Nêgo Bispo: 'A sociedade colonialista acabou. Por isso querem ir pra Marte'

O pensador quilombola Nêgo Bispo é um "incolonizável". Guardião de uma narrativa inspirada na cosmologia politeísta afroquilombola, Antonio Bispo dos Santos é autor de diversos artigos, poemas e livros que trazem provocações sobre a colonização.

Ele propõe, entre tantas outras ações, a substituição de nomeações dadas pelo colonizador, fazendo dessa troca semântica uma arma no que o intelectual chama em um desses livros de "guerra das denominações".

Em entrevista a Ecoa, Nêgo Bispo falou sobre como é possível comemorar as mudanças que têm colocado em pauta discussões 'afropindorâmicas', denominação dada por ele para contemplar povos quilombolas, negros e indígenas.

Nêgo Bispo nasceu em 1959, no Vale do Rio Berlengas, estado do Piauí, sendo o primeiro membro da sua família a ter acesso à alfabetização. A formação que o transformou num pensador de seu povo se deu junto com as mestras e os mestres de ofício do quilombo Saco-Curtume, no município de São João do Piauí.

Foi por meio de seu "pensamento orgânico", fruto de suas experiências pessoais, que o quilombola começou a tecer debates importantes dentro e fora da academia.

Nomear para dominar

Com 10 anos de idade, Nêgo Bispo passou a adestrar bois. Anos depois, percebeu que esse adestramento não era muito diferente da forma de colonizar.

"Todos os jeitos de se adestrar parecem com o jeito de colonizar, que se parece com o jeito de educar, que parece com o jeito de domesticar. Daí eu aprendi que uma das primeiras coisas que se faz quando se vai adestrar um animal é nominá-lo. Então comecei a me preocupar e observar isso com mais cuidado. E fui entendendo que a arte de nominar é a arte de dominar", diz.

Domesticar, educar, colonizar e adestrar é tudo muito parecido.

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Uma das (re)nomeações mais famosas de Bispo é o termo "confluência" para falar sobre as dinâmicas sociais de convivência. Essa convergência não se trata de uma simples mistura, mas, sim, de uma forma de realizar um "ajuntamento" onde, mesmo misturados, cada um tem o seu lugar. "Um rio não deixa de ser um rio quando ele conflui com outro rio. Ele continua em sua essência. Essa é a grandeza da confluência", afirma.

O pensamento colonialista, no entanto, não abre margem para a coexistência, fazendo da substituição cultural a tônica do seu modus operandi. Nêgo Bispo dá, como exemplo, a diferença das relações que se estabelecem dentro dos quilombos e as que acontecem dentro da lógica colonial e fora do território.

"Eu sou casado com uma pessoa negra, mas que foi criada na casa grande. O imaginário dela é composto daquilo que imaginava o povo da casa grande. Ela se imaginou parecida como uma pessoa daquelas", diz.

Ele diz que a esposa foi mimada para que a sensibilidade da mãe dela fosse conquistada. "A mãe sofria no trabalho, mas pensava: 'Eles me tratam mal, mas tratam a minha filha bem'. E assim ela se desenvolveu. Quando nos conhecemos e nos casamos, passamos a viver essa grande contradição. Eu da roça. Ela da cidade. Eu mais do mundo orgânico, ela do mais sintético. Eu do mundo das relações naturais e ela no mundo das relações mais artificiais. Estamos há 42 anos juntos e até hoje permanecem essas contradições."

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Imagem: Reprodução @rocadequilombo

Juntar não é misturar

Uma das ferramentas usadas pelos quilombolas contra a colonização é a preservação e manutenção da cultura dos quilombos por meio dos casamentos.

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"Nos quilombos, geralmente, casam quilombolas com quilombolas. Dificilmente o povo do quilombo vai se casar com pessoas com características colonialistas. Acontece, mas é raro."

Se as coisas nos quilombos permanecem como estão, diz Bispo, é porque houve esse cuidado de não casar com colonialista.

O pensador conta também o caso do seu irmão, que se casou com uma pessoa de "pele clara" com pensamento colonialista e saiu do seu território para viver uma história longe de lá.

O resultado, segundo ele, foi um afastamento que reflete, inclusive, nas gerações futuras. "Eles [irmão e esposa] se mudaram para São Paulo e conseguiram ter uma vida material estruturada. Mas, para você ter uma ideia, a filha do meu irmão não atendia o telefone quando minha mãe ligava para ela."

Minha mãe não conheceu essa neta e nem os bisnetos. Então, não foi uma confluência. Foi um ajuntamento onde o dominante acabou se prevalecendo. Meu irmão se juntou, mas não se misturou.

Mesmo destacando os riscos desse esvaziamento, Nêgo Bispo afirma que não se trata de deixar de se relacionar com pessoas de outros grupos, mas que existe uma necessidade de cuidado para não perder a essência, porque "é muito fácil" isso acontecer diante das opressões colonialistas.

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O presente é 'afropindorâmico'

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Imagem: Arquivo pessoal

Com o processo de resgate das culturas ancestrais dos povos quilombolas, negros e indígenas, a cultura do colonizador também passou a incidir sobre elas por meio das apropriações culturais, esvaziando sentidos e sequestrando saberes.

No entanto, Nêgo Bispo, apesar de não descartar os problemas criados pela cultura colonizadora, afirma que há motivos para comemorar o momento de retomada dos saberes desses grupos.

"Existem os problemas. Tem essas apropriações. É o colonizador ainda fazendo esse papelzinho que a gente sabe que faz. Mas existe muita coisa, sim, para comemorar, porque a pauta quem está dando agora são outros grupos", afirma.

Um ponto de destaque desse resgate é a territorialização, tema muito presente na cultura 'afropindorâmica'. E o pensador vê as tecnologias digitais como aliadas dos moradores da grande cidade.

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"Em São Paulo, por exemplo, as pessoas são desterritorializadas. O território das pessoas que vivem lá é o emprego. Se você muda de emprego, você muda de bairro. O território é itinerante. É uma população, em tese, flutuante", diz ele.

Bispo diz que essa flutuação gera muita insegurança, mas que é a tecnologia digital que está ajudando a essas pessoas a terem um território. "Tem muita gente saindo das grandes cidades e tendo a chance de morar mais tempo num determinado lugar. Indo para áreas mais rurais, um retorno para o campo. Ou você tem um território ou você é cada vez mais robotizado", afirma.

"Isso dá a chance para as pessoas fazerem outras coisas além de trabalhar, como plantar, viver bem. Eu brinco que o povo está voltando para o Jardim do Éden. Aconteceu o grande Apocalipse. A sociedade colonialista acabou. É uma sociedade sem destino. É por isso que querem ir para Marte, para Júpiter, para Lua. A tendência agora é viver na diversidade, na organicidade e cada vez mais territorializados."

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