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Livreiro do Alemão: "Quero ver a favela vencendo através da minha arte"

Otávio Júnior ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Livro Infantil - Rene Silva/Divulgação
Otávio Júnior ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Livro Infantil Imagem: Rene Silva/Divulgação

Isabella Garcia

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

07/01/2021 04h00

O menino que um dia descobriu seu primeiro livro em um lixão venceu o maior prêmio literário do Brasil. Quem faturou a categoria livro infantil, do Prêmio Jabuti 2020, foi Otávio Júnior com a obra "Da Minha Janela" (Companhia das Letras). A história mostra um garoto, morador de uma favela do Rio de Janeiro, que ao abrir a sua janela enxerga alegria, pluralidade, bichos, cores e a realidade dos seus semelhantes. A narrativa é pintada com sensibilidade e vem embalada pelas cores e movimentos das ilustrações de Vanina Starkoff.

A janela do garoto do livro tem uma enorme conexão com a janela de seu autor. A Favela do Caracol, no Complexo da Penha, é o local onde Otávio é "nascido e criado", como gosta de afirmar. O ambiente colorido e repleto de alegria que o escritor descreve no livro é o mesmo de sua infância, marcada por brincadeiras comuns para crianças das favelas como empinar pipa, rodar pião e jogar futebol.

Filho de pai pedreiro e de mãe dona de casa, Júnior conta que o universo cultural não fazia parte do seu cotidiano. Aos 8 anos, encontrou no lixão o livro infantil "Dom Gatão" (Ebal), o primeiro da coleção Peteleco. Esse foi um objeto transformador da sua vida. A partir desse momento, passou a se interessar mais por arte, literatura e o universo criativo. A paixão foi ampliada em idas a bibliotecas públicas, exposições, peças teatrais e oficinas de escrita. Vivências que o fizeram escritor, ator, contador de histórias e produtor teatral.

Conforme entendia os processos criativos, Otávio se dava conta de que era necessário democratizar a literatura, principalmente para as crianças da favela que são majoritariamente pretas e pardas, mas, também, nordestinas e indígenas. Ele via que os jovens tinham uma curiosidade muito grande de saber o que é a favela, pois na cabeça deles tudo se resumia à pobreza e à violência. "A partir da literatura infantil eu coloco personagens moradores de favela em posição de destaque e também mostro que existem questões de violência. Que esse é um território que não tem investimentos [nas] questões de saneamento básico, arquitetura e iniciativas voltadas ao meio ambiente", conta Otávio.

Pipa - Alexandre Silva/Divulgação - Alexandre Silva/Divulgação
O livreiro do alemão Otávio Júnior
Imagem: Alexandre Silva/Divulgação

O livreiro do Alemão

Ver os amigos do velho bairro sem interesse em ler motivou Otávio Júnior a criar a primeira biblioteca nas favelas do Complexo do Alemão e do Complexo da Penha. Além disso, ele criou o "Ler é 10", um projeto itinerante que levava livros para outros pontos da Penha e do Alemão. E mais: criou a "Barracoteca", um espaço de leitura no morro do Caracol e o projeto "Favela Lúdica", como pesquisador na área de educação.

"Eu sou um ativista da literatura. A minha figura é bem importante para pensar em estratégias para democratizar os livros nas favelas. Não adianta eu pensar em muitas histórias e ganhar prêmios, se as pessoas da minha família e da minha comunidade não tiverem acesso ao que eu escrevo, aos clássicos nacionais, americanos e universais. O propósito de implementar esses projetos em favelas vizinhas foi o de compartilhar histórias. "

Apesar de ter promovido mudanças e comunicar uma outra perspectiva de favela, o autor reflete que isso ainda não é uma vitória. "É muito comum ouvir artistas usando sua trajetória pessoal para definir o coletivo. A favela não venceu por causa do Otávio Júnior e está muito longe de vencer. Ainda hoje existem muitas situações desagradáveis que acontecem como a violência contra criança, a mulher e o racismo. Existe muita precariedade ligada à geração de renda, à educação, à primeira infância e à cultura. Estamos falando de um território que não tem investimento. A sociedade não está comprometida com as nossas pautas, então, por mais que um prêmio seja muito significativo, é impossível comemorar a vitória da favela."

O escritor carrega até hoje o livro "Dom Gatão" como um amuleto incentivador. A obra encontrada no lixão mudou a sua vida e consequentemente transformou o mundo de muita gente. Graças às suas narrativas, crianças pretas e faveladas, que provavelmente não irão se deparar com muitos príncipes e princesas nos livros infantis tradicionais, conseguem enxergar-se como protagonistas. A identificação pode fazer toda a diferença na vida desses jovens; eles podem sonhar.

"Eu acredito na força na literatura, da arte e da educação como uma ferramenta de transformação. Essa é a forma que eu encontrei para incentivar os jovens a buscarem, persistirem e insistirem nos seus sonhos. Eu quero olhar lá na frente e ver a favela vencendo através da minha arte e da minha perseverança. Eu quero ver uma favela plural, [uma favela] conectada com a cultura, [uma favela] tecnológica. Conectada ao empreendedorismo e ao desenvolvimento", sonha Otávio como sonham os meninos e meninas pretas ao lerem seus livros.