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André Rocha

Inter de Abel dispara. Futebol brasileiro é só mobilização e Davi x Golias?

Abel Braga comemora vitória do Inter sobre o Grêmio com jogadores - Ricardo Duarte/Inter
Abel Braga comemora vitória do Inter sobre o Grêmio com jogadores Imagem: Ricardo Duarte/Inter
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

25/01/2021 07h48

O Internacional teve o domingo perfeito na 32ª rodada do Brasileiro. Todos os concorrentes ao título perderam e ainda virou o Gre-Nal nos últimos minutos encerrando uma sequência de 11 jogos sem vencer o maior rival. Foi a oitava vitória consecutiva no Brasileiro, líder absoluto agora com quatro pontos sobre o São Paulo

Vitória construída com polêmicas de arbitragem - este que escreve não marcaria o pênalti que definiu os 2 a 1, em toque no braço de Kannemann. E a virada foi mais na fibra e no abafa nos últimos minutos, com Abel Hernández na área gremista para empatar e a confusão na área que terminou na penalidade confirmada por Luiz Flávio de Oliveira e convertida com categoria por Edenilson.

O Internacional se recusou a perder e soube canalizar a raiva de derrotas seguidas para o Grêmio para vencer e não provar quem era mais macho, como aconteceu na maioria dos confrontos recentes. Mais uma vez, Abel Braga soube mobilizar seus jogadores. Para se agigantarem diante de um tabu e do rival mais vencedor nos últimos anos. Um Davi x Golias, mesmo com o Colorado no topo da tabela.

Depois das eliminações na Libertadores e na Copa do Brasil, as muitas críticas ao treinador e à direção e a informação, nunca confirmada oficialmente, de que o clube já havia contratado Miguel Ángel Ramírez para a próxima temporada. O Inter virou "zebra" e, "mordido", partiu para uma reação inimaginável.

Se conquistar o título, será mais um treinador experiente a faturar o Brasileiro. Assim como Felipão em 2018 pelo Palmeiras e Jorge Jesus no ano passado com o Flamengo.

Sim, o português que passou como um cometa pelo país, faturou cinco títulos com apenas quatro derrotas e deixou os rubro-negros órfãos e desorientados. Parecia ter subido o sarrafo do futebol nacional ao montar um time ofensivo e competitivo, com linhas adiantadas, pressão constante no campo adversário e ímpeto ofensivo incomum.

Mas será que o grande mérito de Jesus não foi unir todos em torno da causa do Flamengo fazer valer os investimentos recentes e convertê-los em taças? E como o Davi da mitologia bíblica, mesmo com um timaço à disposição, já que o alvo era o Palmeiras, campeão do ano anterior e que chegou a liderar com folga no início da edição 2019.

Em entrevista recente ao jornal "O Globo", Filipe Luís fez um relato interessante, mas ao mesmo tempo inusitado sobre uma das vitórias mais importantes da campanha: no 1 a 0 sobre o Santos no Maracanã, Jorge Jesus preparou o time durante uma semana para não tentar jogar, apenas esticar bolas para Bruno Henrique. O motivo era a capacidade do time de Jorge Sampaoli de recuperar bolas no campo de ataque. O português não queria correr riscos. Acabou vencendo em um contragolpe, mas acionando Gabigol, que marcou um dos gols mais bonitos do campeonato.

Filipe Luís discordou da estratégia. Este que escreve ficou chocado quando leu. Talvez tenha sido uma escolha equivocada, mas o time embalado, Maracanã lotado e pulsante e a vontade de tirar o cetro e a coroa do Alviverde fizeram o time lutar tanto que venceu mesmo numa proposta reativa, quase simplória e muito diferente da que foi apresentada ao longo do campeonato.

O Flamengo de Rogério Ceni teve a sua melhor atuação justamente contra o Palmeiras, no Mané Garrincha. Time concentrado e intenso para desafiar o finalista da Libertadores e da Copa do Brasil, que ainda tinha boas chances de buscar uma inédita tríplice coroa e havia atropelado o Corinthians três dias antes. Entrou como favorito e deu boas razões para o maior rival nacional dos últimos anos se superar.

Para voltar a cair nos 2 a 1 impostos pelo Athletico na Arena da Baixada. Atuação ruim na maior parte do tempo, equipe mais dispersa e frouxa e com tudo piorando depois das substituições mais que questionáveis do treinador. Os problemas de quase sempre, mas que ficaram de lado por um jogo em Brasília. Porque havia uma causa para mobilizar. Era de novo Davi x Golias.

O mesmo vale para o Corinthians de Fabio Carille em 2017, tratado como "quarta força" entre os paulistas, visão que serviu para motivar o elenco durante toda temporada que culminou no título brasileiro. No mesmo ano, o carisma de um redivivo Renato Gaúcho levando o Grêmio à conquista da Libertadores, depois de faturar a Copa do Brasil no ano anterior.

Em 2016, o Palmeiras de Cuca, nas palavras do próprio treinador, não teria a gana de vencer o Brasileiro daquele ano se não fosse o "cheirinho de hepta" do Flamengo, que nunca foi líder, mas provocou e chamou para si o favoritismo, facilitando o discurso motivacional. O mesmo que Cuca usou, quatro anos depois, na semifinal da Libertadores. Aproveitando o mantra "jogamos o melhor futebol do Brasil" de Renato Gaúcho.

O Santos é outro bom exemplo de mobilização aproveitando o status de "patinho feio". Crise financeira, impossibilidade de contratar por punição da FIFA, salários atrasados. Em meio ao caos, a leveza de jogar sem maiores responsabilidades. O que vier é lucro. Veio a decisão continental depois de atropelar o Boca Juniors, além do próprio Grêmio.

Em 2018, o Palmeiras priorizou o mata-mata e colocou time misto no Brasileiro. Justamente no campeonato em que não se colocou pressão para vencer o time se saiu melhor. Mirando o Flamengo, que foi líder até a pausa para a Copa do Mundo e novamente se projetou como favorito.

Agora Abel Braga ressurge das cinzas e parece muito perto do seu segundo título brasileiro. No primeiro, com o Fluminense em 2012, deixou o "estigma" de favorito para o Atlético Mineiro de Cuca e arrancou como "azarão", mesmo com elenco milionário e estelar ainda bancado pela Unimed. Tratando cada jogo como decisão e sem vergonha de vencer nos contragolpes até contra times pequenos.

Repete a fórmula que dá certo nesta edição maluca e atípica. Justamente no Inter, onde é ídolo e tem respaldo maior do que em outros clubes. É claro que tudo não se resume ao "vamo lá!" Sem um mínimo de conteúdo é impossível convencer os atletas. Mas parece claro que a gestão de vestiário com um rival tratado como o gigante a ser derrubado, como Golias, é um fator mais importante na equação do futebol brasileiro.

Por isso a fatura ainda não está liquidada. Quem garante que o Inter saberá se comportar nas seis rodadas finais como a referência, o time a ser batido? O São Paulo derreteu depois que virou o "time da moda". Mas quem garante que, com o Colorado na mira, o time de Fernando Diniz não pode virar a história do avesso novamente. Ou o Flamengo?

Ou mesmo o Galo de Sampaoli, que trouxe para si o protagonismo pelo elenco reforçado e sofre com a pressão interna do próprio treinador argentino, sempre inquieto e insatisfeito. Mas com leveza pode se reerguer. Assim como o Santos no ano passado, que ao ver o Flamengo disparar passou a jogar sem pressão e viveu seu melhor momento na temporada, finalizando com os 4 a 0 sobre o próprio time de Jorge Jesus na última rodada.

Tudo muito imprevisível em uma montanha russa de emoções. O futebol brasileiro evolui taticamente a passos lentos. Caminha e estaciona muitas vezes. O salto no ano passado foi ilusório, ou uma exceção. O sarrafo segue baixo e ganha quem maneja melhor a narrativa "contra tudo e todos".

Abel Braga está no topo, contrariando todas as análises e previsões. O desafio agora é manter a pecha de "zebra" sendo a estrela principal.