kazan, em 2015 - Ian MacNicol/Getty Images
Vladimir Putin (centro), presidente da Rússia, na abertura do Mundial de Esportes Aquáticos em Kazan, em 2015 Imagem: Ian MacNicol/Getty Images
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Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

24/02/2022 11h05

O ano era 2015 e acontecia um Mundial dos Esportes Aquáticos na cidade russa de Kazan, quando vi de perto, muito perto, um dos homens mais poderosos do planeta: Vladmir Vladmirovitch Putin, o senhor da guerra da era pandêmica do século 21.

Eu era a chefe de imprensa da Confederação de Esportes Aquáticos e parte do grupo de mídia da Federação Internacional de Natação - FINA. Não dá para esquecer.

Para os que acham que competição esportiva é apenas a disputa entre atletas na arena, uma notícia: em eventos planetários, esporte é o que acontece nos intervalos da geopolítica. A Rússia é a supercampeã de nado artístico. A modalidade está nos Jogos Olímpicos desde 1984 e nestas nove edições, apenas os três primeiros não foram vencidos pelas russas, muitas delas egressas das famosas escolas de balé do país.

As grandes ameaças à poderosa armada sincronizada saíram das mãos (e pernas) de Estados Unidos e Canadá há muito tempo. Quem luta para tirá-las do ponto mais alto do pódio agora são outras forças e o pódio das Olimpíadas de Tóquio, ano passado, é bem interessante: Rússia, China e Ucrânia.

Kazan foi mais que um trabalho. Foi uma aula de tensão. Em um dos assentos que eu ocupava no centro de imprensa, alguém desenhou uma suástica e me vi forçada a alertar a segurança, que no dia seguinte fez uma varredura no estádio. Ali vi a primeira atleta da Coreia do Norte — Kim Kuk-Hyang — ser campeã mundial de saltos ornamentais e, como responsável pela FINA da sala de entrevistas da piscina de saltos, acompanhei a pesada coletiva de imprensa de uma adolescente de 16 anos, pequena e tímida. O mundo querendo extrair dela informações que ela jamais poderia dar, mesmo que soubesse.

Há sete anos, Putin entrou na Arena Kazan cercado por sua pesada segurança para a cerimônia de abertura, quando as luzes já estavam apagadas. O estádio, que três anos depois sediou jogos da Copa do Mundo de Futebol, teve uma belíssima piscina olímpica temporária montada onde antes podia se ver o gramado.

Sinceramente não esperava que ele estivesse lá. No entanto, eu estava esquecida de que para alguns países esporte é questão de estado, faz parte da cultura e está totalmente entranhado no sistema de educação. Meu assento, junto aos colegas da Federação Internacional, permitia vê-lo bem.

O ápice do show foi quando Putin foi anunciado e levantou-se para declarar a competição aberta e, acima dele, num jogo de luzes, surgiu a técnica da equipe nacional de nado artístico, Tatiana Pokroviskaya, uma celebridade por lá e que andou por aqui, pois ela treinou a seleção brasileira no início dos anos 2000.

Depois, nos corredores, obviamente cercado pelo rigor da segurança, ainda "topamos" com Putin a uma distância possível de observar que ali caminhava alguém totalmente ciente do seu poder e disposto a não abrir mão dele. Para além do esporte, a presença imponente de Putin lembrava àquele povo da região do Tartaristão, que tem língua própria, identidade e uma história, que eles também são Rússia.

O Mundial de Kazan, para mim, foi estressante por uma infinidade de motivos, mas foi, principalmente, um aprendizado a mais sobre como território se confunde com a vida e, por causa dele, como o mundo se assemelha a um dedo... prestes a destravar o pino da bomba.