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André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Vitor Pereira e Mbappé dizem apenas o óbvio: somos Série B no mundo

Róger Guedes durante conversa com Vítor Pereira no CT Joaquim Grava  - Rodrigo Coca/ Ag. Corinthians
Róger Guedes durante conversa com Vítor Pereira no CT Joaquim Grava Imagem: Rodrigo Coca/ Ag. Corinthians
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André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

24/05/2022 09h25

Vitor Pereira citou o Liverpool para falar de Roger Guedes. Poderia não ter falado, mas foi franco e direto. Sem "media training". E apenas disse o óbvio.

O treinador português foi demitido pelo Fenerbahce na segunda quinzena de dezembro. Só fechou com o Corinthians dois meses depois. Antes, as sondagens brasileiras, inclusive do Flamengo, sequer chegaram ao staff do profissional. "Ele não tem interesse em trabalhar fora da Europa" era a resposta padrão.

Só quando se viu sem boas possibilidades aceitou vir para cá. Como fizeram Jorge Jesus, Sampaoli e outros. Eduardo Coudet comandava o Internacional, que disputava a liderança do Brasileiro 2020, e foi para o Celta de Vigo, que lutava contra o rebaixamento em La Liga. Só que era na Espanha, enfrentando Real Madrid, Barcelona, Atlético, Villarreal...

Jorge Jesus deixou o Flamengo, com contrato renovado, e foi para o Benfica. A pandemia atrapalhou, é óbvio, mas a "hierarquia" entre os clubes pesou. O time português joga Liga dos Campeões, o rubro-negro carioca disputa a Libertadores, cujo campeão só desperta um mínimo de curiosidade quando joga a final do Mundial com o campeão europeu. Isso quando consegue passar da semifinal...

É claro que para este colunista e todos que fazem parte da cadeia produtiva do futebol neste país, o ideal seria que o Brasileirão fosse uma NBA do esporte, com todos os talentos distribuídos pelos clubes e o mundo todo olhando para cá maravilhado. Mas não é assim que funciona.

Não só por causa do baixo valor do real em relação ao dólar, ao euro e à libra. Mas porque o futebol daqui não atrai. Estádios, gramados, arbitragem, nível técnico, de intensidade...

Por isso soa cada vez mais absurdo, e até populista, que se cobre tanto do treinador da seleção brasileira a convocação de atletas atuando por aqui. Querem comparar o que o jogador produz aqui com o que faz nos seus clubes em grandes ligas. Não é só a intensidade do jogo, que já demonstra um abismo e parece outro esporte. É, principalmente, o nível de enfrentamento.

Os dois jogos que Lucas Paquetá realiza pelo Lyon contra o PSG na Ligue 1 valem mais que uma final de Libertadores. Aqui não se está falando de currículo, emoção, festa nas ruas com a taça. Apenas o teste do jogador contra os melhores do mundo. E é isso que pesa para Tite, que, para complicar ainda mais, não pode realizar amistosos com as principais seleções europeias.

Deveria ser simples de entender, mas muitos relutam. Afinal, como disse um ex-colega de TV, "a gente fala com o torcedor do Flamengo, do Corinthians, do Atlético Mineiro e não com o do Chelsea, do Barcelona ou do Liverpool".

Por isso tem gente chiando com Vitor Pereira. Só que ele não diminuiu o Corinthians, apenas o colocou no seu devido lugar no cenário mundial. O clube não deixa de ser a coisa mais importante para o torcedor fanático, mas, na hierarquia do mercado, o Liverpool é onde a grande maioria gostaria de estar. Jürgen Klopp certamente está muito feliz e não pensa em mudar de emprego.

Kylian Mbappé, que renovou seu contrato com o PSG por cifras astronômicas, mas disse que chegou a ouvir o Liverpool, foi ainda mais direto em entrevista à TNT Sports:

"Na América do Sul, o futebol não é tão avançado quanto na Europa. E é por isso que, quando você olha para as últimas Copas, são sempre os europeus que ganharam", afirmou taxativo.

É isso. Antes havia alternância. Desde 2006 só os europeus vencem. No Mundial de Clubes a mesma coisa. Podemos debater a justiça disso, as consequências da Lei Bosman, os clubes com dinheiro suspeito de magnatas russos, árabes, etc.

Mas em termos de nível técnico e visibilidade, e num mundo conectado as duas coisas têm relação direta, não há comparação. Basta olhar para o campo. Somos Série B para o mundo e nem a conquista da Copa do Catar mudará esse cenário.