Marcelo Carvalho fala de caminhos para combater o racismo no futebol

Marcelo Carvalho está com sangue nos olhos. Popularmente, a expressão é usada para falar de pessoas corajosas que encaram situações sem medo e com convicção, algo que define a atuação do idealizador e diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol.

A disputa dele, dentro e fora dos campos, é para acabar com o racismo dentro da modalidade esportiva mais famosa no país.

Criada em 2014, a iniciativa monitora, acompanha e pauta os casos de racismo no futebol brasileiro, assim como divulga e desenvolve ações informativas e educacionais que buscam erradicar o racismo.

Ao longo dos anos, o Observatório se tornou referência quando o assunto é pensar caminhos para um esporte, de fato, antirracista.

Como age o Observatório

O combate ao racismo por parte do Observatório é feito por meio de estudos, do mapeamento e acompanhamento dos casos, e, principalmente, da divulgação desses estudos para que a sociedade compreenda e identifique os pontos em que é necessário atuar. São destacadas as regiões onde há mais casos de racismo, ou onde os casos não são devidamente julgados e punidos.

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Imagem: Arquivo pessoal

Além disso, a entidade contribui na luta ao participar ativamente em campanhas e ações junto a empresas, clubes e entidades. O crescimento do Observatório está diretamente relacionado à maior participação e engajamento de todos os atores envolvidos, sejam clubes, patrocinadores ou federações, que estão cada vez mais conscientes e engajados em promover ações significativas.

Esse é um importante segundo passo, pois vai além do foco apenas no racismo individual, e passa a abordar a estrutura racista presente no futebol brasileiro.

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De maneira geral, Marcelo vê que, nos últimos anos, os clubes têm se engajado cada vez mais nas ações de combate ao racismo. Alguns elaboraram campanhas significativas a fim de demonstrar uma mudança perceptível em sua postura em relação à participação no debate.

Ele também observa que os jogadores estão se tornando mais ativos na causa.

Além de denunciar casos de racismo, os jogadores também estão abordando o tema tanto dentro como fora das quatro linhas.

Marcelo Carvalho

Vini Jr.

O debate ganhou ainda força nos últimos tempos devido a uma série de ataques sofridos pelo jogador Vini Jr. durante a última temporada do campeonato europeu.

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Em junho passado, após a repercussão internacional dos acontecimentos, segundo o anúncio do presidente da Fifa, Gianni Infantino, o atleta assumirá a liderança de uma comissão destinada a combater o racismo no futebol.

O objetivo da entidade é permitir que os jogadores proponham punições mais rigorosas para comportamentos discriminatórios no esporte.

Poucos negros no comando

Para Marcelo, no Brasil, há fatos importantes nos últimos anos que contribuíram para um debate mais amplo nos dias de hoje. Um exemplo foi no Campeonato Brasileiro de 2019.

Naquele ano, os técnicos Roger Machado, do Bahia, e Marcão, do Fluminense, marcaram a partida por serem os únicos dois técnicos negros em toda a competição, até aquele momento. Ao final da partida, Roger Machado disse, em entrevista coletiva, que a estrutura social do Brasil é racista, aliás: sempre foi racista. A fala gerou debates no país e na mídia internacional.

Muito além dos xingamentos e ações dentro dos campos, o racismo se manifesta de muitas outras maneiras, segundo o responsável pelo Observatório.

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O racismo é não ter pessoas negras nos espaços de gestão e comando dos times e federações. A sociedade brasileira é muito estruturada no racismo. E o futebol está muito preso à ideia da meritocracia que não acha as pessoas negras capazes de ocupar os espaços de poder.

Marcelo Carvalho

Marcelo Carvalho, em seu trabalho contra o racismo no futebol, entrega camisa para o rapper Marcelo D2
Marcelo Carvalho, em seu trabalho contra o racismo no futebol, entrega camisa para o rapper Marcelo D2 Imagem: Arquivo pessoal

Apesar de acreditar na importância das ações e do debate público, o esforço de Marcelo e da entidade parece inglório em alguns momentos, já que grande parte dos clubes é comandada por famílias que estão há décadas no mesmo lugar e não aceitam abrir mão. "Essas conversas fazem parte da nossa atuação".

Ninguém mais fica quieto

Uma das críticas mais comuns ao Rei Pelé, morto em dezembro de 2022, era a de que ele não se manifestava diante do racismo que sofria. Neste ponto, Marcelo julga que houve avanços. "Antigamente, vários jogadores diziam que os casos de racismo em campo não eram denunciados porque fazia parte do que acontecia em campo. Também tinha medo das represálias, como já teve. Hoje, o jogador entende que precisa denunciar o ato de racismo."

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Na opinião de Marcelo, ainda hoje, apesar de falas mais comuns sobre racismo, é importante que todos os envolvidos entendam que a questão não é só reagir quando alguém é ofendido.

É preciso também falar da estrutura, reivindicar lugares, maior participação na administração do futebol, nos espaços de gestão e comando, responsáveis por mudanças que podem aniquilar a estrutura racista que mantêm a desigualdade de hoje.

A quebra do silenciamento é algo que devemos saudar de forma efusiva. O próximo passo é construir uma rede de apoio e acolhimento para os jogadores que se manifestam.

Marcelo Carvalho

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