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Graças a ONG, infraestrutura reduzirá matança de animais e acidentes

Alerta quanto à presença de animais selvagens são implantados em rodovias na região de Veadeiros.  - Associação dos Amigos das Florestas
Alerta quanto à presença de animais selvagens são implantados em rodovias na região de Veadeiros. Imagem: Associação dos Amigos das Florestas

Aldem Bourscheit

Do site ((o)) eco

28/06/2021 06h00

Um dos abrigos do que resta do Cerrado no país, a Chapada dos Veadeiros está recebendo equipamentos que ajudarão a reduzir atropelamentos de animais e acidentes com pessoas em 100 quilômetros de rodovias. As medidas se devem a um acordo judicial baseado em uma ação civil pública movida por uma organização não governamental ambientalista.

Placas, lombadas, sonorizadores, passagens subterrâneas e aéreas contribuirão para conter a matança de animais em vias asfaltadas na Chapada dos Veadeiros, no nordeste de Goiás. A região abriga um parque nacional e outras áreas, legalmente protegidas ou não, que mantêm espécies e cenários naturais procurados por milhares de turistas do Brasil e do Exterior.

A implantação da infraestrutura pela Agência Goiana de Infraestrutura e Transportes (GoInfra) se deve a uma decisão da Justiça Federal baseada numa ação civil da Associação dos Amigos das Florestas. A ONG pediu a execução de condicionantes previstas há quase duas décadas no licenciamento ambiental das rodovias GO 118 e 239.

"Tentamos o cumprimento das condicionantes das obras rodoviárias pela via amigável, mas como as medidas não eram cumpridas, acionamos o Ministério Público Federal", explicou a advogada Flávia Cantal, da Associação dos Amigos das Florestas.

As 22 lombadas para redução de velocidade devem ser instaladas em até 3 meses. As 15 passagens aéreas e subterrâneas para animais, em 1 ano. Áreas degradadas por obras da GO-239 devem ser recuperadas em 3 anos. As estruturas serão posicionadas onde os animais circulam com mais frequência. Tudo deve ser sinalizado com placas, sonorizadores e até portais sobre as rodovias.

A agência goiana enviou nota à reportagem de O Eco afirmando que trabalha "para cumprir todos os cronogramas previstos", que a infraestrutura custará mais de R$ 3,5 milhões de recursos públicos e que medidas semelhantes podem ser adotadas em outras rodovias estaduais.

"Após a implementação de passagens de fauna nestas GOs, a agência estenderá essa política de proteção de fauna e segurança viária para a GO-341, que margeia o Parque Nacional das Emas. Toda vida importa", pontuou o presidente da Goinfra, Pedro Sales.

Motivos não faltam para a adoção permanente de medidas que reduzam os atropelamentos de fauna, que pode levar até à extinção de espécies.

1 - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Biólogo Leonardo Fraga registrando animal silvestre atropelado na Chapada dos Veadeiros.
Imagem: Arquivo Pessoal

Chacina viária

Pelo menos 7 mil animais silvestres são mortos todo ano nos trechos entre as cidades de São João da Aliança - Alto Paraíso (68 Km) e de Alto Paraíso - Vila de São Jorge (37 Km). Os números vêm de 8 anos de estudos apoiados pela Universidade de Brasília (UnB) e Fundação Grupo Boticário. Os dados estão descritos na ação civil pública (confira aqui).

"Os números representam uma pequena parcela dos atropelamentos da fauna silvestre que ocorrem nas rodovias da Chapada dos Veadeiros. Carcaças maiores permanecem mais tempo nas rodovias, enquanto anfíbios, répteis, aves e pequenos mamíferos são rapidamente removidos pelo tráfego, chuvas ou outros animais", explica o biólogo Leonardo Fraga, ligado à UnB.

E a matança continua. Em meados de maio, uma fêmea de lobo-guará foi atropelada em uma rodovia regional. A espécie é ameaçada de extinção. A denúncia correu em mídia social do Birding Brasília Veadeiros, um projeto que estimula a observação de aves no Cerrado.

Parte de um time dedicado ao monitoramento coletivo de atropelamentos de fauna silvestre, Leonardo Fraga avalia que a infraestrutura em Veadeiros igualmente chamará a atenção para a problemática dos atropelamentos e contribuirá para uma maior segurança no trânsito.

"Os atropelamentos são um importante mecanismo de perda da biodiversidade genética da fauna silvestre. Mesmo poucos atropelamentos podem representar perdas significativas devido à diminuição da abundância de espécies. Eles são um mecanismo silencioso que pode resultar na extinção local de espécies", destaca o pesquisador.

Onças, veados, araras, tamanduás e outras espécies mortas por veículos igualmente são parte das belezas que atraem mais de 70 mil turistas anuais somente ao parque nacional e aquecem economias em Veadeiros. A atividade movimenta R$ 140 milhões anuais apenas em Alto Paraíso, diz a prefeitura municipal.

E a expectativa é de que os visitantes cheguem a 120 mil por ano até 2025, aumentando o tráfego de carros, motos e caminhões, bem como os riscos de acidentes com animais e pessoas.

Fator humano

Informações da Polícia Rodoviária Estadual e do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas da Universidade Federal de Lavras (MG) mostram que as medidas em defesa da fauna também reduzirão os ferimentos e as mortes de pessoas causadas por trombadas com bichos ou por excesso de velocidade.

Desde 2017, pelo menos 3 pessoas perderam a vida em acidentes com animais em Veadeiros. E conforme dados da Polícia Rodoviária Federal, 1.062 pessoas foram vítimas de acidentes com animais selvagens e domésticos no país, em 2019. Os números foram compilados pela equipe do U-Safe, um aplicativo de segurança viária.

Na região, a instalação de placas e de redutores de velocidade - tida por especialistas como uma das ações mais efetivas para conter mortes de animais em rodovias no mundo todo - foi aprovada em um abaixo assinado com mais de 1.500 nomes de associações e de moradores. Um dos apoiadores é o artista plástico e empresário turístico Otoniel Fernandes Neto.

Frequentador histórico da região, para onde se mudou para lá em 2014, Fernandes Neto conta que desde então presencia motoristas trafegando em altíssima velocidade e inúmeros animais mortos no trecho de Alto Paraíso à Vila de São Jorge. Depois de cruzar por "cemitérios a céu aberto" com animais mortos em rodovias pelo país, ele vê com bons olhos as medidas contra o atropelamentos de animais.

"As lombadas sem dúvida reduzirão essa matança. Parece que ninguém pode perder uns minutinhos da sua viagem para salvar os animais silvestres e às vezes a própria vida. Mas os motoristas criarão novos riscos se acelerarem ainda mais após as lombadas para compensar o pouco tempo perdido. Falta muita educação ambiental e de trânsito", ressaltou.

A infraestrutura também é apoiada por coletivos e entidades como o Programa de Conservação de Mamíferos da Chapada dos Veadeiros, da Universidade de Brasília (DF), o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (ICMBio) e as ONGs ProAnima - Associação Protetora dos Animais e Fundação Mais Cerrado.

Pé no freio

2 - Aldem Bourscheit / Arquivo Pessoal - Aldem Bourscheit / Arquivo Pessoal
Até ser asfaltado, em 2015, trecho Alto Paraíso - Vila de São Jorge era palco de inúmeros acidentes, especialmente por alta velocidade.
Imagem: Aldem Bourscheit / Arquivo Pessoal

Apesar da decisão judicial e do suporte de entidades públicas e privadas, as medidas em defesa de animais e de pessoas enfrentam resistências em Veadeiros.

Certos moradores e políticos alegam desconhecer os atropelamentos de animais e a ordem judicial, e comentam que redutores de velocidade podem até provocar acidentes. Alto Paraíso e outros municípios podem recorrer da decisão, afirmam jornais da região. Enquanto isso, a sinalização tem sido depredada (foto acima) em protesto.

"Decisão judicial se cumpre, mas as prefeituras nunca foram avisadas ou participaram do processo (judicial). Alguns quebra-molas podem causar danos e mortes de pessoas. Contratamos um laudo técnico sobre isso e tomaremos providências. Temos que nos preocupar com a vida dos animais e das pessoas", destacou o prefeito de Alto Paraíso, Marcus Rinco (DEM).

Advogado, músico e vereador no mesmo município, João Yuji e Silva (Rede) publicou um abaixo-assinado eletrônico para colher nomes contra a implantação de quebra-molas. Até o fechamento desta reportagem, o manifesto tinha cerca de 350 assinaturas.

Também há críticas por possíveis atrasos nos deslocamentos, especialmente entre Alto Paraíso e a Vila de São Jorge, onde fica o hoje único portão de acesso ao Parque Nacional, e de Veadeiros até Brasília, para onde ambulâncias correm com pacientes feridos gravemente. Não há nenhuma UTI na região.

Em nota pública, a Associação dos Amigos das Florestas defende que soluções reais passam por educação no trânsito, melhorias nos serviços de saúde regionais, afirma que lombadas associadas a placas e sonorizadores são eficientes na redução de mortes de animais, seguras para motoristas e, ainda, que têm baixo custo de implantação e manutenção.

Essas são algumas vantagens da infraestrutura física em relação aos radares. Aparelhos instalados para controlar a velocidade no entorno do Parque Nacional de Brasília, na capital federal, podem ser substituídos em breve por lombadas. Criminosos têm depredado os radares e até trafegado na contramão tentando evitar o registro eletrônico, aumentando a chance de acidentes.

"Moradores e políticos se conformaram em levar pacientes graves para Brasília ao invés de pleitear melhorias nos hospitais regionais. Experiências em outras regiões mostram que lombadas são mais eficientes e baratas para mitigar atropelamentos de animais do que os radares eletrônicos", ressaltou Flávia Cantal, da Associação dos Amigos das Florestas.

Alerta no Cerrado

Durante e após a implantação dos equipamentos na Chapada dos Veadeiros, pesquisadores e ambientalistas devem prosseguir com o monitoramento sobre a mortandade de animais.

A legislação goiana determina não só a adoção de medidas pela redução de acidentes com espécies silvestres, mas também a criação de um banco de dados sobre os atropelamentos. Isso ajudará na implantação de novas estruturas em trechos mais críticos das rodovias estaduais.

Conforme Leonardo Fraga, da UnB, isso é fundamental para a conservação da fauna em ambientes fragmentados como os do Cerrado, cujo cenário futuro pode ser de "ilhas de vegetação nativa" em meio a lavouras. Isso tornaria os atropelamentos de animais ainda mais frequentes.

"Há previsão de declínios populacionais significativos de diversas espécies nos próximos anos, pela degradação de habitats provocada por atropelamentos, caça e contato com animais domésticos. A conservação do Cerrado depende de ações em escala regional promovidas pelo poder público e pela sociedade civil", completou o pesquisador.

Enquanto isso não acontece, a vida na savana brasileira encolhe diariamente, inclusive esmagada pelas rodas de incontáveis veículos.

Essa reportagem foi produzida pela equipe do site ((o)) eco, onde também foi publicada.

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