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O fabuloso desperdício dos megaeventos

Delegação brasileira desfila na cerimônia de abertura das Olimpíadas de Inverno - Pool/AP
Delegação brasileira desfila na cerimônia de abertura das Olimpíadas de Inverno Imagem: Pool/AP
José Cruz

José Cruz

José Cruz, jornalista, trabalha no gabinete do senador Romário

20/12/2018 04h00

É comum encontrar, nas ruas de Brasília, jovens atletas pedindo dinheiro para viagens e competições. É uma triste demonstração de que os megaeventos esportivos que sediamos não passaram de festas de ocasião. Bilhões de verbas públicas que turbinaram a farra foram "desperdiçados" no alto rendimento.

Desperdiçados porque, a partir de 2003, quando o Brasil começou a se preparar para o Parapan-Americano do Rio de Janeiro (2007), as excelências-gestoras do esporte concentraram a grana nos competidores olímpicos, apostando em medalhas e mais medalhas, como se só isso tornasse o país reconhecidamente esportivo. 

Em treze anos (2003 - 2016), os inexperientes ministros que se sucederam no esporte foram incapazes de projetar o Brasil pós-Jogos. Não reservaram projetos de médio e longo prazos para a próxima geração de atletas, essa mesma que hoje está ao abandono e mendigando nas ruas, Brasil afora, e boa parte com chances de estar na delegação dos Jogos de Tóquio. E não venham com a história da "Bolsa Atleta", pois, limitada, ajuda alguns, enquanto é desperdício para outros. 

Na ânsia de ganhar pódios, a verba pública também sustentou 48 técnicos estrangeiros de 24 modalidades. Ao final, que conhecimento esses senhores transmitiram aos nossos profissionais? Que cultura o Brasil esportivo captou desse valioso intercâmbio financiado por grana oficial? 

Conforme a última matriz de responsabilidades, os Jogos Rio 2016 custaram R$ 41 bilhões, sendo que os governos federal, estadual e municipal participaram com R$ 17 bi, aí incluídas obras. No balanço final, a dívida do Comitê Organizador chega aos R$ 200 milhões. A fila de credores continua grande e não anda.

Agora, dois anos depois do evento, a realidade escancara o fracasso de nosso "modelo esportivo", que é o improviso, e inclui, por exemplo, a omissão das 804 escolas de educação física. Quantas oferecem formação de técnicos nas diferentes modalidades esportivas, paralímpicas, inclusive? Ainda em nível de ensino, seis em cada dez escolas públicas de educação básica não contam com quadras esportivas, segundo dados do Censo Escolar 2015, reforçando a fragilidade do tal "sistema".

Realizamos os megaeventos esportivos, e daí? Do slogan "Um Novo Mundo", dos Jogos Rio 2016, ficou apenas isso, uma frase de efeito. E até agora ninguém foi preso.

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