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"Nada nos foi dado. Tudo foi duramente conquistado", diz Aline Pellegrino

Carmen Lúcia

Colaboração para Ecoa, do Rio de Janeiro

04/08/2021 06h00

A equidade de gênero no mundo do trabalho no Brasil é o tema da série documental "Como Ela Faz?", que estreou ontem (3) no Canal UOL. O projeto de cinco episódios apresenta 12 protagonistas, com carreiras e cotidianos diferentes, batalhando pelas mesmas oportunidades que os homens recebem no mercado de trabalho.

Os temas discutidos no "Como Ela Faz?" envolvem trabalho, família, pressão da sociedade, educação, racismo, machismo, sonhos, conquistas e muito mais. Com o tema "Mulher não nasceu pra ser escrava - por que desigualdade salarial ainda existe?", o primeiro episódio abriu o caminho para um debate ao vivo promovido por Ecoa, Rede Brasil do Pacto Global da ONU e Tocha Filmes.

Nele, cinco mulheres discutiram a mão de obra feminina e caminhos para a equidade de gênero. Ítala Herta, fundadora da Diver.Ssa, da aceleradora Vale do Dendê e curadora de Ecoa, foi a mediadora do encontro e abriu a conversa explicando que o projeto busca trazer uma reflexão sobre as ferramentas possíveis para tornar o mundo mais justo para as mulheres.

"Sempre digo que quando uma mulher é dona do seu próprio dinheiro, ela é dona da própria vida e tem menos chance de vivenciar uma situação de violência, por exemplo. A situação no mercado de trabalho não está boa e a pandemia afetou muito as mulheres. Além disso, existe o trabalho doméstico, os cuidados com os filhos. A pandemia escancarou essa sobrecarga feminina", disse Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora cuja missão é dar autonomia para os trabalhos liderados por mulheres.

Segundo a profissional, por conta da crise econômica, muitas mulheres foram "empurradas" para o mundo do empreendedorismo. Outras optaram por este caminho por não se adaptarem ao mercado de trabalho tradicional. "A gente tem a chance de mudar este cenário. Todas as empresas e organizações, olhando para a diversidade e a igualdade com mais atenção, a gente consegue fazer a diferença. É fundamental apoiar, dar educação, mas tem que colocar recurso, porque sem dinheiro na mesa, a situação não sai do lugar. Sempre bato na tecla da importância das políticas públicas".

Ana Fava, professora da Universidade Federal do ABC, reforçou o fato de que muitas mulheres, além de receberem menos que os homens e acumularem muitas funções, também têm mais dificuldade de pedir ajuda. "Este é o momento de ver os pais assumindo as responsabilidades domésticas junto com as mães, educando pelo exemplo. Este hábito precisa ser iniciado desde cedo", opina a pesquisadora.

"Fico profundamente feliz quando vejo mulheres da nova geração ocupando postos de trabalhos que antes só um homem alcançaria. Mas, para que mais mulheres possam crescer, se desenvolver, é preciso gerar oportunidade. Questões básicas como creche, escola em período integral para liberar estas mães e condições para que estas mulheres sejam inseridas no mercado de trabalho", diz ela.

Já Aline Pellegrino, ex-capitã da seleção brasileira de futebol e atual coordenadora de competições femininas da CBF, avaliou o mercado de trabalho para as mulheres no mundo esportivo, especificamente, no futebol. "A mulher que decide jogar futebol, ela vai automaticamente para um ambiente dominado pelos homens. Neste caso, a primeira dificuldade que enfrentamos é convencer as pessoas que podemos estar neste espaço. Nada nos foi dado. Tudo foi duramente conquistado. E a cobrança chegou junto com cada conquista", disse a atleta.

Em outro momento, Aline pontuou as dificuldades básicas que uma jogadora iniciante enfrenta, principalmente quando ela não tem recursos financeiros. "Meninos e meninas que jogam futebol são geralmente mais pobres e acabam vindo com uma expectativa muito grande. Acham que vão ficar ricos muito rápido. No caso das meninas, muitas abandonam o sonho porque estão cuidando da casa, do irmão, fazendo a comida, ajudando a mãe e não podem treinar. Ou seja, a mulher acaba sempre tendo mais dificuldade,"

Fechando o bate-papo, Adriana Carvalho, ex-gerente da ONU Mulheres e CEO da Generation, falou sobre ações significativas para fomentar o empoderamento das mulheres e melhorar a presença das mesmas no mercado de trabalho. Segundo ela, a pandemia causou um retrocesso na vida das mulheres, acabou com muitas redes de apoio, e acendeu um holofote para importantes questões.

"Primeiro temos a questão das grandes empresas que viram que existe um ponto a ser trabalhado, não só o caso das mulheres, mas das pessoas negras, deficientes, LGBTQIA+ e por aí vai. O outro ponto foi entender que cada uma de nós também pode fazer a diferença. Por exemplo, quando eu vou consumir algo, eu tenho a consciência de comprar de outra mulher, em vez de ir a uma loja que não tem responsabilidade com estas questões?"

Na terça que vem, o Canal UOL transmite dois episódios seguidos novamente de um debate a partir das 20h.

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