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Eliana Alves Cruz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Os corpos das Mulheres Rei

Cena do filme "A Mulher Rei", com Viola Davis - Divulgação/Sony
Cena do filme 'A Mulher Rei', com Viola Davis Imagem: Divulgação/Sony

16/09/2022 09h31

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O novo filme protagonizado pela estrela norte-americana Viola Davis, "A Mulher Rei", em breve estará não apenas nas telas, mas nos corações e mentes de uma multidão no Brasil. Uma produção hollywoodiana que exalta o poder das Agoodojies, amazonas do antigo reino do Daomé (atual Benin) e que derruba num só golpe as cabeças enrijecidas na ideia de sexo frágil e, em acréscimo, todo o senso comum acerca da escravidão no continente africano, além de questionar privilégios de toda a sorte, mas estas são outras questões. Como dizem, senta que lá vem textão.

Ainda hoje, um dos primeiros obstáculos que uma mulher, que deseja praticar qualquer esporte onde a predominância é masculina, precisa enfrentar é o mito do "sexo frágil". Como se fôssemos ou tivéssemos obrigatoriamente que ser bibelôs de louça de penteadeiras antigas, aceitando toda sorte de preconceitos e estigmatizações que atingem as que insistem em praticar modalidades onde imperam o contato físico, a força e a disputa que se assemelha às batalhas campais.

Um comportamento social norteado pela mais falsa noção de que na linha da história da humanidade — comparativamente bem menor que a da história do planeta —, tivéssemos sempre tido este lugar "protegido" pela masculinidade. Como se mulheres não tivessem também de ir à luta pela sobrevivência e conquista de territórios muitas e muitas vezes da forma mais visceral.

As guerreiras do Daomé, as "Agoodjie", não são ficção. Existiram e é o único exército exclusivamente de mulheres que se tem notícia. Todo o resto está no terreno da lenda, do mito. Obviamente, um filme de Hollywood não consegue abarcar toda a complexidade de povos milenares. Está limitado por amarras diversas, mas o drama encenado pelo patriarcado também é milenar e está lá. É ele quem ainda hoje norteia a conta bancária menor de mulheres em relação aos homens, o assédio, a violência contra a mulher, a tentativa de deslegitimar e empurrar para o segundo plano qualquer uma que ouse sobressair.

Em 2021, o IBGE detectou que mulheres ganham 22% menos que os homens e que para cada real ganho por um homem branco, uma mulher negra ganha 0,43 centavos. Uma atleta ainda em pleno século 21 ganha menos que seu colega homem.

Apenas agora, em setembro de 2022, por exemplo, uma mulher foi escolhida para coordenar uma equipe de luta olímpica no continente sul-americano, a brasileira Lucimar Medeiros. O Wrestling é uma das modalidades em que as mulheres mais demoraram a entrar. É recente o ingresso feminino, pouco mais de 20 anos, considerando que o esporte está no programa desde a primeira edição dos Jogos Olímpicos da era moderna, em 1896.

O Brasil de Lucimar, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, tem números escabrosos. São ao menos sete estupros e três mortes por feminicídio a cada 24 horas com vítimas em sua maioria meninas com menos de 14 anos. As estatísticas apontam que, além de estuprador e assassino de mulheres, este é um país onde graça a pedofilia.

Em um cenário como o descrito no parágrafo anterior, parece lógico que mulheres busquem treinamento para autodefesa. Isto deveria ser, inclusive, tema de política pública de esportes. Os dados horríveis também explicam o motivo pelo qual uma parcela masculina esteja muito interessada em desestimular isto. Para uma mulher, em especial se ela for negra, a força e a destreza física sonegadas pelo mito da delicadeza feminina tem custo alto. Pode custar sua própria vida.

Agoodjie significa, em idioma Fon do antigo Daomé, a última muralha de resistência. Quem dera fôssemos muralhas, quem dera tantos corpos não sucumbissem por falsamente serem tomados como fracos. Quem dera as guerreiras do Daomé estivessem como enormes paredes protegendo o corpo de cada menina, cada moça...de cada uma de nós. Quem dera fôssemos todas Mulheres Rei.