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André Rocha

Palmeiras encaixota River com Abel Ferreira tirando 100% da semana "cheia"

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André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

06/01/2021 08h07

Marcelo Gallardo tentou preparar uma surpresa contra o Palmeiras em Avellaneda.

Começando a ida da semifinal da Libertadores com um 4-3-3 que tinha o jovem colombiano Carrascal pela direita na linha de ataque, Borré no centro e Matias Suárez partindo do setor esquerdo. No meio-campo, Enzo Pérez centralizado, De La Cruz pela direita e Ignácio Fernández à esquerda.

A ideia clara era criar superioridade numérica pelos lados com triangulações aproveitando os laterais Montiel e Casco, que atacariam os corredores e permitiriam aos atacantes se aproximar por dentro. Circulação rápida da bola, inversão de jogo e muitos jogadores atacando a área adversária.

Poderia ter dado muito certo se Carrascal tivesse aproveitado melhor a boa jogada criada pela esquerda logo no início da partida. Weverton salvou com grande defesa e impediu que o abalo mental que um gol sofrido nos primeiros minutos atrapalhasse os planos de Abel Ferreira.

O treinador português teve sua primeira semana "cheia" para treinamentos e o time. além do descanso fundamental para atletas que pareciam esgotados, mostrou em campo o que trabalhou. Inclusive estudando minuciosamente o adversário.

Gabriel Menino foi a surpresa fazendo a lateral direita em uma linha de cinco, com Marcos Rocha mais por dentro. Sem Luan, que sentiu a lombar no aquecimento, Abel recorreu a Alan Empereur e inverteu o lado de Gustavo Gómez no miolo da zaga. Viña completava a defesa que tinha como objetivo negar a profundidade ao ataque adversário, principalmente nas infiltrações em diagonal.

No meio, uma segunda linha que tinha os jovens Danilo e Patrick de Paula entregando saúde e dinâmica no trabalho por dentro e Gustavo Scarpa voltando mais pela esquerda com Montiel que Rony à direita, já que Menino esperava o apoio de Casco.

O camisa onze ficava mais como o escape dos contragolpes para explorar a conhecida lentidão de Javier Pinola na cobertura de Casco, que não melhorou o setor defensivamente em relação a Fabrizio Angileri. Um problema ressaltado nesta coluna e que não foi corrigido.

Foi pela direita a primeira estocada alviverde, com Menino cruzando, o goleiro Armani se atrapalhando com o zagueiro Rojas, Rony chutando cruzado e a bola ainda batendo em De La Cruz antes de entrar. A única finalização no alvo do Palmeiras em um primeiro tempo de 28% de posse e apenas 64% de efetividade nos passes.

Tudo que o time brasileiro precisava para dominar tática e mentalmente em uma segunda etapa dos sonhos. Um pouco mais de intensidade na pressão sobre o adversário com a bola e rápidas transições ofensivas que tinham alvos específicos. Além de Pinola, o companheiro Rojas, lento e inseguro pelas falhas nos 2 a 2 contra o Boca Juniors no sábado.

Aliás, o "mundo à parte" do grande clássico da Argentina e um dos maiores do planeta só desgastou a equipe de Gallardo, enquanto Abel Ferreira teve a primeira oportunidade de não resumir seu trabalho a recuperar atletas e trabalhar no campo no máximo duas vezes entre uma partida e outra. Obviamente não serve como desculpa para os "millonarios", já que cumpriam sua 27ª partida na temporada, enquanto o Palmeiras completava 60 jogos.

E nada justifica a ingenuidade de Rojas, que deu o corpo para o giro de Luiz Adriano, que quando virou só tinha campo aberto para correr e Armani saindo da meta desesperado. Toque por entre as pernas do goleiro e 2 a 0 no placar. Méritos também para o desarme de Empereur e a objetividade de Danilo e Rony na saída em velocidade que desmontou as linhas adiantadas no perde-pressiona do oponente.

Daí para a frente foi controle e incrível maturidade. Inclusive do jovem Menino, de 20 anos, que conseguiu desestabilizar Pérez, de 34, com um domínio de letra no alto e provocar a expulsão do desesperado Carrascal logo em seguida. Na cobrança da falta, a jogada ensaiada enganando a marcação com movimentos de Menino e Scarpa, que colocou na cabeça de Viña para construir uma vitória histórica. A maior derrota do melhor mandante da Libertadores.

Mas não a melhor campanha. O Palmeiras que foi feliz nos sorteios desde a fase de grupos mostrou competência para atropelar quem apareceu pela frente, inclusive no desafio mais complicado. Agora tem o ataque mais positivo, com 32 gols marcados em 11 jogos e apenas quatro sofridos, um a mais que o Boca Juniors, defesa menos vazada no torneio. Invencibilidade com nove vitórias e dois empates.

Só não dá para garantir na decisão porque é futebol. E é o River Plate de Gallardo, time histórico apesar do revés humilhante. A tendência, porém, é de nova vitória no Allianz Parque e moral absoluta para a decisão no Maracanã. A provável quinta final palmeirense buscando o bicampeonato.

É certo que desta vez não veremos os fundamentalistas da manutenção de treinadores defendendo que Vanderlei Luxemburgo tivesse todo o tempo para implementar seu trabalho no Palmeiras. Abel Ferreira tem dois meses de clube e tirou 100% da primeira vez que teve seis dias para preparar a equipe, mesmo com um reveillón no meio. Com variação tática e jogada ensaiada.

O suficiente para encaixotar e colocar no bolso com um 3 a 0 contundente o melhor time do continente na década. O ótimo treinador não precisa de uma eternidade para demonstrar competência. Ele faz acontecer.

(Estatísticas: SofaScore)