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André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A Euro maluca e nossa régua cada vez mais injusta com a seleção brasileira

Mbappé se desculpa por pênalti perdido em eliminação da França na Eurocopa - Reprodução/Instagram
Mbappé se desculpa por pênalti perdido em eliminação da França na Eurocopa Imagem: Reprodução/Instagram
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André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

29/06/2021 09h26

O Brasil foi campeão mundial em 2002. Depois venceu Copa América, Copa das Confederações e foi líder das eliminatórias. Era a grande favorita para a Copa de 2006 na Alemanha, com um grupo repleto de talentos. Não foi bem, caiu para a França nas quartas. Qual a impressão geral de todo o ciclo de quatro anos? Fracasso absoluto.

Na cabeça de muitos brasileiros, de todas as gerações, a seleção sempre perde a Copa do Mundo para si mesma. Por falhas de vilões, ou "amarelões". De Barbosa, pelo gol de Ghiggia em 1950, passando por Zico e o pênalti perdido contra a França em 1986...até Neymar em suas últimas tentativas de entrar para o grupo de vencedores na história do país cinco vezes campeão mundial.

Missão cada vez mais inglória pelo equilíbrio geral. Mais ainda no universo das seleções, com as principais disputas no final da temporada europeia e os jogadores exaustos física e mentalmente. E o Velho Continente captando e desenvolvendo talentos de todos os países que praticam o esporte em nível mais alto.

Na terça maluca da Eurocopa, a Croácia de Luka Modric, que joga no Real Madrid, foi buscar o empate depois de levar 3 a 1 de virada da Espanha. Para perder na prorrogação com o destaque do adversário sendo Dani Olmo, que foi da base do Barcelona, passou pelo Dinamo Zagreb antes de brilhar no Leipzig e parar na seleção.

A França dos craques, com Pogba brilhando e irritando torcedores do Manchester United, também abriu 3 a 1 e resolveu descansar em campo poupando energias ao se imaginar classificada para as quartas. Mas a Suíça de Seferovic, que comanda o ataque do Benfica de Jorge Jesus, não se entregou mentalmente e lutou até empatar. Para vencer nos pênaltis, com o goleiro Sommer, que joga no Borussia Monchengladbach, defendendo a cobrança de Mbappé, estrela global e candidato a melhor do mundo nos próximos anos.

A República Tcheca já havia surpreendido a Holanda 100% na fase de grupos. A favorita Itália sofreu contra a Áustria e Portugal perdeu a chance do bi continental com a eliminação para a Bélgica, que passa a ser uma das principais candidatas ao título. Seleção de Lukaku e De Bruyne que eliminou o Brasil nas quartas em 2018.

Um vexame na cabeça de muitos brasileiros. Um revés em Copa do Mundo só tem alguma dignidade se for para Alemanha, Itália e Argentina. Ou alguma seleção lendária, como Hungria de 1954 ou o carrossel holandês em 1974. Mesmo assim sempre sobra a execração pública para alguém.

Uma loucura, tremenda injustiça. O Brasil é o maior campeão de um grupo que até 1998 só tinha seis campeões em 15 edições e ganhou mais dois, França e Espanha nas últimas duas décadas. Alguém duvida que possamos ter um vencedor inédito ano que vem no Catar?

A própria Euro pode seguir um caminho tradicional e ir para um dos maiores campeões, Alemanha ou Espanha. Ou resgatar a Itália, campeã em 1968. Mas quem pode duvidar de Bélgica, Suíça ou mesmo Suécia, que surpreendeu liderando o grupo da Espanha? Mas pode cair diante da Ucrânia. Comandada por Andrey Schevchenko, ex-craque do Milan e um dos símbolos do futebol globalizado do início do século.

O Brasil de Tite estreou na Copa de 2018 empatando por 1 a 1 com a Suíça e o mundo caiu sobre a cabeça de treinador e jogadores. Tudo ficou ainda mais traumático depois dos 7 a 1 de 2014 e com o ódio nas redes sociais de um país rachado. O técnico assumiu depois de uma eliminação na Copa América de 2016 e fora da zona da classificação para a Copa nas eliminatórias.

Hoje nada de braçadas no continente, tem 84% de aproveitamento geral e é obrigado a conviver com boatos sobre demissão. Se não tivesse vencido a Copa América de 2019, talvez nem a ausência de Neymar servisse como atenuante. E mesmo com a conquista a crise parece sempre por um fio.

Ganhar a Copa do Mundo nunca foi fácil e agora está mais complicado. Não só pelo equilíbrio geral, mas principalmente porque os europeus se fecharam entre si. Nas datas FIFA jogam eliminatórias da Euro, da Copa ou a Liga das Nações. Poucos amistosos, normalmente entre eles também. A possibilidade de testar a força diante dos grandes concorrentes ficou muito mais limitada.

Mas o brasileiro só aceita o título. É apogeu ou fracasso. Régua cada vez mais injusta. A Euro é bem melhor que essa Copa América improvisada e absurda, mas não significa que as seleções sul-americanas não possam surpreender no Catar. Há muita qualidade, especialmente dos que se destacam nos principais centros.

Só que os europeus venceram as quatro últimas edições do Mundial. São os favoritos naturais, mesmo em uma Copa atípica, disputada entre novembro e dezembro. O Brasil pode vencer, porém vai precisar de um contexto muito favorável, como em 2002: favoritas eliminadas, arbitragens "generosas" e talentos brilhando nos momentos decisivos.

Não é fácil, nunca foi. Mas por aqui o que é raro e deveria ser mais celebrado é tratado como obrigação. E se não tiver espetáculo, como em 1994, ainda há narizes torcidos. Uma insanidade sem par que se retroalimenta a cada quatro anos. Inabalável, mesmo vendo o sofrimento alheio diante de forças emergentes. Nem uma Euro maluca é capaz de mudar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL