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André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Brasileiros sofrem mais do que deveriam na Libertadores

Gustavo Scarpa disputa bola na partida do Palmeiras contra a Universidad Católica, pela Libertadores - Staff Images / CONMEBOL
Gustavo Scarpa disputa bola na partida do Palmeiras contra a Universidad Católica, pela Libertadores Imagem: Staff Images / CONMEBOL
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

16/07/2021 08h09

O Brasil ostenta domínio recente na Libertadores com os títulos de Flamengo e Palmeiras. Tem boas possibilidades de colocar todos os times representantes nas quartas de final da edição 2021, com o cenário mais simples do Fluminense e o mais complexo do São Paulo.

Seriam seis brasileiros e, provavelmente, mais dois argentinos nas quartas. As chances da terceira conquista consecutiva ficariam enormes.

Mas por que, ao olharmos para o campo, os times brasileiros sofreram tanto nas partidas de ida das oitavas de final - uns mais, outros menos?

O Fluminense fez 2 a 0 sobre o Cerro Porteño em Assunção e poderia ter liquidado a fatura com pelo menos mais um gol, entre as 15 finalizações, 12 de dentro da área e sete no alvo. Foi a vitória mais consistente, sem dúvida. Mas, ainda assim, cedeu 12 finalizações, oito de dentro da área e cinco no alvo. Sem contar o gol mal anulado, erro absurdo da arbitragem já admitido pela Conmebol, quando o placar era 0 a 0.

O time de Roger Machado teve apenas 38% de posse. Foi objetivo com Nenê e Egídio e aproveitou os espaços cedidos pelo time paraguaio. Mas sempre fica a dúvida do que poderia ter construído com uma postura mais agressiva e ocupando o campo de ataque. É bem provável que voltasse classificado.

Entre os clubes de maior investimento, o Atlético Mineiro era o que tinha a missão, em tese, mais complicada enfrentando o Boca Juniors na Bombonera. Time com camisa e tradição, porém muito fragilizado. Ainda assim, em um jogo direto, de abafa com 31 cruzamentos, conseguiu ter mais chances. O Galo até ficou mais com a bola (56% de posse), mas finalizou apenas seis vezes, duas no alvo. Contra 11 do time xeneize, quatro na direção da meta de Éverson e uma na trave.

Não é absurdo dizer que Flamengo e Palmeiras, últimos campeões, passaram vergonha em termos de desempenho, apesar dos importantes . resultados. Ambos dependeram fundamentalmente de seus goleiros para garantir as vitórias de 1 a 0. Foram seis defesas de Weverton e sete de Diego Alves.

O campeão de 2019 ao menos tem a desculpa da troca de treinador e da força do adversário, campeão da Copa e da Recopa Sul-Americana. Já o atual vencedor encarou a Universidad Católica, que era um dos oponentes mais acessíveis neste início de mata-mata. Poderiam entregar bem mais, mesmo como visitantes.

O mesmo com o Internacional, apesar dos 54% de posse e das 11 finalizações, três no alvo. Porque o jogo no Estádio Manuel Ferreira sempre pareceu nas mãos do Olimpia, com seus ataques mais diretos que fizeram do goleiro colorado Daniel, com cinco defesas, o melhor jogador em campo. O time de Diego Aguirre viveu de ligações diretas e pouco construiu.

Por fim, o São Paulo. Único a abrir as oitavas em casa por perder a liderança do Grupo E, justamente para o Racing. Ainda se recuperando do esforço e da catarse em busca do titulo paulista que encerrou jejum de oito anos sem taças, o time do Morumbi teve o jogo à feição quando abriu o placar com Vitor Bueno.

Com apenas 41% de posse, conseguiu finalizar 11 vezes, cinco de dentro da área e quatro no alvo. A melhor chance também com Vitor Bueno, que perdeu gol feito. Cedeu o empate no gol de Copetti e vai decidir na Argentina com o cenário mais desfavorável, mas ainda possível.

Por que tanto sofrimento? A resposta é um paradoxo. Ao mesmo tempo que times brasileiros só costumam respeitar, de fato, Boca Juniors e River Plate como grandes rivais, o mito "Libertadores é guerra" transforma todos os jogos em uma batalha temida, na qual a preocupação deve ser não se deixar intimidar pelos rivais, nem afinar para a arbitragem. Muitos acabam esquecendo do futebol, se livrando da bola e jogando apenas à base de especulação.

É claro que o calendário nacional também não ajuda. O Brasileiro teve rodadas seguidas com jogos quarta/quinta e sábado/domingo nas últimas semanas e o desgaste tem muita relevância nesta conta. No planejamento dos treinadores vale a pena administrar mais fora para definir em casa.

Um risco, sem dúvida. E as eliminações como mandante, inclusive do próprio Flamengo na defesa do título no ano passado contra o Racing no Maracanã, são exemplos do perigo que os brasileiros correm.

Favoritos, com maior capacidade de investimento que a grande maioria. Mas que muitas vezes ficam devendo em desempenho, apesar dos bons resultados, no geral. Passa por questões táticas, até porque treinadores brasileiros estão longe de ser os melhores do continente. Mas a força mental também conta muito.

Os brasileiros menosprezam antes e se apequenam nas partidas. O "jogo de Libertadores" poderia ser mais jogado e menos falado e pilhado. Sem esse medo que não faz sentido e só atrapalha.

(Estatísticas: SofaScore)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL