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Zaidan: Treinadores não devem ser superestimados, mas tampouco subestimados

Muricy durante evento em SP - Vanessa Cuba
Muricy durante evento em SP Imagem: Vanessa Cuba
Claudio Zaidan

Claudio Zaidan é radialista há 44 anos. Em São Paulo, trabalhou nas rádios Jovem Pan e Trianon. Entrou na Rádio Bandeirantes em 1994, onde ficou por cinco anos. Voltou para Bandeirantes em 2001, onde atualmente é comentarista.

12/08/2019 04h00

Muricy Ramalho costuma dizer que a participação do treinador na atuação de um time é de mais ou menos 25 por cento, podendo chegar a perto de 30 por cento quando o time é ruim.

É claro que Muricy não pretende dar precisão matemática a esses números, mas quer apenas enfatizar que, ao fim, são os jogadores que resolvem as coisas. Quando o assunto é futebol, é preciso pelo menos considerar a opinião de um sujeito que ganhou, além de estaduais, quatro campeonatos brasileiros e uma Libertadores.

É claro que não se pode subestimar a importância de quem escala o time, determina quais serão as opções no banco e escolhe, durante o jogo, quem sai e quem entra; e ainda dá a palavra final sobre o esquema de seu time: se serão dois ou três zagueiros, um ou dois volantes, três ou quatro ou cinco no meio-campo, dois pontas e um centroavante ou dois atacantes à frente de uma linha de quatro meio-campistas. E o treinador precisa, também, entender e considerar a condição emocional de seus jogadores, além de tentar manter cada reserva preparado para ser utilizado.

E ele, muitas vezes, tem de lidar com insatisfações no elenco ou com situações que fogem de seu controle, incluindo atraso no pagamento dos salários ou condições precárias de trabalho. Não é moleza. Muricy, é óbvio, conhece tudo isso; no entanto, é exatamente sua experiência com situações assim que lhe mostraram que o árduo trabalho dos técnicos só dará bons resultados se ele contar com os jogadores certos. O treinador pode ter ideias excelentes, mas só os jogadores podem realizá-las.

De todo modo, há complexidade nessa história. É evidente que os brilhantes conceitos de Gusztáv Sebes sobre futebol não seriam suficientes para a formação daquela excepcional seleção húngara; o time era formidável principalmente por ter os craques Bozsik, Kocsis, Czibor, Hidegkuti e, é claro, o extraordinário Puskás. Mas, convenhamos, se não houvesse Sebes, aqueles jogadores de primeira categoria, mesmo garantindo a qualidade do time, ficariam confinados ao WM, ou seja, jogariam muita bola, mas não conseguiriam aqueles resultados históricos nem teriam revolucionado o futebol.

O mesmo vale para a Holanda de 74, que, aliás, radicalizou o que os húngaros inauguraram. Rinus Michels admitia suas diversas influências, da Hungria de Sebes ao Brasil de 70, passando por Jack Reynolds. As ideias estavam ali, à disposição, prontas para serem usadas, mas ele só conseguiu levá-las ao campo por contar com Neeskens, van Hanegem, Krol e o genial Johan Cruyff.

Por outro lado, esses jogadores, que necessariamente seriam grandes craques sob o comando de outro treinador, não teriam mudado o futebol se não fossem as ideias que Michels entendeu, aperfeiçoou e radicalizou. Concordo com Muricy quanto ao excesso de valorização do trabalho dos treinadores, mas vejo problemas também na argumentação dos que enxergam os técnicos como meros distribuidores de camisas.

Citei a seleção brasileira que venceu a Copa de 70, de resto o melhor time que vi. Nos últimos 49 anos, nunca faltou quem desprezasse a importância do trabalho de Zagallo e insistisse que qualquer treinador teria sido campeão com Gerson, Clodoaldo, Carlos Alberto, Jairzinho, Rivellino, Tostão e Pelé. Basta, porém, ler ou ouvir o que Gerson e Tostão dizem a respeito para perceber que Zagallo foi, sim, muito importante para que o Brasil ganhasse o título.

Claro que aquela reunião de craques, só comparável à geração campeã em 58 e em 62, poderia buscar a Jules Rimet com João Saldanha (que resgatou a força da seleção no classificatório para a Copa no México), ou com Dino Sani, ou com Otto Glória, ou com Aymoré Moreira. Tal consideração, no entanto, não deve ser tomada como falsa premissa para desvalorizar o que Zagallo fez em 1970.

Aconteceu a mesma coisa com Feola: diziam, e ainda dizem, que sua contribuição para o título de 58 foi não atrapalhar os jogadores. Com esse tipo de argumento, atropelam a história, ao ignorarem que Feola fez chegar à seleção os conceitos do húngaro Béla Guttmann, com quem o técnico brasileiro havia trabalhado no São Paulo.

Também sobre Guardiola e seu trabalho histórico no Barcelona, são rotineiros os comentários de que era fácil jogar tão bem tendo Messi, Xavi e Iniesta no time. De novo, vale ressaltar que nenhum treinador seria capaz de fazer esses jogadores serem comuns, mas, convenhamos, não são muitos os técnicos que teriam combinado perfeitamente seus talentos como fez Guardiola; tampouco há muitos que saberiam usar a velocidade de Puyol, para ter uma defesa tão adiantada, ou as qualidades ofensivas de Daniel Alves, ou a inteligência tática de Busquets e sua capacidade de iniciar as jogadas.

E o Liverpool destes dias? O time tem ótimos laterais, excelente goleiro, um zagueiro excepcional e atacantes de primeira linha, mas as duas finais seguidas na Liga dos Campeões e o título europeu só foram possíveis porque Klopp é um treinador brilhante e incomum. Sim, quando afirma que são os jogadores que resolvem as coisas, Muricy tem razão. Mas as grandes realizações nascem de grandes ideias.

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