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Papo Preto #01: Mães acumulam a função de construir paternidade do homem

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

12/09/2020 04h00

O acúmulo de funções que sobrecarregam a mulher sob o guarda-chuva da maternidade pode ir bem além da já impossível tripla jornada. No primeiro episódio do podcast Papo Preto, duas mães solo conversam com Nat Simões e Yago Rodrigues, da agência Alma Preta, sobre suas vivências. Com jornadas diferentes, as duas relataram muitas nuances em comum, em especial a sobrecarga física, mental e financeira, que se estende em situações do dia a dia a todo momento. Você pode ouvir o primeiro episódio no arquivo acima.

A arquiteta e urbanista Tainá de Paula era casada havia dez anos quando sua filha nasceu, mas o casamento acabou praticamente imediatamente. "Me vi assumindo toda a sobrecarga mental de ter uma uma criança pequena nesse novo contexto de vida, de maternidade, de mulher profissional", conta (a partir de 8:48 no arquivo acima). "Me vi uma mãe com uma cria tendo que obrigatoriamente ensinar também um pai a se posicionar. Porque tem uma coisa da maternidade ser obrigatória, (...) mas não tem essa essa obrigatoriedade do pai, né?

Os pais podem ser pais ou não". Para ela, isso significou buscar ativamente a presença do pai de seus filhos, trabalhando para que eles criassem um vínculo e, enquanto se tornava mãe, ajudá-lo a tornar-se pai. "As mulheres, de modo geral, têm que construir a sua maternidade e, não raro, no meu caso foi isso, a própria paternidade. Uma coisa de caçar, né?"

Tainá lembra que esse desafio, embora agravado no caso de mães solo, não é exclusividade desse arranjo familiar. Ela fala (a partir de 29:00 no arquivo acima) como "não é raro, no Brasil, nós termos relações e lares que têm a figura do pai e da mãe presentes. Mas, diariamente, apenas a mãe participa da vida cotidiana dessa criança, só a mãe participa do cuidado de fato dessa criança". Uma das saídas, para ela, é construir maternidades positivas na sociedade, difundindo a ideia da paternidade ativa, inclusive colocando a maternidade no centro de políticas públicas.

Muita gente usa, e muita gente condena, o termo "pãe" - uma fusão das palavras pai e mãe para designar as mulheres que são as únicas cuidadoras de seus filhos. Para os críticos, esse uso encobriria a ausência do pai e suas ramificações. Para os adeptos, é uma forma de reforçar o papel duplo que a mãe assume. Ana Muza Cipriano, jornalista e mãe solo de dois pré-adolescentes, diz que, em sua vivência, ela assume, sim, o papel do pai. "Discordo dos que dizem que não exercemos papel de pai. Nós não exercemos um papel de homem, no sentido de instruir um filho masculino no sentido do que ele vai fazer ou deixar de fazer", diz ela (a partir de 27:30 no arquivo acima). Ana lembra, por exemplo, a dificuldade de se instrumentalizar para falar com seu filho de 12 anos sobre as mudanças do corpo que ela não viveu. "Mas a gente exerce sim o papel de mãe e pai".

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