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André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Rocha: A estranha gestão de carreira de Rogério Ceni

Rogério Ceni reestreia no São Paulo contra o Ceará, pelo Brasileirão - Ettore Chiereguini/AGIF
Rogério Ceni reestreia no São Paulo contra o Ceará, pelo Brasileirão Imagem: Ettore Chiereguini/AGIF
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André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

16/10/2021 08h20

Rogério Ceni deixou o bom trabalho no Fortaleza para assumir o Flamengo. De um dia para o outro. Pediu desligamento na segunda, já deu treino no Ninho do Urubu na terça e estreou na quarta, contra o São Paulo no Maracanã, pela ida da Copa do Brasil.

Foi campeão brasileiro, mas parece claro que criar identificação com um clube do sudeste será complicado, pela marca forte que criou como jogador e ídolo no Morumbi. Inclusive, foi este um dos muitos problemas que teve no Cruzeiro em 2019.

Desafio grande e uma linha tênue. Na tentativa de criar alguma identificação com a torcida que tem na memória sua imagem segurando a polêmica Taça de Bolinhas para o "algoz", Ceni fez uma afirmação confusa. Sobre o impacto que o Flamengo tem no Rio de Janeiro, diferente do que acontece em São Paulo, apesar da forte predominância do Corinthians.

Talvez passasse batido se não partisse de um atleta que sempre se posicionou publicamente a favor da única camisa que vestiu. Independentemente do contexto, o São Paulo estava sempre certo. Muitas vezes não estava, outras tantas ele nem precisava se pronunciar, já que não era dirigente, nem assessor de comunicação do clube.

Elogiou o Flamengo sem cativar, arrumou um problema sério com os tricolores. Depois da frustração da primeira experiência no Morumbi e do mal-estar que causou no ano passado, o bom senso sugeria um certo distanciamento. Para esfriar o incômodo e começar a criar uma saudade do ídolo. Talvez um bom trabalho em outro clube, mais distante dos principais centros.

Cada um sabe onde o calo aperta e a necessidade de trabalhar com o que se gosta não envolve apenas a questão financeira. Mas voltar ao São Paulo neste momento coloca Ceni desnecessariamente no olho de um furacão.

Primeiro porque a saída de Hernán Crespo não foi unanimidade. O argentino entregou o título estadual tratado como prioridade absoluta, não teve pré-temporada e precisou gerar rapidamente uma boa capacidade de competir. Principalmente por ter sido respeitoso com o clube e com o futebol brasileiro.

E ainda tirou foto com Ceni na despedida. O argentino sorrindo, o brasileiro aparentando constrangimento Com aquela expressão de eterno inconformismo que também não combina com o papel de "bombeiro", do gestor que chega para tirar peso do ambiente. O efeito é o contrário, carrega ainda mais. E de novo a pressa para mostrar serviço, acertando e já comandando treino na quarta-feira.

O que Rogério Ceni pode entregar é uma equipe que executa no campo o que treina. Convicções não faltam, inclusive para criar outra saia justa desnecessária logo na estreia. Escalou Orejuela e Benítez, depois de protestos de empresários contra Crespo porque não dava oportunidades à dupla.

É bem provável que o que Ceni disse na coletiva após o empate com o Ceará por 1 a 1 no Morumbi seja verdade. Trabalhou com o lateral colombiano no Cruzeiro e reconhece a qualidade técnica do argentino. Inclusive armando um 4-3-1-2 especialmente para encaixar o meia como "enganche". Este sistema pede laterais que tenham a força de Orejuela para jogar de uma linha de fundo à outra.

Mas ficou esquisito. Gerou mais uma desconfiança em quem já não está com muita boa vontade de aceitar sem ressalvas o ídolo de volta. Parece claro que falta a Ceni jogo de cintura, uma sensibilidade para se adaptar ao caótico futebol brasileiro. Não foi surpresa quando circularam informações de que Ceni pensava em se aventurar no exterior.

O resultado prático é que foi obrigado a ouvir no Morumbi torcedores gritando o nome de Crespo. E já tem pela frente um Majestoso, com o Corinthians melhor colocado e menos pressionado. O São Paulo está a nove pontos do maior rival e quatro acima do Bahia, 17º colocado e que tem um jogo a menos que o tricolor.

Ceni provavelmente dirá que é movido a desafios. Legítimo e até louvável. Mas saber se resguardar também é virtude. Faltando menos de dois meses para o fim da temporada, havia necessidade de criar tamanho risco para a própria carreira?

Pode dar muito certo, mas, se ocorrer, o treinador não será ovacionado. Soará como mera obrigação. Afinal, o time não estava no Z-4 quando ele assumiu e, no melhor cenário, aproveitar essa farra de vagas e parar na Libertadores, provavelmente nas fases preliminares, também não será visto como grande feito.

Ou seja, a única vantagem possível é estar empregado na Série A. Só que ele ainda é o treinador campeão brasileiro...Ceni vai construindo uma nova trajetória bem mais instável e menos coerente que a de jogador profissional. Uma gestão de carreira para lá de suis generis. Estranha, até. Vejamos como se sai desta vez.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL