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NBA intensifica investimento no Brasil mesmo com êxodo de jogadores do país

Daniel Soares, diretor de operações de basquete da NBA na América Latina, no lançamento da NBA Basketball School no Brasil - Wander Roberto/Inovafoto
Daniel Soares, diretor de operações de basquete da NBA na América Latina, no lançamento da NBA Basketball School no Brasil Imagem: Wander Roberto/Inovafoto

Lucas Pastore

Do UOL, em São Paulo

21/09/2018 11h00

Com início marcado para o dia 16 de outubro, a temporada 2018/2019 pode começar com o menor número de jogadores brasileiros da década. Mesmo assim, o escritório da liga profissional americana no país cresce e puxa uma fila de investimentos inéditos no mercado nacional.

Por enquanto, só três brasileiros têm contratos garantidos para a próxima temporada da NBA: Raulzinho, do Utah Jazz, Cristiano Felício, do Chicago Bulls, e Nenê, do Houston Rockets. Bruno Caboclo acertou vínculo com o Houston Rockets válido para a pré-temporada e pode ampliá-lo se agradar à comissão técnica no período.

Foi na temporada 2003/2004 que o Brasil teve, pela primeira vez, mais de um jogador na NBA, com Alex, Leandrinho e Nenê marcando presença nas quadras da liga profissional americana. Desde então, esse foi o mínimo de atletas nascidos no país que disputaram a competição.

De 2004 em diante, o Brasil teve apenas três jogadores na NBA apenas nas temporadas 2008/2009 e 2009/2010, quando Anderson Varejão, Leandrinho e Nenê foram os únicos representantes do país na liga. Caso Caboclo não fique nos Rockets para a temporada regular, será a primeira vez na década sem ao menos quatro representantes do basquete nacional na competição.

Neste meio tempo, o Brasil estabeleceu recorde próprio ao emplacar nove jogadores nas temporadas 2015/2016 e 2016/2017: Anderson Varejão, Bruno Caboclo, Cristiano Felício, Leandrinho, Lucas Bebê, Marcelinho Huertas, Nenê, Raulzinho e Tiago Splitter. O êxodo contrasta com o momento em que a NBA começa a olhar para o mercado brasileiro com mais carinho.

Nessa terça-feira (18), o UOL Esporte esteve no WT Morumbi, hotel localizado na zona sul da cidade de São Paulo, para o lançamento nacional da NBA Basketball School. O programa, iniciado com a possibilidade da emissão de vinte licenças, permite que clubes, academias, escolas e quaisquer entidades com escolinhas de basquete para meninos e meninas de 6 a 17 anos possam comprar o método de desenvolvimento físico, técnico e social desenvolvido pela NBA.

A metodologia, desenvolvida por técnicos da liga profissional americana de basquete e publicada em um livro de 700 páginas, terá no Brasil o seu primeiro projeto na América Latina. Antes, o programa, lançado globalmente em 2017, havia chegado a Índia, Grécia e Turquia. Quem adquirir uma licença terá seus professores e/ou técnicos capacitados por profissionais da NBA, além de receber uniformes e materiais de identidade visual.

A NBA Basketball School se junta a outras iniciativas da NBA no Brasil ligadas ao basquete de base, como a Jr. NBA League, o Americas Team Camp e o Basketball Whithout Borders.

Diretor de operações de basquete da NBA na América Latina, Daniel Soares acredita que o interesse da liga no Brasil se dá pela rara combinação mercadológica e esportiva que o país oferece, mesmo com o êxodo de jogadores nos últimos dois anos.

"O Brasil é um país muito único no mundo, porque é um país enorme, um país muito forte na parte comercial, um país importante, mas ao mesmo tempo é um país que tem talento. A gente já chegou a ter nove atletas dentro da NBA. Então, é difícil você encontrar isso. Se você for pegar os maiores países que a NBA trabalha, é difícil você ter essa combinação dessa importância comercial com essa importância de quadra. Então, o Brasil é muito único por isso", disse, ao UOL Esporte.

Aumento no interesse

Casa NBA, em São Paulo recebeu capacidade máxima durante as finais de 2018 da liga - Divulgação - Divulgação
Casa NBA, em São Paulo recebeu capacidade máxima durante as finais de 2018 da liga
Imagem: Divulgação

Apesar de ter visto Anderson Varejão, Leandrinho, Lucas Bebê, Marcelinho Huertas e Tiago Splitter deixarem a NBA nos últimos dois anos, o público brasileiro se tornou mais interessado pela competição no período. É o que dizem os dados apresentados pela liga aos interessados no lançamento da NBA Basketball School.

Segundo estudos da NBA, o basquete foi o esporte olímpico que mais cresceu no Brasil desde 2016. A liga estima que existam 31,3 milhões de fãs da modalidade no país, além de ter detectado um aumento de 67% na audiência de transmissões de jogos da competição da temporada 2016/2017 para a 2017/2018.

"Acho que é um conjunto de fatores, na verdade. Acho que o brasileiro gosta de basquete. Tem essa questão, esse gosto. Tem a história do basquete brasileiro, que foi bicampeão mundial, que estava um pouco adormecida, de repente baseado em resultados, de repente baseado em uma má administração. Acho que é um conjunto de fatores. A partir do momento que você tem a NBA mais forte, mais próxima, você tem mais atletas brasileiros, essa história de tentar criar ídolos no esporte, você tem um campeonato nacional mais organizado, você tem uma seleção participando de Olimpíada. Então, você tem uma série de fatores que contribuíram para o aumento da popularidade no basquete, mas sem dúvida nenhuma já existia essa pré-disposição que é o gosto pelo esporte", disse Daniel.

Isso mostra o potencial comercial a que o dirigente se refere. Segundo ele, o escritório da NBA no Brasil é o segundo de maior importância estratégia para a liga, ficando atrás apenas do chinês. Não à toa, foram lançadas quatro lojas oficiais de produtos licenciados pela NBA no Brasil na última temporada.

Jogadores na onda

Raulzinho recebeu o francês Rudy Gobert, seu companheiro de Utah Jazz, em seu camp - Divulgação - Divulgação
Raulzinho recebeu o francês Rudy Gobert, seu companheiro de Utah Jazz, em seu camp
Imagem: Divulgação

O aumento de iniciativas de caráter técnico feitas pela NBA no Brasil, que segundo Daniel tem a ver com a evolução da infraestrutura do escritório da liga no país desde seu lançamento, faz com que jogadores entrem na onda. Nos últimos anos, Marcelinho Huertas, Raulzinho e Tiago Splitter também lançaram programas de treinamento, chamados de "camps" no meio do basquete.

A NBA abriu seu escritório no Brasil em 2012, tendo estrutura para organizar apenas um campeonato de basquete 3x3 em seu primeiro ano. Depois, ficou focada na organização dos três jogos de pré-temporada que aconteceram no país: Chicago Bulls x Washington Wizards em 2013, Cleveland Cavaliers x Miami Heat em 2014 e Flamengo x Orlando Magic em 2015.

De lá para cá, cresceram as iniciativas de caráter técnico voltadas ao basquete de base da NBA no Brasil, algumas com a participação de jogadores. O aprendizado fez com que alguns destes atletas resolvessem lançar suas próprias plataformas – foi o que aconteceu com Raulzinho, por exemplo.

"Na verdade, a gente tenta incentivar os nossos jogadores a fazerem esse tipo de ação, a fazerem esse tipo de camp. Então, os camps - não só aqui no Brasil, mas em qualquer parte do mundo – que têm jogadores da NBA, na grande maioria a NBA está dando algum tipo de apoio ou de chancela. Foi o caso aqui, inclusive, com o Huertas, que nem faz mais parte da NBA, mas que tem uma ligação com a gente", contou Daniel.

Raulzinho e Splitter também tiveram “camps” realizados no Brasil com apoio da liga. Além disso, a NBA fez recentemente uma clínica para treinadores no Brasil, com assistentes técnicos de franquias que disputam a competição.

Alta do dólar e iniciativa própria

Camp "Train like a pro" é organizado por Luiz Lemes, scout com serviços prestados para o Boston Celtics - Divulgação - Divulgação
Camp "Train like a pro" é organizado por Luiz Lemes, scout com serviços prestados para o Boston Celtics
Imagem: Divulgação

Antigamente, profissionais brasileiros de basquete que quisessem qualificação iam em busca de clínicas fora do país. O mesmo acontecia com pais que queriam colocar crianças em contato com a modalidade por meio de “camps”. Mas o bom recebimento às iniciativas da NBA no país e a alta do dólar fizessem com que iniciativas independentes também começassem a aparecer ao redor do território nacional.

Algumas delas têm a chancela de profissionais que de alguma maneira estão ligados à NBA.

Um exemplo é o “Train Like a Pro”, camp organizado por Luiz Lemes, scout com serviços prestados para o Boston Celtics, que acontecerá entre os dias 12 e 13 de outubro, em São Paulo.

"Primeiramente, é a chance de um menino que não teria a chance de ir para fora do país ter essa oportunidade. É um momento especial, com o NBB crescendo e o basquete em alta no país. É uma maneira de valorizar a base, os técnicos e os clubes que fazem a base bem. Nada melhor que um camp. Quanto mais camps, melhor. É legal quando o Raulzinho faz, a garotada pode ver ele jogando, como ele faz. Daqui a um tempo, esse garoto vai estar jogando e lembrando de quando conheceu o Raulzinho, o Splitter", disse Luiz, que hoje trabalha para a federação holandesa de basquete, ao UOL Esporte.

O scout promove o camp em parceria com Kiti Andreuccetti, da empresa Sport4Life e com experiência na produção e na promoção de eventos do tipo.

“Tenho uma empresa de intercâmbio esportivo de férias. O Luiz mora na Holanda. Existe uma academia que faz camps de verão. Conheci ele porque representava essa academia, e ele participa delas. Quando o conheci, queríamos fazer o lançamento da academia no Brasil. A gente participa há dez anos de camps fora do Brasil. Mas com a alta do dólar, teve gente que comprou passagem em fevereiro e desistiu em junho. Então, pensamos em fazer um camp com características ou melhor do que a gente faz fora, nos Estados Unidos, na Europa. Ele topou. Eu continuo levando pessoas para fora, mas muito menos por força da crise", contou Kiti, também ao UOL Esporte.

Se a importância comercial do Brasil a que Daniel se refere fica clara com a proliferação de iniciativas do tipo, a empresária admite que o êxodo de jogadores não é o cenário ideal para esse tipo de negócio.

"Não é por causa dos atletas. O país dá pouca importância para os atletas. Não tem muitos brasileiros da NBA por causa do incentivo, que não tem nenhum. As pessoas estão procurando. Os técnicos estão tentando crescer. Na clínica da NBA, só tinha fera falando e só tinha fera participando. Acho que daqui a pouco a gente começa a colher os frutos disso", opinou.

Quem está na trilha da NBA

Gabriel Jaú, ala do Bauru - Caio Casagrande/Bauru Basket/Divulgação - Caio Casagrande/Bauru Basket/Divulgação
Gabriel Jaú, ala do Bauru, é considerado um dos jogadores brasileiros de maior potencial
Imagem: Caio Casagrande/Bauru Basket/Divulgação

Parte do objetivo das clínicas da NBA no Brasil é explorar justamente este potencial de talento que Daniel acredita que o país tem e fazer com que a lógica do êxodo de jogadores se inverta. Enquanto as clínicas ainda dão seus primeiros passos, o scout Gabriel Andrade acredita que há algumas promessas do basquete nacional que podem sonhar em determinados graus com a ida para a liga profissional americana de basquete.

"O que é mais bem avaliado é o Gabriel Jaú. Só que ele estourou o joelho. A NBA está à procura de alas flexíveis, e ele tem potencial. Tem também Yago, Michael Uchendu, e jogadores mais jovens, como Pedro Barros, Vinicius da Silva, Pedro Borba. É a geração sub-14 campeã sul-americana com a Thelma Tavernari", relatou, ao UOL Esporte.

"O que mais intriga é potencial físico. Mesmo que não seja para a NBA, mas sempre tem gente perguntando. Braços grandes e envergadura chamam atenção, como foi com Georginho e Caboclo. Quem consegue algum destaque vai para a Espanha. O Pedro Borba foi para a Itália, é um caminho diferente. O brasileiro Malik Wade, filho de senegaleses, foi para a academia da NBA no México. A academia é dirigida pelo Walter Roese, olheiro brasileiro que trabalha para o Utah Jazz. Os irmãos Rufino, do Pinheiros, também foram", completou.

Academias da NBA são iniciativas da liga espalhadas pelo mundo para cumprir a etapa de desenvolvimento que o basquete colegial cumpre nos Estados Unidos. Recentemente, Francisco Caffaro, ala-pivô argentino, deixou a academia da NBA na Austrália rumo à NCAA, a principal liga do esporte universitário americano.

Para Lemes, será difícil repetir a força da geração de Nenê, Splitter, Leandrinho e Varejão. Internamente, a NBA acredita que os frutos da carreira do quarteto ainda são colhidos no público brasileiro.

"Eu acho que é um ciclo. A Argentina está passando pela mesma coisa. Não é fácil ter nove jogadores em um ano na NBA. Espero que daqui três, quatro anos, a gente possa formar jogadores para a NBA. Mas não vai ser fácil. Acho que vai demorar um pouco. Mas espero que com esses camps isso possa acontecer", torce.

Segundo Daniel, este é exatamente um dos objetivos destes camps.

"É a tendência. Se você tem mil jogadores praticando uma modalidade, seja ela futebol, basquete ou vôlei, a quantidade de atletas pontas que vai sair de mil é um número. Se você tiver um milhão, a probabilidade de você ter atletas de ponta saindo é muito maior. Então, o que a gente visa na verdade é ter mais praticantes do esporte, mais consumidores do esporte, porque tudo isso é importante no sistema. É o cara que consome na televisão, é o cara que vai ao ginásio ver os jogos. Então, isso tudo passa pelo começo de jogar. A gente parte do princípio que se você teve contato com o esporte quando criança, você já gosta do esporte. Então, essa realmente é a ideia", disse.

Os brasileiros que jogaram na NBA a cada temporada

1988/1999 – Rolando
1991/1992 – Pipoka
2002/2003 – Nenê
2003/2004 – Alex, Leandrinho e Nenê
2004/2005 – Alex, Anderson Varejão, Bábby, Leandrinho e Nenê
2005/2006 – Anderson Varejão, Bábby, Leandrinho e Nenê
2006/2007 – Anderson Varejão, Bábby, Leandrinho, Marquinhos e Nenê
2007/2008 – Anderson Varejão, Leandrinho, Marquinhos e Nenê
2008/2009 – Anderson Varejão, Leandrinho e Nenê
2009/2010 – Anderson Varejão, Leandrinho e Nenê
2010/2011 – Anderson Varejão, Leandrinho, Nenê e Tiago Splitter
2011/2012 – Anderson Varejão, Leandrinho, Nenê e Tiago Splitter
2012/2013 – Anderson Varejão, Fab Melo, Leandrinho, Nenê, Scott Machado e Tiago Splitter
2013/2014 – Anderson Varejão, Leandrinho, Nenê, Tiago Splitter e Vitor Faverani
2014/2015 – Anderson Varejão, Bruno Caboclo, Leandrinho, Lucas Bebê, Nenê e Tiago Splitter
2015/2016 – Anderson Varejão, Bruno Caboclo, Cristiano Felício, Leandrinho, Lucas Bebê, Marcelinho Huertas, Nenê, Raulzinho e Tiago Splitter
2016/2017 – Anderson Varejão, Bruno Caboclo, Cristiano Felício, Leandrinho, Lucas Bebê, Marcelinho Huertas, Nenê, Raulzinho e Tiago Splitter
2017/2018 – Bruno Caboclo, Cristiano Felício, Lucas Bebê, Nenê e Raulzinho

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