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André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gostem ou não, Gerson tem mesmo que se provar na Europa

Gerson, do Flamengo, durante o duelo com o América-MG, pelo Brasileiro - Alexandre Vidal / Flamengo
Gerson, do Flamengo, durante o duelo com o América-MG, pelo Brasileiro Imagem: Alexandre Vidal / Flamengo
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

15/06/2021 07h49

"Eu realizei um sonho, né? De ter a oportunidade de vestir o manto sagrado. Está acabando, mas espero um dia voltar. Muito feliz por tudo o que vivi aqui dentro, e espero que o Flamengo continue conquistando muitas coisas. Espero um dia voltar a vestir a camisa tão sonhada".

Palavras de Gerson, logo após a vitória sobre o América por 2 a 0 no Maracanã. Confirmando a saída para o Olympique de Marselha, um negócio de cerca de 15 milhões de euros, mais aditivos por metas. Aos 24 anos retorna ao futebol europeu, depois de passagens por Roma, clube que o contratou ao Fluminense em 2016, e Fiorentina, por empréstimo em 2018.

Mesmo com todo destaque por aqui, a "porta de reentrada" no principal centro do planeta é Jorge Sampaoli, com recente passagem pelo futebol brasileiro. Treinando Santos e Atlético Mineiro, tendo o Flamengo como grande adversário, o bicampeão brasileiro.

Mas apenas esse currículo não credencia o meio-campista a voltar no mais alto nível, em um clube capaz de disputar o título da Liga dos Campeões. Justamente porque o parâmetro ainda é o que ele produziu na Itália. No cenário atual, é obrigatório se firmar ou demonstrar evolução por lá. No limite, voltar para casa é sinal de fraqueza.

Gerson precisa se provar na Europa. Ir bem no Olympique e despertar interesse de algum clube em prateleiras mais altas. Eurocentrismo? Não, apenas a constatação de que para estar entre os melhores é preciso se destacar contra eles. Nem ser o craque da Olimpíada de Tóquio ajudaria nessa avaliação.

Até porque, a rigor, Gerson teve apenas dois jogos pelo Flamengo que podem ser considerados de um nível internacional mais alto: em 2019, final da Libertadores contra o River Plate e a decisão de Mundial de Clubes diante do Liverpool. Em ambos, o desempenho não foi destacado, deixando a impressão de que faltou intensidade. O desgaste pelo fim da temporada brasileira serve como atenuante, mas reforça o questionamento: será que ele tem condições de render na elite?

Vale também para a seleção principal. Ainda mais no contexto atual, de poucos jogos contra as seleções europeias, que praticamente vivem entre elas disputando Eurocopa, incluindo as etapas preliminares, as eliminatórias para a Copa e agora a Liga das Nações. Como Tite vai saber com quem pode contar para a Copa do Mundo?

O parâmetro mais confiável é o desempenho contra os melhores. O que Gabriel Jesus fez contra Varane? O que Richarlison produziu contra Rúben Dias? Como Fred fez para marcar Kevin De Bruyne ou duelar com Kanté? Como Paquetá se saiu contra Verratti?

Gerson precisa oferecer essas referências. Gostem ou não, é a realidade. O argumento de que "somos pentacampeões" hoje vale bem pouco. Até porque o último título foi em 2002. O futebol era bem diferente. Até a conquista intercontinental mais recente, o Mundial de Corinthians em 2012, já faz parte de um passado distante dentro da velocidade com que o futebol evolui na Europa.

É urgente que, de uma vez por todas, acabe a distorção de impor um jogador que se destaca em clube brasileiro na seleção. O Gerson arrebentar no Flamengo campeão não tem peso maior que uma temporada com relativa consistência na Europa, mesmo sem conquistas. As convocações de Tite, com uma ou outra exceção, deixam a impressão de que os que jogam aqui entram em uma espécie de "cota" para manter alguma conexão do torcedor, clubista ao extremo, com a seleção.

Perde a magia? Discutível. Os destaques do título mundial de 2002 já jogavam na Europa: Cafu, Roberto Carlos, Rivaldo e os Ronaldos. A tão incensada seleção do ciclo seguinte também. No fundo, o que tira o asterisco de uma geração é o título mundial. Se Neymar for campeão no Catar como protagonista certamente subirá algumas prateleiras entre os craques históricos.

Para ter alguma chance de ir ao Mundial no ano que vem, Gerson precisa enfim vencer no Velho Continente. Seis anos depois e aparentemente mais maduro, poderá completar a evolução como meio-campista completo. Soltando a bola mais rapidamente e com maior concentração no trabalho defensivo. Potencial não falta.

Que a promessa de voltar a vestir a camisa do time de coração só seja cumprida depois da consagração na nata do futebol mundial.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL