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Flamengo de Jorge Jesus morreu. Time de Domènec será instável

Gabriel, do Flamengo, celebra seu gol contra o Santos na Vila Belmiro - Miguel Schincariol/Getty Images
Gabriel, do Flamengo, celebra seu gol contra o Santos na Vila Belmiro Imagem: Miguel Schincariol/Getty Images
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros ?1981? e ?É Tetra?. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

30/08/2020 20h56

Domênec Torrent teve a primeira semana livre para treinar. Trabalhou conceitos e o resultado prático foi a morte do Flamengo de Jorge Jesus. Sem chance de ressurreição.

Mas o risco do treinador catalão acabar crucificado foi grande no primeiro tempo de domínio do Santos na Vila Belmiro. Com Marinho desequilibrando, apoiado por Pará e Filipe Luís sem auxílio de Bruno Henrique, nem De Arrascaeta. O 4-3-3 de Dome tinha Renê novamente improvisado na lateral direita para marcar Soteldo e Michael na ponta, provavelmente para compensar fazendo todo o corredor nas ações ofensivas.

E aparecendo na área para perder chance cristalina, com o goleiro João Paulo fora do gol. Pouco antes do período de maior turbulência: os dois gols anulados com auxílio do árbitro de vídeo. Primeiro de Raniel, completando bela jogada de Marinho e Pará, mas impedido. Segundo de Marinho cobrando falta da direita, porém com Jobson, impedido, participando ativamente da jogada, segundo a arbitragem.

O Santos seguiu atacando e fazendo Diego Alves trabalhar, porém perdeu intensidade e confiança. Aliviado por passar ileso pelo domínio do adversário, o Flamengo encaixou contragolpe letal com Gabigol cruzando o campo para acionar Michael e receber na frente para marcar seu terceiro gol no Brasileiro, o primeiro com bola rolando depois da volta do futebol no país. Ainda perderia duas grandes chances, a melhor no segundo tempo concluindo para fora passe preciso de Isla.

Uma das mudanças de Dome no segundo tempo, na vaga de Renê. Willian Arão entrou no lugar de Gerson, sacrificado na adaptação como primeiro volante. Bruno Henrique deu lugar a Everton Ribeiro. César e Diego Ribas substituíram os lesionados Diego Alves e Gabigol. Mantendo a estrutura, mesmo sem centroavante, o time seguiu perigoso nas transições ofensivas e contou com atuação primorosa de Thiago Maia, que parece pedir passagem com entendimento melhor das ideias do novo treinador para os meio-campistas.

Aliás, o elenco parece reagrupado na visão do novo técnico, que já anunciou que fará rodízio, ideia descartada por Jorge Jesus. Primeiro porque o português em 2019 só confiava nos 11 titulares e alguns poucos reservas, como Renê, Reinier e Vitinho. Depois por conta de uma "hierarquia" que colocava os campeões em vantagem sobre os que chegaram em 2020.

Para Dome, Thuler é reserva de Rodrigo Caio e Gustavo Henrique disputa posição com Léo Pereira. No meio-campo, Gerson, Arão e Thiago Maia podem ocupar as vagas na função de volante e de um dos meias, com Everton Ribeiro, Diego Ribas e Arrascaeta completando o setor. Na frente, Michael, Vitinho, Bruno Henrique e Pedro Rocha são os ponteiros e Gabigol e Pedro as opções para o centro do ataque. É claro que adaptações, como Bruno Henrique de centroavante e Arrascaeta na ponta esquerda, são perfeitamente viáveis, além da opção de um "falso nove" quando houver necessidade.

O que parece certo, a curto ou médio prazo, é que o Flamengo de Domènec Torrent será instável. Na escalação por conta do rodízio, necessário pela maratona. No desempenho pelas mudanças e o tempo para assimilação de conceitos que fogem das características dos atletas e dos automatismos dos tempos de Jesus. Oscilações dentro das partidas, como em Santos, serão comuns. Nas competições também.

Porque é uma transição complexa, sem legado. Jesus foi embora sem deixar métodos documentados, nem um interlocutor com a atual comissão técnica. Ficaram as taças e as lembranças na memória dos jogadores. É preciso recomeçar quase do zero. Sem a eletricidade e a química anterior, até pela falta da torcida. Será uma equipe menos avassaladora e mais "mutante".

O Fla já teve times instáveis vencedores. Os campeões nacionais de 1983, 1987 e 2009. Ancorados em grandes individualidades, porém com desempenho irregular. Mas com vitórias marcantes, como esta na Vila Belmiro nem sempre de boas recordações para os rubro-negros. Venceu em 2009 e dois anos depois, no lendário 5 a 4 de Ronaldinho x Neymar. E agora, no início real do trabalho do técnico catalão.

Pode não dar em nada, ou ser um bom começo. Com Jesus havia muitas certezas, agora tudo está em suspenso. Mas pode terminar bem-sucedido, mesmo sem o feito raro de levantar mais taças que lamentar derrotas. Cabe a Domènec construir seu próprio caminho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL