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Tênis, pilhas da França e lixo de origem misteriosa viram museu em Noronha

Erika (foto) é curadora de mostra permanente com lixo que chega em Fernando de Noronha; origem do material vai da Índia até África do Sul e pode virar microplástico - Marcos Candido/UOL
Erika (foto) é curadora de mostra permanente com lixo que chega em Fernando de Noronha; origem do material vai da Índia até África do Sul e pode virar microplástico Imagem: Marcos Candido/UOL

Marcos Candido

De Ecoa, em Fernando de Noronha (PE)*

05/11/2021 06h00

Tênis, tranças de cabelo, uma peneira, uma garrafa de destilado e um tambor de metal enferrujado estão entre objetos curiosos de uma exposição permanente sobre o lixo encontrado nas praias de Fernando de Noronha, na costa de Pernambuco. Segundo os organizadores, o objetivo é conscientizar as empresas e consumidores a reciclar. Afinal, o lixo pode ir longe.

Na mostra, há uma embalagem de Hong Kong, uma lata de refrigerante da África do Sul, um creme produzido na Turquia, um tambor enferrujado de 60 centímetros dos Estados Unidos, pilhas da França, uma garrafa de destilado da Venezuela e um hidratante da República do Congo. Há ainda objetos da Índia. Muitas marcas são desconhecidas pelos brasileiros.

Barril de 60 centímetros fabricado nos Estados Unidos chegou até praias de Noronha - Marcos Candido/UOL - Marcos Candido/UOL
Barril de 60 centímetros fabricado nos Estados Unidos chegou até praias de Noronha
Imagem: Marcos Candido/UOL

Entre o lixo brasileiro estão chinelos, sapatos, óculos, pentes, apliques de cabelo, brinquedos, embalagens de amendoim, achocolatado e isopor. Mas não é possível identificar a origem de todo lixo. É o caso de uma pedra de piche e de dezenas de garrafas plásticas, canos, tampas, cordas, galões e canudinhos plásticos. O material foi coletado entre 2019 e 2020 e ultrapassou 90 kg de lixo.

"Nós queremos mostrar para as empresas a necessidade da logística reversa e educar moradores e turistas", explica a curadora da mostra, Érika Cavalcante, para Ecoa.

Na prática, a logística reversa é quando as empresas "pegam de volta" e dão um destino ao produto vendido ao consumidor, evitando que seja descartado na natureza e seja levado por correntes marítimas a locais a milhares de quilômetros.

Risco para animais raros

O lixo é uma ameaça para qualquer oceano e rio no mundo. Em Noronha, é um risco contra uma vida marinha vasta, rara e misteriosa. A ilha foi descrita por navegadores europeus pela primeira vez no início dos anos 1500 e, séculos depois, por Charles Darwin, autor do livro "A origem das espécies" e um dos biólogos mais importantes da história.

Noronha está a 540 km de Recife, no meio do oceano Atlântico. Para chegar lá é preciso 1 hora de avião, tempo similar ao voo entre Rio de Janeiro e São Paulo. Pode parecer um lugar isolado do continente, mas não é.

Lata de refrigerante da África do Sul e embalagem de produto da Turquia rodaram pelos oceanos até chegar em Fernando de Noronha, a 60 minutos de voo de Recife; ao fundo, uma garrafa de destilado venezuelano - Marcos Candido/UOL - Marcos Candido/UOL
Lata de refrigerante da África do Sul e embalagem de produto da Turquia rodaram pelos oceanos até chegar em Fernando de Noronha, a 60 minutos de voo de Recife; ao fundo, uma garrafa de destilado venezuelano
Imagem: Marcos Candido/UOL

Fernando de Noronha fica entre correntes marítimas como a Corrente do Brasil e Sul Equatorial, mas uma embalagem descartada no Rio Grande do Sul pode dar um giro pela corrente de Benguela, na costa do continente africano, e chegar meses depois até as areias da praia do Cachorro, em Fernando de Noronha, a milhares de quilômetros.

Como exemplo da força das correntes, praias brasileiras foram atacadas no ano passado com óleo que navegou por correntes marítimas após ser liberado por um cargueiro venezuelano. Parte do material chegou a Noronha e foi coletado por voluntários.

Além do descarte por consumidores, há ainda as águas internacionais, também chamadas de alto-mar, um espaço no oceano que não pertence a um país e suas leis ambientais. "É quase impossível fiscalizar o que é jogado das embarcações", diz Érika.

Não se sabe como a pessoa chegou confortavelmente descalça até a própria casa, mas a bióloga afirma que os moradores costumam encontrar muitos sapatos. Para demonstrar a força das correntes, os pesquisadores também apresentaram sementes de árvores que não pertencem à ilha e, de alguma forma, foram levadas naturalmente até Noronha. Recentemente, surgiu um novo tipo de lixo: máscaras usadas contra a covid-19.

Noronha e suas águas são protegidas por legislação ambiental por serem lar de tubarões, tartarugas, um número incontável de seres microscópicos, peixes e dos simpáticos golfinhos rotadores.

Até hoje, cientistas continuam a descobrir novos animais em Fernando de Noronha, como quatro novas espécies de peixes encontrados por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo em 2020. O lixo também pode afetar as espécies que voam, andam ou rastejam pelos 17 km² da ilha. Inclusive, o ser humano.

Os tais plastiquinhos

Em uma das mãos, a curadora e bióloga Erika segura um vidrinho. Nele, há dezenas de pequenos retângulos coloridos. São plásticos recolhidos nas praias de Noronha. Com o tempo, cada pedaço irá se dividir em partes ainda menores que podem ser ingeridas por peixes.

Conclusão: o ser humano pode comer peixe com plástico sem saber. São os chamados microplásticos, que podem ser prejudiciais à saúde de qualquer espécie na Terra. O microplástico já foi encontrado nos pulmões de humanos em forma de polipropileno (usado em copos plásticos, tampas) e polietileno (sacolas e garrafas PET).

Desde abril de 2019, um decreto proíbe alguns produtos plásticos em Fernando de Noronha, como canudos, sacolas, pratos, talheres, garrafas com menos de 500 ml, poliestireno extrudado (isopor) e objetos que produzam microplásticos. Em cidades como São Paulo, os canudinhos foram proibidos.

"Nós monitoramos a entrada no aeroporto para indicar os turistas a jogar fora os plásticos. A maioria é bem receptiva à ideia", explica a bióloga paulista Fabiane Vilela, ex-voluntária do ICMbio que permaneceu na ilha para ser educadora ambiental.

Apesar do esforço, sem o esforço da indústria e dos consumidores, muito lixo além do plástico pode chegar até Fernando de Noronha, como vidros e metais. Como uma mensagem na garrafa que ninguém quer encontrar.

Como conhecer

Exposição didática do lixo Marinho
Endereço: Memorial Noronhense, Vila dos Remédios (Centro histórico), Fernando de Noronha, Pernambuco
Horário: das 9h às 12h
Entrada gratuita

Lixo encontrado no Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha

*O repórter viajou a convite da Ball Corporation

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