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André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Rocha: Renato e Abel seguem acertando e errando. Só um terá 100% de razão

Abel Ferreira, técnico do Palmeiras, com Renato Gaúcho, do Flamengo, ao fundo - Marcello Zambrana/AGIF
Abel Ferreira, técnico do Palmeiras, com Renato Gaúcho, do Flamengo, ao fundo Imagem: Marcello Zambrana/AGIF
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André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

18/11/2021 06h50

O gol de Bruno Henrique aos 48 minutos do segundo tempo, completando jogada espetacular de Rodinei, criou imagens no Maracanã de comunhão entre torcida e time, ainda que este repleto de reservas, que certamente serão tratadas como "o início da conquista" caso o time seja campeão da Libertadores no dia 27.

Se perder, com o autor do gol sobre o Corinthians, que ficou em campo mesmo sentindo dores no joelho esquerdo, jogando mal ou nem atuando contra o Palmeiras, a memória seletiva escolherá a imagem de Renato Gaúcho aceitando o pedido do camisa 27 para permanecer no gramado, agravando a lesão. Será condenado, assim como o departamento médico, de preparação física e fisiologia do clube.

Estes, em caso de triunfo em Montevidéu, verão os muitos casos de lesões reincidentes e longos processos de recuperação serem esquecidos, ou até tratados como um ingrediente dramático a mais em uma saga épica e vencedora. Se perder, até dossiê do que aconteceu nos últimos meses teremos, aquecendo o noticiário "fúnebre" e de caça às bruxas no Ninho do Urubu e na Gávea.

Assim como Abel Ferreira será alçado à condição de gênio da estratégia se o Palmeiras conquistar o tricampeonato e o treinador português for bi. "Contra tudo e contra todos", ar de colonizador e tom provocador na coletiva pós-título, provando para todo mundo que ele sempre esteve certo.

Mesmo sendo o comandante na pior campanha de um sul-americano no Mundial da FIFA, derrotado na Supercopa do Brasil e na Recopa Sul-Americana, eliminado precocemente na Copa do Brasil para o CRB e permitindo que o rival São Paulo encerrasse o jejum de 9 anos sem títulos no Paulista, além de nunca ter disputado de fato o Brasileiro, abandonando de vez a competição por pontos corridos assim que se classificou para a final continental.

Tudo terá sido um plano meticuloso para ganhar o mais importante. Inclusive utilizar time reserva em casa diante de 35 mil pessoas e levar 2 a 0 do mesmo tricolor do Morumbi, que com os três pontos inesperados poderá ter uma trajetória mais tranquila para se livrar de um inédito rebaixamento. O Palmeiras teve a chance de afundar o algoz no estadual, mas o planejamento de Abel falou mais alto.

Assim como o técnico, com o olhar alucinado, disse que estavam loucos os que achavam que ele poderia ter escalado titulares no "Choque-Rei". Ou feito uma mescla, o que, na prática, aconteceu no segundo tempo quando mandou a campo quatro titulares, ao menos em tese: Zé Rafael, Raphael Veiga, Rony e Gustavo Scarpa - ou Wesley, caso abra mão dos dois meias articuladores na decisão.

Caso seja derrotado, tudo virá à tona e Abel será durante bom tempo um meme de zoeira dos rivais nas redes sociais. A temporada 2021 será jogada no lixo e o desgaste de quase 70 partidas na temporada, quase 90 no ano solar e mais de cem desde novembro do ano passado, quando o treinador assumiu o time, não será levado em conta. Ele será o vilão, ou a piada.

Assim como a imagem de Renato Gaúcho com cara de derrotado nos 5 a 0 impostos pelo Flamengo no Grêmio que comandava em 2019 será reativada, para deleite de quem quer ver o time rubro-negro derrotado no Uruguai. E o técnico, sua comissão e quase todo departamento de futebol serão dispensados e varridos para o ocaso, mesmo entregando campanha invicta até a decisão, com 100% de aproveitamento a partir das oitavas de final.

Caso vençam, cuspirão nos críticos e dirão que tudo valeu a pena e tinha um "propósito maior". Tudo decidido em 90 minutos, 120 ou nos pênaltis. Por uma bola que bate na trave e entra ou sai. Por tantas coisas sobre as quais não se tem o menor controle.

Não importa. Entre Abel Ferreira e Renato Gaúcho, seus erros e acertos, só um terá 100% de razão na noite do dia 27 de novembro. E jogará o peso do tamanho de um continente nas costas do outro. Porque é assim que funciona.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL