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Luxemburgo e Felipão não respeitam suas próprias histórias

Vanderlei Luxemburgo e Luis Felipe Scolari se cumprimentam antes do jogo entre Grêmio e Palmeiras - LUIS GONÇALVES/PREVIEW.COM/AE
Vanderlei Luxemburgo e Luis Felipe Scolari se cumprimentam antes do jogo entre Grêmio e Palmeiras Imagem: LUIS GONÇALVES/PREVIEW.COM/AE
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

16/10/2020 08h35

Vanderlei Luxemburgo e Luiz Felipe Scolari estão na história do futebol brasileiro como dois dos treinadores mais relevantes e vencedores. É desnecessário mencionar seus grandes feitos e a influência que exerceram e ainda exercem sobre trabalhos de outros profissionais no país.

Mas não podem, nem devem ser tratados como vacas sagradas, imune às críticas. No Brasil dos privilégios muitos exigem que aqueles que um dia ganharam tudo não sejam questionados pelo que perdem agora. "Quem é você para falar dele?" Como se o direito à opinião fosse condicionado a qual casta se pertence.

Como se os próprios criticados não rebaixassem o próprio trabalho e desmerecessem seus currículos. Das maneiras mais diversas.

No mundo ideal, Luxemburgo não teria aceitado o convite do Palmeiras. Reconheceria que seu auge já passou e não quer, nem consegue se conectar com o futebol atual no mais alto nível a ponto de fazer um grande elenco disputar os principais títulos. Seguiria no Vasco com relativo prestígio e uma missão condizente com o status atual: manter o time na Série A nacional, pescar uma vaguinha na Sul-Americana e tentar um "milagre" na Copa do Brasil e no Carioca.

Bem melhor do que sair demitido com o presidente do clube admitindo o equívoco na contratação e, numa tentativa desesperada de não sair por baixo, gravar um vídeo em que exalta a conquista da Flórida Cup, um torneio de pré-temporada. Muito mais prudente seria uma retirada em silêncio.

Assim como Felipão poderia estar quieto em sua casa, aproveitando o conforto de tudo que conquistou no futebol e só deixando a família para abraçar um projeto que valesse muito a pena. Ainda mais em tempos de pandemia para um homem de 71 anos.

Mas resolveu se arriscar em um barco afundando. O Cruzeiro soterrado em dívidas, sem grandes perspectivas nem a médio prazo e encarando a dura realidade que hoje é fugir do rebaixamento para a Série C. Uma queda possível e que, caso aconteça, pode enfiar o clube em um cenário de poucas perspectivas de recuperação.

Scolari se sustenta na esperança que é sempre louvável. Também na vaidade de se tornar uma referência histórica no time mineiro como é no Grêmio e no Palmeiras. Acredita no contrato até 2022, na boa relação com José Carlos Brunoro, na garantia de um mecenas bancando os salários e na multa rescisória alta. Mira o centenário do Cruzeiro no ano que vem.

Pilares muito frágeis em um clube que já demitiu três treinadores em 2020 e também dispensou Mano Menezes no ano passado quando o técnico bicampeão da Copa do Brasil não entregou mais resultados. E para quem já deve tanto, o que é uma multa a mais para perder na Justiça em um contexto desesperador?

A impressão é de que, depois dos 7 a 1, Felipão não teme mais nenhuma mancha no currículo. Assim como Luxemburgo parece confortável no personagem negacionista e saudosista, quase um terraplanista, que passa vergonha em programas de TV negando as mudanças no esporte e agora deve iludir menos incautos, ao menos entre os clubes com aspirações maiores no futebol brasileiro.

Dois gigantes que não respeitam suas próprias histórias. Uma pena.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL