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Comércio justo de guaraná garante sustento de comunidades indígenas da AM

Obadias e integrantes do Nusoken, consórcio Sateré-Mawé - Divulgação
Obadias e integrantes do Nusoken, consórcio Sateré-Mawé Imagem: Divulgação

RFI

21/07/2021 11h14

Quando pensamos no preço de um produto, nem sempre incluímos a origem, o transporte, o saber de um cultivo ou os danos causados ao meio ambiente. Mas uma faceta da economia ganha cada vez mais força, propondo um comércio justo e equilibrado. Nesse setor, o que está em jogo não são apenas os preços das matérias-primas, mas a conscientização e os programas sociais por trás da sua venda.

Valorizar e reconhecer o impacto da distribuição de produtos da floresta Amazônica é um dos pilares das atividades da empresa francesa Guayapi, fundada nos anos 1990, e uma prática que vem ganhando força no mercado. O conceito se destaca quando os países precisam enfrentar juntos a crise climática. A ideia, contudo, não é nova. Nasceu nos anos 1960, como explica Bastien Beaufort, diretor da empresa.

"Na época da Guerra Fria entre o comunismo e o capitalismo, numa conferência internacional, cerca de 80 países, principalmente da região tropical do mundo, defenderam uma terceira via, propondo um comércio justo e não ajuda" financeira, contextualiza. O empresário cita os dois objetivos centrais da prática: "ter uma forma de comércio mais justa para os pequenos produtores do mundo garantirem um salário digno e tentar mudar as regras do comércio internacional".

O comércio justo se normalizou nos anos 1970 nas cooperativas de café do México. E desde então, se espalhou pela Europa e o resto do mundo.

Waraná virou guaraná

O guaraná foi a primeira planta da Amazônia que a Guayapi introduziu no mercado europeu. "A gente encontrou, através de uma antropóloga, o povo Sateré Mawé, que vive na Amazônia central e que é conhecido como o criador da cultura do guaraná, que eles chamam waraná, e traduzem como princípio de todo o conhecimento", afirma.

"A nossa ideia no comércio justo é permitir que o produtor possa cultivar o guaraná de forma tradicional, sem desmatar, que ele possa ter vários outros produtos nas suas roças, florestas, e não ter que apostar numa só commodity", continua Beaufort.

Preço justo

Porém, é na hora de estabelecer o preço da matéria-prima que o comércio justo faz a diferença. No caso do guaraná em pó, os valores pagos aos produtores ficam bem acima do mercado brasileiro. "A gente compra a 50 euros o quilo de guaraná em pó do consórcio dos produtores Sataré Mawé, que é um preço muito mais alto do que o preço médio para o guaraná convencional no Brasil", diz Beaufort. Cerca de 15 vezes mais, se compararmos aos R$ 20 o quilo, pagos localmente.

PhD da Universidade Sorbonne em Geografia e urbanismo, Bastien Beaufort acredita que o consumidor está disposto a pagar mais caro se for informado dos benefícios sociais e ambientais que compõem o preço. "Quando o consumidor tem essa informação, eu posso assegurar para você que ele vai sempre escolher o produto mais justo e que vai cuidar do meio ambiente e dos produtores", diz. "Há vários programas sócio-ecológicos que o consumidor, como cidadão, sabe que vai apoiar."

Embora esteja crescendo, o comércio justo ainda representa apenas 0,5% de todas as transações comerciais internacionais. "Ainda somos uma gota de água no oceano do comércio mundial", compara o empresário francês.

"No caso do guaraná, há uma dominação das grandes multinacionais da bebida para extrair o princípio ativo da planta do guaraná e colocar numa fórmula que tem muita água, gás, açúcar e extrato de guaraná", diz. "Esse produto final está baseado num sistema de monocultivo, com sementes híbridas, riscos de desmatamento e os produtores ainda não recebem um preço justo", observa.