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André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Final da Euro vale bem mais que festa VIP de duas celebridades

Jorginho comemora classificação da Itália para a final da Eurocopa - Getty Images
Jorginho comemora classificação da Itália para a final da Eurocopa Imagem: Getty Images
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André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

09/07/2021 08h32

A Itália jogou o melhor futebol da Eurocopa desde a fase de grupos. Muito volume de jogo, conceitos atuais no padrão de atacar e pressão na frente para sofrer menos na defesa.

Só a Espanha tirou o conforto da equipe comandada por Roberto Mancini na semifinal. Ficou com a bola e obrigou a Azzurra a apelar mais vezes para o "contropiede", marca de várias seleções e times italianos na história do futebol. Não por acaso interrompeu a sequência de 13 vitórias, mas aumentou a invencibilidade para 33 partidas.

Sentiu e vai sentir na final em Wembley a falta de Spinazzola, que rompeu o tendão de Aquiles. O melhor lateral da Euro, de sintonia perfeita com Insigne pela esquerda. Destro, ora abre o campo, ora ataca por dentro. Emerson Palmieri não é ruim e até finalizou no travessão contra a Espanha, porém não entrega a mesma qualidade e entrosamento.

Mas a mobilização geral em torno de Mancini e sua comissão técnica e a sede de redenção da tetracampeã mundial podem fortalecer um aspecto importante em decisões: a força mental. Simbolizada pela frieza de Jorginho no último pênalti da semifinal. Mas a Itália pode ser quente também, como a intensidade da liderança de Bonucci e Chiellini desde a defesa.

Tudo será importante para a superação em final fora de casa. Contra uma Inglaterra que chega à decisão com maior consistência a partir das oitavas de final. Quebrando jejum histórico contra a Alemanha, atropelando a Ucrânia e superando a impressionante Dinamarca apenas na prorrogação. Com pênalti para lá de duvidoso sobre Sterling convertido por Harry Kane.

Não tira, porém, os méritos da seleção que chegou à semifinal da Copa do Mundo em 2018 e agora supera a marca, alcançando a decisão continental. De Gareth Southgate, treinador que muda peças e sistemas de acordo com o adversário. Que só foi sofrer um gol na semifinal, mas joga voltada para o ataque.

Com Sterling desequilibrando, Kane aparecendo nos momentos decisivos e jogo coletivo eficiente, adicionado pelo "sangue nos olhos" que faltou tantas vezes na seleção que ganhou fama de "blasé" e sem fibra em disputas eliminatórias. Agora carrega ligeiro favoritismo, pelo fator casa, como em 1966, e pelo grupo homogêneo que oferece mais peças para manter ou melhorar o desempenho.

A final da Eurocopa será um brinde ao futebol cada vez mais coletivo. Que premiou Liverpool, Bayern e Chelsea nas últimas edições da Liga dos Campeões. Continente que venceu as últimas quatro edições de Copa do Mundo, em um domínio inédito. Nada ocasional, ou sazonal. Basta olhar para o campo e notar a diferença.

Mesmo que o jogo seja ruim, como as finais costumam ser as pela tensão e por tudo que envolvem, ainda assim será bem maior que a festa VIP de duas celebridades marcada para um centro histórico na América do Sul. Com abadás caros, que já mandaram na concorrência e hoje patinam em busca de afirmação além das fronteiras.

Torneio sobre mais de meio milhão de cadáveres, que teve um desprezo coerente neste espaço. De nível fraco, mas com uma final "grandiosa" para mascarar, lembrando muito as edições do Brasileiro nos anos 1970/80/90, que eram inchados, deficitários e com estádios vazios na maioria dos jogos. Mas com finais marcantes que ficaram na memória afetiva e seletiva como "bons tempos".

Não eram, assim como o momento seria de decência e competição cancelada. Não foi e agora querem enfiar goela abaixo como evento espetacular uma disputa entre dois craques. Geniais, sim, mas que não conquistam nada relevante desde 2015.

Justamente porque o jogo está cada vez mais intenso, tático, associativo. Cada vez menos focado em individualidades. Midiáticas, porém ineficientes no mais alto nível. Uma ilusão que só cola por aqui. Lá o nível é outro. Ainda bem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL