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André Rocha

Flamengo ganha na Justiça, mas tem sua pior derrota. Nada é por acaso

Incendio CT do Flamengo -
Incendio CT do Flamengo
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

03/12/2020 10h47

O Flamengo venceu recurso para reduzir de dez mil reais para cinco salários mínimos - ou seja, pela metade - a pensão que pagava às famílias dos jovens vitimados pelo incêndio no Ninho do Urubu em fevereiro de 2019 que ainda não tinham chegado a um acordo com o clube sobre as indenizações.

O argumento usado pelo clube é de que não cabe à Defensoria e ao Ministério Público defender os familiares. Essa pensão havia sido definida em decisão da 1ª Vara Cível no fim do ano passado. Leia mais AQUI.

Este que escreve é jornalista, não advogado. Nem vai entrar na questão técnica para contestar a decisão da Justiça. Mas a direção rubro-negra acha mesmo que venceu neste caso? Que mensagem o clube passa mais uma vez à sociedade?

Reparem que há um padrão, desde o início da gestão Landim, de renegar os mais humildes. Desde as famílias dos jovens que morreram no Ninho, passando pelos funcionários que quase ficaram sem as premiações combinadas pelos títulos de 2019, Até os demitidos durante a pandemia e o colaborador responsável pelas redes sociais dispensado porque fotografou jogadores sem máscaras no vôo de volta do Equador, a viagem que deflagrou o surto de Covid-19 no elenco.

Sem contar a crescente elitização de tudo ligado ao clube, inclusive o programa de sócio-torcedor. Afastando o time de maior torcida do país do seu torcedor menos abastado. Aquele que não pode pagar pay-per-view e streaming - inclusive a vergonhosa tentativa de cobrar por um jogo de Carioca através de um aplicativo que não atendia a demanda de quem quis pagar. Um público que só é lembrado na hora de negociar o contrato com a TV aberta.

Enquanto vira as costas para o povão, a direção faz tudo para se aproximar de políticos que pouca ou nenhuma relação têm com o clube. Buscou ajuda do governo federal para apressar a volta do futebol e viabilizar a MP do mandante. Decisões que, por enquanto, não trouxeram nenhum benefício para a instituição.

Já a decisão de entregar títulos honorários a alguns desses políticos gerou polêmica e fez a diretoria recuar. Talvez pela impopularidade dos mesmos no momento, algo que ficou claro nas recentes eleições municipais. Todos de uma corrente política conservadora, que, no geral, defende a manutenção de privilégios para as classes dominantes.

Quem tem mais relação com a história que o clube construiu ao longo dos anos com a "Nação" que, assim como a população, tem a maioria de pobres?

Mas a direção só se preocupa com cifras e considera uma boa solução economizar em pequenos valores que fazem falta a quem perde para seguir investindo milhões no futebol.

Enquanto Jorge Jesus blindou com pulso forte os jogadores desse ambiente nocivo, do contato com dirigentes que acrescentam muito pouco, o time respondeu em campo e colecionou taças que fizeram muitos torcedores acreditarem que tudo valia a pena por vitórias e idolatraram dirigentes que pouco tinham a ver com o sucesso do futebol.

Agora, com os reveses, muitos estão despertando. Ou agindo apenas como crianças mimadas, que não têm mais o doce sabor das vitórias e reclamam. Um resultadismo que cega.

Este colunista sente alívio por nunca ter se permitido silenciar sobre os erros da direção por conta das vitórias e dos títulos. E agora vê tudo ruir sem muita surpresa. Mas as eliminações na Copa do Brasil e na Libertadores nem se comparam com a derrota moral que envergonha o torcedor mais consciente.

A bola não deixa de entrar por acaso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL