PUBLICIDADE
Topo

Arte fora dos centros

Nordeste no topo: Itamar Vieira Jr e Cida Pedrosa vencem Prêmio Jabuti

Itamar Vieira Junior ganhou o Prêmio Jabuti de romance literário com "Torto Arado" - Divulgação
Itamar Vieira Junior ganhou o Prêmio Jabuti de romance literário com "Torto Arado" Imagem: Divulgação
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

27/11/2020 15h08

O Prêmio Jabuti, o mais tradicional e importante da literatura brasileira, anunciou na última quinta-feira (26) seus vencedores. Confirmando uma tendência de descentralização da literatura brasileira e um olhar mais generoso para os artistas fora do eixo Rio-São Paulo, o prêmio consagrou a pernambucana Cida Pedrosa e seu poema épico-lírico "Solo para Vialejo" (CEPE, 2019) nas categorias "Livro do Ano" e "Poesia". Além do troféu, Cida levou R$ 100 mil para casa.

"A Cida tem um trabalho incrível, sempre engajada nessas publicações independentes, com um trabalho que vem dos anos 80. E no ano de homenagem à Adélia Prado foi muito valioso ver o livro do ano ser um livro de poesia. A poesia é um gênero que muitas vezes não é tão valorizado pelo mercado editorial como deveria. Ver um livro de poesia, de uma mulher incrível e nordestina é muito valioso", me contou por telefone o escritor Itamar Vieira Junior, que se encontra em isolamento desde o começo da pandemia de covid-19.

Pretendo fazer uma coluna "Arte fora dos centros" especial com Cida em breve, por enquanto vamos falar de outro grande vencedor da noite: "Torto Arado" (Todavia, 2019) de Itamar Vieira Junior que faturou a categoria "Romance Literário". Itamar é baiano e não tem planos de mudar para o sudeste por conta de sua emergente carreira: "Eu não saio daqui pra nada. Estou enraizado na Bahia", brincou sério Itamar, ao celebrar que tanto ele, quanto Cida moram no nordeste.

"Torto Arado", um dos mais importantes livros da literatura contemporânea em língua portuguesa, já havia vencido o Prêmio Leya e é finalista do Prêmio Oceanos 2020. O livro que narra a jornada de duas irmãs quilombolas (Belonisia e Bibiana) foi destaque aqui nesta coluna em junho e, segundo Itamar, já vai para a sétima reimpressão, se aproximando dos 20 mil exemplares vendidos.

"Eu acho que o Prêmio Jabuti deste ano refletiu um pouco dessa diversidade, trouxe para a centralidade da nossa literatura um Brasil que estava esquecido. A obra da Cida Pedrosa é maravilhosa, tem um intercâmbio importante com as questões da negritude, sem contar o prêmio para a Djamila Ribeiro, o livro sobre a diáspora negra do Laurentino Gomes. O livro juvenil "Palmares de Zumbi" do Leonardo Chalub".

Capa de "Solo para Vialejo" - Divulgação - Divulgação
Capa de "Solo para Vialejo" de Cida Pedrosa
Imagem: Divulgação

Torto Arado

"Fiquei muito feliz por mim, pelo "Torto Arado" e pela Bahia. Você sabia que o último Jabuti de romance que veio para Bahia foi há 25 anos atrás? Foi em 1995, com "A Descoberta da América Pelos Turcos", do Jorge Amado, que também ganhou o primeiro Jabuti, em 1959, com 'Gabriela, Cravo e Canela' O Jorge Amado é uma referência imensa. Quando eu tinha 17 anos, fui na casa do Jorge Amado, com "Capitães da Areia" debaixo do braço pedir um autógrafo. Toquei a campainha e uma secretária atendeu. Perguntei se Jorge Amado poderia assiná-lo. Deu um tempinho e ela retornou dizendo: 'Dona Zélia [Gattai, esposa de Jorge e escritora] está te chamando. Sentei com Jorge e Zélia, ele já estava bem idoso, mas assinou o livro, percebeu que o título daquela edição da Record tinha saído errado [no lugar de "Capitães da Areia", "Capitães de Areia"], fui tão bem acolhido por eles, sabe? Zélia me presenteou com uma cópia assinada de "Anarquistas Graças a Deus".

Itamar vê "Torto Arado" como parte de uma trilogia sobre a relação do homem com a terra. Mas não abre muitos detalhes sobre a história do próximo romance, "as personagens ainda estão na minha cabeça".

Rememoro aqui, o que escrevi sobre "Torto Arado" na coluna de junho. A obra, uma das mais elogiadas dos últimos anos, merece a atenção do leitor, que pode conhecer mais sobre a vida de Itamar na já citada coluna. Vamos lá:

"(...) O pai de Itamar Vieira Junior estava internado com insuficiência renal, quando seu filho se tornou o escritor brasileiro mais comentado do ano de 2018 ao embolsar 100 mil euros (o equivalente, hoje, a mais de meio milhão de reais) no prestigiado Prêmio LeYa por seu romance, até então inédito, "Torto Arado". A premiação da editora portuguesa é a mais bem paga da lusofonia. Nela, as obras devem ser submetidas com pseudônimo para que os jurados não sejam influenciados pelo pedigree do autor. "Será que foi uma mulher ou um homem que escreveu isto?" perguntava-se a poeta moçambicana Ana Paula Tavares jurada do prêmio e que "até o fim" não conseguiu descobrir a identidade do "cavalo" Itamar.

A ideia básica de "Torto Arado" (nome retirado de "Marília de Dirceu", poema do inconfidente Tomás António Gonzaga), veio à mente do adolescente Itamar Vieira Junior quando ele tinha 16 anos e a escola lhe apresentara Graciliano Ramos, Jorge Amado, Guimarães Rosa e José Lins do Rego, leituras que os colegas de Itamar desprezavam, mas pelas quais ele se apaixonou.

Muito só no ambiente escolar, onde sentia-se deslocado, o tímido Itamar refugiava-se do bullying dos colegas passando horas do ensino médio na biblioteca da escola. Quando terminou de ler tudo que lá havia de ficção (além dos regionalistas brasileiros, os clássicos infanto-juvenis da coleção Vaga-Lume), passou aos livros de geografia, o que lhe rendeu a ideia de ser geógrafo.

"Eu fui levado, pela própria realidade dos meus pais, que eu precisava ser pragmático, que ninguém vivia de escrita, que a literatura não era um trabalho". Para garantir uma renda melhor que a de professor, passou a prestar concursos públicos e acabou entrando no INCRA, trabalho que lhe permitiu muita escuta. E essa escuta de um Brasil pouco visto em nossos livros, programas de televisão e filmes foi fonte de inspiração para diversas de suas narrativas.

No convívio com as comunidades quilombolas do interior do sertão baiano, Itamar encontrou a maturidade que lhe faltara, aos 16 anos, para concluir seu romance. Apesar do autor não informar ao leitor datas, localizações exatas ou contexto durante a narrativa, o que a torna mais universal, "Torto Arado" é uma saga histórica que gira em torno dos conflitos por terra em uma comunidade quilombola localizada na Chapada Diamantina (BA).

foto de itamar - Itamar Vieira Jr - Itamar Vieira Jr
O trabalho de doutorado de Itamar com comunidades da Chapada da Diamantina foi fundamental para a elaboração de "Torto Arado"
Imagem: Itamar Vieira Jr

Com a saga que, assim como o pensar do brasileiro interiorano, mistura fatos da realidade "física" com elementos mágicos e espirituais, no papel, Itamar precisava libertar aquelas vozes cansadas de mudez. A inscrição no Prêmio Leya veio porque o autor, que estreara com a antologia de contos "Dias" (2012, Caramurê), vivia muito distante das baladas literárias do eixo Rio-São Paulo. A vontade de ser escritor profissional é memória antiga, localizada quando tentou recontar a história de "O caso da borboleta Atíria", de Lúcia Machado de Almeida, em algum momento da infância. No entanto, sem dinheiro no bolso ou amigos importantes, restava a Itamar a esperança de vencer algum prêmio para ver sua polifônica epopeia publicada.

Naquela manhã de quarta-feira, no mês de outubro, Itamar seguia para visitar o pai no hospital, quando recebeu uma ligação de um homem de voz grave e sotaque lusitano. Por mais que soe piegas escrever isso, a vida de Itamar mudou completamente a partir daquele dia, transformando-o, com perdão de Carla Perez, no verdadeiro "cinderelo baiano".

Com o dinheiro do Prêmio, Itamar pode financiar um apartamento próprio no bairro de Itapuã, a cerca de cinquenta metros da casa onde viveu o poeta Vinicius de Moraes. Apartamento onde vivem com Itamar dois cachorros e quatro gatos com quem ele conversa e se entende, enquanto responde minhas perguntas. "Minha cachorra não late, ela fala".

"Torto Arado" saiu com 8.000 exemplares, em Portugal, tornou-se unanimidade no país de Saramago e transformou Itamar em uma celebridade local sempre concedendo entrevistas de forte tom político e antirracista. O prêmio também lhe levou ao contrato com a editora brasileira Todavia que lançou 3 mil exemplares de seu romance.

O pai de Itamar, a quem Torto Arado é dedicado, alegrou-se com a conquista do filho, que fugiu da combo "futebol-música" ao qual geralmente são limitados os homens negros no Brasil, para traçar sua ascensão meteórica. Faleceu, no entanto, 15 dias depois de ver o herdeiro abocanhar o Prêmio LeYa. (...)"

Confira a lista completa de vencedores do Prêmio Jabuti 2020:

Livro do ano

  • "Solo para vialejo" | Autor(a): Cida Pedrosa | Editora(s): Cepe Editora

Literatura

Romance Literário

  • "Torto arado" | Autor(a): Itamar Vieira Junior | Editora(s): Todavia

Conto

  • "Urubus" | Autor(a): Carla Bessa | Editora(s): Confraria do Vento

Crônica

  • "Uma furtiva lágrima" | Autor(a): Nélida Piñon | Editora(s): Record

Histórias em Quadrinhos

  • "Silvestre" | Autor(a): Wagner Willian | Editora(s): Darkside Books

Infantil

  • "Da minha janela" | Autor(a): Otávio Júnior | Editora(s): Companhia das Letrinhas

Juvenil

  • "Palmares de Zumbi" | Autor(a): Leonardo Chalub | Editora(s): Nemo

Poesia

  • "Solo para vialejo" | Autor(a): Cida Pedrosa | Editora(s): Cepe Editora

Romance de Entretenimento

  • "Uma mulher no escuro" | Autor(a): Raphael Montes | Editora(s): Companhia das Letras

Ensaios

Artes

  • "AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar" | Autor(a): Gabriel Zacarias, Galciani Neves, Izabela Pucu, Alexandre Pedro de Medeiros, Caroline Schroeder, Carolina de Angelis, Luise Malmaceda, Theo Monteiro, Pedro Borges, Paulo Cesar Gomes, Paulo Miyada e Priscyla Gomes | Editora(s): Instituto Tomie Ohtake

Biografia, Documentário e Reportagem

  • "Escravidão: do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares: Volume 1" | Autor(a): Laurentino Gomes | Editora(s): Globo Livros

Ciências

  • "Futuro presente: o mundo movido à tecnologia" | Autor(a): Guy Perelmuter | Editora(s): Companhia Editora Nacional

Ciências Humanas

  • "Pequeno manual antirracista" | Autor(a): Djamila Ribeiro | Editora(s): Companhia das Letras

Ciências Sociais

  • "130 anos: Em busca da República" | Autor(a): Edmar Bacha, José Murilo de Carvalho, Joaquim Falcão, Marcelo Trindade, Simon Schwartzman e Pedro Malan | Editora(s): Intrínseca

Economia Criativa

  • "Ecochefs: parceiros do agricultor" | Autor(a): Instituto Maniva | Editora(s): Senac Rio

Livro

Capa

  • "Penitentes - Dos ritos de sangue à fascinação do fim do mundo" | Capista: Luisa Malzoni, Isabel Santana Terron e Beatriz Matuck | Editora(s): Tempo d'Imagem

Ilustração

  • "Cadê o livro que estava aqui?" | Ilustrador(a): Jana Glatt Rozenbaum | Editora(s): FTD Educação

Projeto Gráfico

  • "Arquiteturas contemporâneas no Paraguai" | Responsável: Maria Cau Levy, Christian Salmeron, Ana David e André Stefanini | Editora(s): Escola da Cidade e Romano Guerra Editora

Tradução

  • "Bertolt Brecht: Poesia" | Tradutor(a): André Vallias | Editora(s): Perspectiva

Inovação

Fomento à Leitura

  • FLUP - Festa Literária das Periferias | Responsável: Julio Ludemir

Livro Brasileiro Publicado no Exterior

  • "Lorde" | Editora(s): Grupo Editorial Record, Two Lines Press