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André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Rocha: Conexão entre público e seleção é o bom futebol, desde sempre

Neymar e Raphinha marcaram os dois primeiros gols da seleção brasileira contra o Uruguai pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2022 - 14/10/2021 - Lucas Figueiredo/CBF
Neymar e Raphinha marcaram os dois primeiros gols da seleção brasileira contra o Uruguai pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2022 - 14/10/2021 Imagem: Lucas Figueiredo/CBF
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André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

15/10/2021 09h19

Em 1984, a seleção foi reunida logo após o Brasileiro daquele ano, realizado no primeiro semestre. O primeiro amistoso seria contra a Inglaterra, no Maracanã. O técnico era Edu Coimbra, irmão de Zico, que fez um combinado com os melhores atuando no país.

Naquele ano, Fluminense e Vasco foram os finalistas, o Flamengo chegou até as quartas. A base era carioca, o que, naturalmente, animou as torcidas a comparecerem e as rádios do Rio promoveram a partida como um grande evento.

Mas o clima de empolgação no estádio foi definhando conforme o natural desentrosamento foi minando as forças da seleção e o golaço antológico de John Barnes, driblando cinco brasileiros, que decretou a vitória inglesa por 2 a 0, gerou aplausos para os ingleses e vaias para o escrete canarinho. No Maracanã, com apenas jogadores atuando no Brasil e maioria de times cariocas.

Em 2005, todos os craques daqui já atuavam na Europa. Mas a comunhão se deu pelo talento e, claro, por conta dos bons resultados. Especialmente entre o título da Copa das Confederações e a reta final das eliminatórias. Goleadas sobre Argentina e Chile foram o ápice da empolgação com Ronaldo, Ronaldinho, Robinho, Adriano e Kaká. Todos jogando bem longe do país de origem.

O tema conexão entre seleção e público hoje tem seu contexto, com as bolhas nas redes sociais segregando ainda mais e alimentando ódio entre rivais tradicionais e ocasionais no universo dos clubes. CBF e TIte entram no contexto apenas para serem contestados e ofendidos pelos que reclamam porque os atletas convocados ficam ausentes de jogos em um calendário que quase nunca para nas datas FIFA.

Há uma solução óbvia, que Tite resiste em seguir. Talvez por um senso de equidade, mas provavelmente para evitar críticas de comunicadores influentes, que adoram enfiar a camisa verde e amarela em qualquer um que se destaca minimamente no futebol local. Também para garantir a audiência do fanático que xinga, reclama, mas na hora do jogo liga a TV, nem que seja para rezar que um Guilherme Arana, Everton Ribeiro ou Gabigol não se lesione e desfalque seu clube na volta.

Basta convocar apenas os que atuam na Europa. Questão de lógica: se o único parâmetro para avaliar o sucesso de um ciclo de quatro anos é o título mundial, o mais recomendável é contar com aqueles que enfrentam ou jogam juntos com os melhores do mundo, duas vezes por semana. Nas principais ligas nacionais e na Champions. É a referência mais segura. E lá os campeonatos param! Melhor impossível.

Nos 4 a 1 sobre o Uruguai em Manaus, na melhor exibição da equipe de Tite desde 2017, sete titulares disputam a Premier League, campeonato nacional mais competitivo do planeta. Mais Paquetá e Neymar da Ligue 1, Alex Sandro da Série A italiana e Lucas Veríssimo, que atua no Benfica.

Intensidade, rapidez nas transições, Neymar aceso e Raphinha, a boa nova que atua no Leeds United comandado por Marcelo Bielsa, estraçalhando a defesa celeste. Dois gols do jovem ponteiro canhoto pela direita, outro do camisa dez que despertou. No final, Gabigol, que entrou na vaga de Gabriel Jesus, completou a goleada e foi ovacionado pelos rubro-negros no estádio. Mas ficou claro que a dinâmica ofensiva é mais eficiente sem o artilheiro do Flamengo.

O futebol jogado no Brasil é periférico. Questão de matemática. Mesmo com o domínio no continente de Flamengo e Palmeiras, lá as libras e os euros valem muito mais que o real e compram nossos talentos. Hoje de forma precoce, para serem desenvolvidos por lá. Os grandes clubes europeus não querem tirar os vícios desenvolvidos aqui.

Não é complexo de vira-latas, "puxar saco" de gringo e outras bobagens que se ouve e lê por aí. Apenas uma constatação óbvia, que nem deveria ser passível de discussão.

Que Tite tenha compreendido de uma vez e, praticamente classificado para o Mundial do Catar, cultive a própria paz convocando o que há de melhor jogando os mais importantes campeonatos do mundo e não se desgastando com reclamações dos torcedores daqui.

Pode ficar tranquilo que, se a seleção mantiver um nível de desempenho próximo ao do espetáculo contra os uruguaios, será apoiada, mesmo com "gringos" sem história nos grandes clubes daqui. Como Raphinha, que empolgou na "linguagem" que melhor se comunica com o público, que quer a seleção vencendo e entregando entretenimento de qualidade: o jogo eficiente e bonito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL