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André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que o Guarani, não o Sport, me impede de chamar o Flamengo de octa

Flamengo é campeão do Campeonato Brasileiro 2020 (Reprodução/TV Globo). - Reprodução / Internet
Flamengo é campeão do Campeonato Brasileiro 2020 (Reprodução/TV Globo). Imagem: Reprodução / Internet
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

27/02/2021 08h02

Copa União de 1987 é uma das discussões mais desagradáveis do futebol brasileiro. Porque quase sempre ninguém quer discutir o mérito da questão e sim impor a própria narrativa, independentemente dos fatos. Invariavelmente descamba para bairrismo e clubismo, tudo que há de pior no nosso debate. E em tempos de terraplanismo e negação da Ciência, o que eu acho não pode estar acima do que eu sei.

O Flamengo venceu o principal torneio nacional daquela temporada. Um ano que ajuda a desmistificar o passado e abalar qualquer discurso saudosista. Em 1987 houve o risco real de não termos um campeonato brasileiro. Tente imaginar isso hoje no planejamento de qualquer clube. Sem calendário e previsão de receitas, inclusive de TV.

Diante do vazio deixado pela CBF, entidade que deveria garantir a competição, os clubes se organizaram para resolver um problema imediato. A preocupação era com o dia seguinte, não com a história. E cometeram um erro grosseiro, que com a distância do tempo e o contexto atual fica ainda mais absurdo.

Você consegue imaginar o Brasileiro de 2021 sem o Internacional, vice-campeão de 2020? Pois é, a Copa União excluiu o Guarani, que perdeu o título de 1986 nos pênaltis para o São Paulo em uma das finais mais eletrizantes da história. De Evair, João Paulo, Marco Antônio Boiadeiro...e Tite. Sim, o técnico da seleção jogava no meio-campo daquela equipe comandada por Carlos Gainete. Assim como agora, por conta da pandemia, aquele Brasileiro também terminou no ano seguinte. A final foi em 25 de fevereiro de 1987.

Como é que em setembro poderiam começar um campeonato sem esse Guarani e também o América, terceiro colocado? Na ânsia de criar um torneio rentável e atraente para TV e o patrocínio forte da Coca-Cola, uma enorme injustiça foi cometida. Isso ajudou a CBF, a principal culpada por toda celeuma, aparecer como a "justiceira" e, ao impor um cruzamento com o tal módulo amarelo que contava com o Guarani, criar o imbróglio que foi parar na Justiça.

Façamos um exercício de empatia, aquele esforço de se colocar no lugar do outro: imaginemos que o Flamengo, vice do Brasileiro de 2018, fosse excluído da Série A no ano seguinte por uma decisão politica, alheia ao mérito esportivo. Não haveria Jorge Jesus, recorde nos pontos corridos, tardes e noites épicas no Maracanã lotado. Algum flamenguista acharia justo?

No mundo ideal, Flamengo e Sport dividiriam o título. Porque os pernambucanos têm razão jurídica e os cariocas, a esportiva. Mas virou uma questão de honra para o Sport, por ver sua vitória legal desrespeitada, fora a questão regional, a demonização do "eixo" e outras discussões que sempre inviabilizaram um acordo.

E a cada título brasileiro do Flamengo a polêmica retorna. Agora é octa ou hepta?

A opinião deste que escreve sempre foi a de que o clube carioca deveria valorizar mais a história do último grande título de Zico, que se aposentaria dois anos depois. Uma conquista com a marca do Flamengo, que atropelou na reta final com a torcida levando no colo uma equipe talentosa, porém irregular no desempenho.

O time de Zico, mas também de Leandro e Andrade, remanescentes das grandes conquistas do início daquela década. De Renato Gaúcho, grande destaque individual daquela Copa União. De Jorginho, Leonardo, Zinho e Bebeto, que seriam campeões mundiais em 1994. De Edinho, zagueiro de três Copas do Mundo. De Zé Carlos, goleiro convocado em 1990 e que fez história no clube. E de Ailton, campeão por onde passou e autor do gol do último título brasileiro do Grêmio. O único sem convocações para a seleção. Todos sob o comando de Carlinhos, para este colunista o maior treinador da história do Flamengo.

Mas o clube desgasta esse fantástico capítulo buscando uma equiparação que não tem amparo legal. Sempre vai esbarrar na decisão de última instância, no STF, que favoreceu o Sport. Que dificilmente vai abrir mão ou compartilhar essa vitória. E com razão. Imagine você conquistar algo legítimo e dizerem na cara dura, "porque sim", que aquilo não vale.

Seria muito mais nobre o Flamengo se orgulhar de ser "hepta e campeão da Copa União de 1987". Valorizaria a conquista e não a jogaria em um balaio que sempre dá munição para um "anti" apontar o dedo. E apelar para as teses de conspiração de sempre: "Flamengo é o time da CBF, da Globo, da CIA, dos Illuminati..."

É cansativo. Por isso digo que o Flamengo é o bicampeão brasileiro. Com sete títulos oficiais. E a incrível Copa União de 1987, de lembranças fantásticas para o jovem torcedor de 14 anos à época. Até porque ninguém escolhe um time para torcer pelo número de títulos, E essa competição ainda arrasta para outra polêmica, que é a equiparação em uma canetada da CBF, para Ricardo Teixeira fazer política, da Taça Brasil e do Robertão com os Brasileiros a partir de 1971. Mais que discutível, porém outra decisão oficial. Não importa o que eu ache. E no país da negação da Covid-19 já temos opiniões demais.

Haja estômago e paciência para aturar visões enviesadas e apaixonadas. Eu evito. Me garante menos acidez no estômago.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL