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Tartarugas voltam a se multiplicar após família salvar milhares de filhotes

Quelônios: Zé do Lago prestes a liberar 4 mil filhotes de tracajás em rio Xingu - Reprodução
Quelônios: Zé do Lago prestes a liberar 4 mil filhotes de tracajás em rio Xingu Imagem: Reprodução

Marcos Candido

De Ecoa, em São Paulo

11/02/2022 06h00

Em vinte anos, o ambientalista José Gomes, conhecido como Zé do Lago, salvou de 4 a 7 mil filhotes de tartarugas anualmente no rio Xingu, na cidade de São Félix do Xingu, no Pará. Segundo a família, algumas sobreviveram por mais de uma década e já estão reproduzindo.

As tartarugas são da ordem dos quelônios, que inclui também os cágados e jabutis. São grandes espalhadoras de sementes e fazem uma "faxina" por se alimentarem de quase tudo no fundo dos rios. A iniciativa de Zé é conhecida como Projeto Quelônios e se une aos esforços de instituições e pessoas para mantê-las vivas na natureza. Não é fácil.

Os quelônios são frágeis quando nascem e estão no cardápio de jacarés e, principalmente, dos seres humanos. Um estudo de pesquisadores brasileiros e estrangeiros estima que 1,7 milhão desses animais sejam consumidos só no Amazonas. Em Manaus, a carne de um quelônio adulto pode custar até mil reais por quilo e é servida no próprio casco. Os ovos também são comidos e alguns são vendidos como animais domésticos. Neste cenário, salvar o máximo possível de filhotes aumenta a chance de completarem de 15 a 20 anos de idade, quando se reproduzem.

Zé do Lago, com a esposa Márcia Nunes e a enteada Joene Nunes, acompanhava a desova, fazia o resgate e liberava milhares de quelônios onde o rio Xingu transborda e facilita a locomoção segura das espécies. Nos milhares de quilômetros de rios da Amazônia, o ir e vir das tartarugas de rio doce é um ato perigoso: ONGs e instituições do Estado tentam, mas não dão conta de combater a caça predatória.

Quelônios: Tracajás medem, no máximo, 50 centímetros - Reprodução/ICMBio - Reprodução/ICMBio
Quelônios: Tracajás medem, no máximo, 50 centímetros
Imagem: Reprodução/ICMBio

"Com a ajuda ou sem a ajuda, a gente faz [a proteção](...) para que nossos filhos, netos, bisnetos venham a conhecer os quelônios desse nosso rio Xingu", disse Zé em um vídeo em dezembro de 2021, quando 4 mil quelônios foram soltos. Eles pareciam tímidos, disse Zé, quando os levou à beira do rio. "Estão com vergonha", ele brincou antes de vê-los correr para a água. Em janeiro deste ano, Zé, Márcia e Joene foram assassinados.

É perigoso salvar tartarugas no Brasil

O homicídio triplo é uma amostra do perigo contra ambientalistas no Brasil. De acordo com a Global Witness, o país ocupa a quarta posição entre os que mais matam ambientalistas no mundo. Entre os 10 primeiros, sete estão na América Latina e três (Brasil, Colômbia e Peru) na Amazônia. Nos anos 80, o homicídio do ambientalista Chico Mendes, no Acre, se tornou um lembrete histórico da violência amazônica.

Os quelônios são vítimas desta disputa. Segundo um estudo, 50% deles estão sob risco de extinção ou já desapareceram com a poluição dos rios e mares, caça predatória e desmatamento. O termo "quelônio" se refere a qualquer réptil com casco, embora a palavra "tartaruga" remeta mais às espécies de água salgada na região sudeste.

Segundo a bióloga Camila Ferrara, da WCS (Wildlife Conservation Society) Brasil, os quelônios mais consumidos são os tracajás e as tartarugas-da-Amazônia — espécies resgatadas por Zé do Lago, de acordo com a família.

Quelônios em região de desova na Amazônia - WCS/Reprodução - WCS/Reprodução
Quelônios em região de desova na Amazônia
Imagem: WCS/Reprodução

As fêmeas da tartaruga-da-Amazônia podem ter 1 metro de carapaça e as fêmeas tracajás têm, no máximo, 50 centímetros e 65 kg. As duas navegam por milhares de quilômetros em uma área com aproximadamente 8 milhões de quilômetros quadrados, passando por vários países da América do Sul e extrapolam até os limites do bioma amazônico. Cientistas decifraram uma vocalização da tartaruga-da-Amazônia para "falar" e orientar os filhos. Os tracajás, por outro lado, são os quelônios mais habilidosos em andar pela terra (e, devido ao tamanho, são os mais consumidos).

A preservação desses animais é uma aliança histórica entre Funai, Ibama, ONGs e governos municipais, estaduais e federais da América do Sul desde o fim dos anos 70. Em 2016, o ICMbio calcula que 65 milhões de quelônios foram salvos pela solidariedade conjunta entre os povos da Amazônia. Mas ainda há muito o que fazer.

"Pesquisador de tartaruga nunca é 100% bem-vindo", diz a pesquisadora que lidera a proteção de quelônios nos rios Puru e Negro, no Amazonas. "Muita gente consome pela subsistência, mas existe quem quer traficar e colocá-los à venda", afirma.

Daqui pra frente

O filho de Zé, Samuel Azevedo, 34, afirma que a iniciativa solitária do pai fez sucesso e já teve patrocínio do comércio da cidade onde vivem 135 mil pessoas. "Toda vez foi por conta dele", afirma para Ecoa.

Samuel não suspeita da causa da morte. Em nota, a Polícia Civil do Pará afirma que o caso está em investigação. Ainda não se sabe se a morte tem a ver com o trabalho ambiental. A Justiça autorizou a exumação dos corpos para a perícia e o Ministério Público Federal acompanha o processo. A prefeitura emitiu nota de pesar, mas a secretaria de meio ambiente não respondeu a um pedido de entrevista.

ONGS ambientais e em defesa dos direitos humanos, como a Anistia Internacional, pedem justiça. Samuel não sabe o futuro do projeto, mas confirma o êxito até aqui. "Já tem tracajá reproduzindo por aqui no [rio] Xingu", conclui.

Wildlife Conservation Society Brasil (WCS Brasil)
Para doar, acesse o site da instituição. As doações podem ser avulsas, mensais ou anuais. Os valores são em dólar.

Projeto Quelônios do Juruá (SOS Amazônia)
Para doar, acesse o site da instituição. As doações podem ser avulsas ou mensais.