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Após proibir plástico, Noronha se prepara para reciclar toneladas de latas

Fernando de Noronha - Getty Images
Fernando de Noronha Imagem: Getty Images

Marcos Candido

De Ecoa, em Fernando de Noronha (PE)

24/11/2021 06h00

Fernando de Noronha fica no Oceano Atlântico, tem 7 mil moradores e costuma ter o dobro de pessoas com a visita de turistas. A ilha principal tem apenas 10 km de comprimento e 3,5 km de largura. Nesse espaço paradisíaco com espécies animais protegidas por lei, são coletadas mais de 200 toneladas de lixo. A administração e empresas colocaram em prática planos mirabolantes para lidar com tanto lixo e têm uma nova meta: reciclar todas as latinhas de Noronha.

Primeiro, não há lixão ou aterro sanitário em Noronha. Em bom português, é muito lixo para pouco espaço. Todo o lixo é separado em um centro de tratamento na ilha. Uma parte do material orgânico se torna compostagem e o vidro é reciclado como areia para construir casas. Papelão, alumínio, plástico e material orgânico vão de navio para Recife, de onde partem para aterros ou indústrias de reciclagem. São cerca de 40 horas de viagem até a costa pernambucana.

Para tentar resolver parte do problema, a administração da ilha tomou uma medida drástica em 2019: proibiu embalagens plásticas e garrafas d'água com menos de 500 ml. Os turistas são orientados a jogar qualquer plástico descartável fora no desembarque do aeroporto. Porém, as latinhas de alumínio resistem cintilantes, como em qualquer lugar do país.

"Se você visitar a equipe da usina de tratamento, verá que grande parte do lixo são latinhas", explica Guilherme Rocha, administrador de Fernando de Noronha. Segundo Rocha, a administração pretende economizar até 30% em dinheiro público com o início da reciclagem de latas diretamente na ilha em parceria com o setor privado.

Imagem de futuro laboratório de reciclagem de latinhas em Fernando de Noronha; início da reciclagem na ilha irá baratear custos com lixo, diz administração - Divulgação/Ball Corporation - Divulgação/Ball Corporation
Imagem de futuro laboratório de reciclagem de latinhas em Fernando de Noronha; início da reciclagem na ilha irá baratear custos com lixo, diz administração
Imagem: Divulgação/Ball Corporation

Não à toa, Noronha é disputada por turistas ricos, celebridades e, nos últimos anos, por empresas bilionárias. Há anos, as marcas usam a popularidade e a conservação ambiental da ilha para testar, instalar e divulgar produtos e técnicas mais sustentáveis, como a reciclagem de vidro pago pela marca de cervejas Heineken. As latinhas de alumínio são a nova cara do momento.

Em outubro, a fabricante de latinhas Ball Corporation anunciou a criação de um laboratório para coletar, compactar e transportar todas as latas da ilha. De Noronha, serão enviadas para Recife e, posteriormente, processadas por outra indústria, a Novelis, responsável por manejar o alumínio para novas latas.

Vida nova para as latas

A operação da reciclagem de alumínio no Brasil tem números altos de reaproveitamento. De acordo com a Abralatas (Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alumínio), 97,4% das latinhas são recicladas no Brasil.

Com a construção do laboratório em Noronha, a "vida" de uma latinha deve se igualar ao restante do país. Hoje, uma latinha leva 60 dias entre o mercado, descarte, reciclagem e se tornar uma nova lata.

É preciso um batalhão de catadores para ter números tão altos. O Movimento Nacional dos Catadores de Recicláveis estima em 800 mil catadores no país (70% são mulheres); o método será reproduzido na ilha.

A Ball afirma que dará aulas de educação ambiental e instalará pontos de coleta para moradores, bares e pousadas, além de disponibilizar um aplicativo para agendar coletas. Assim, a empresa calcula a reciclagem de 50 toneladas de alumínio no primeiro ano de funcionamento do laboratório.

Empresa irá instalar amassador de latinhas para facilitar coleta em Fernando de Noronha - Divulgação - Divulgação
Empresa irá instalar amassador de latinhas para facilitar coleta em Fernando de Noronha
Imagem: Divulgação

Para evitar que a ilha se livre das latinhas mas seja ainda mais poluída por carros a diesel, uma planta de energia solar será instalada no local pela companhia de energia elétrica de Pernambuco, a Celpe. O objetivo é fornecer eletricidade para a coleta feita por veículos elétricos.

"[É uma maneira de mostrar que se] pode continuar consumindo a mesma bebida do mesmo produtor com um impacto menor contra o meio ambiente", explica Estevão Braga, diretor de sustentabilidade da Ball na América do Sul. "Nós queremos que o turista ou o ilhéu veja toda essa experiência e tenha consciência de que [a partir das latinhas] ele também pode instalar uma placa de energia solar em casa". A Ball não revela quanto dinheiro será investido, mas afirma que o valor da venda do alumínio será utilizado para manter as operações do laboratório e ações socioeducativas na ilha.

Noronha vs. Mundo

A reciclagem de latas em Noronha é uma batalha contra o mundo. Além do lixo produzido internamente, o oceano traz toneladas de plástico, vidros e latinhas.

No museu da ilha, há um achado curioso: uma latinha produzida na África do Sul que navegou pelo oceano Atlântico até Noronha. "É uma disputa contra um modelo industrial global", acrescenta Guilherme Rocha.

A boa visibilidade de um programa de reciclagem em Noronha pode influenciar mais empresas a migrar para as latas de alumínio, afirma Fauze Villatoro, vice-presidente comercial da Ball na América do Sul.

Pega uma latinha e bate uma na outra

A venda de latinhas é lucrativa para os catadores: elas custam 4 vezes o valor atual do PET e 48 vezes mais do que o vidro, segundo dados do setor. Apesar disso, Fauze afirma que sai mais caro para as empresas.

"Chega a ser de 3 a 5 vez mais caro por unidade a embalagem [de alumínio]. No mercado, você encontra embalagens de plástico por 99 centavos a R$ 1,40, enquanto uma lata costuma sair por $ 3,50 a depender da ocasião e do local", diz.

Fauze afirma que, mesmo com custo maior, as empresas estão migrando para a produção em alumínio reciclável por assumir compromissos com meio ambiente, acionistas e com uma imagem cada vez pior do plástico.

No Brasil, é comum que refrigerantes e cerveja sejam distribuídos em latas ou garrafas de vidro, materiais costumeiramente reciclados. Companhias como a Ambev e Minalba já apostam na venda de água em latinha, um tipo de consumo ainda incomum entre brasileiros.

A Ball afirma ser responsável por 47% das latas produzidas no país e três quartos do alumínio da empresa vieram da reciclagem. A meta é que o material reciclado seja 85% das operações da empresa até 2030, o que diminui a extração de matéria-prima e torna o processo mais em conta para a indústria.

O laboratório deve ser inaugurado em 2022 em Noronha. No futuro, espera-se que a ilha inverta a lógica e tenha cada vez mais espaço para a natureza e cada vez menos lixo para se preocupar.

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