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Plantas em casa acalmam, aproximam da natureza e espantam o tédio

O ator Orlando Caldeira tem enchido a casa de plantas - Arquivo pessoal
O ator Orlando Caldeira tem enchido a casa de plantas Imagem: Arquivo pessoal

Fernanda Ezabella

Colaboração para Ecoa, de Los Angeles

11/07/2020 04h00

Sem poder sair de casa desde o início da quarentena, muita gente tem descoberto uma nova forma de conexão com a natureza sem furar o isolamento: encher a casa de plantas. Tendência de decoração entre jovens descolados nos últimos anos, as samambaias se intensificaram como sinônimo de bem-estar e combate ao tédio e solidão.

"Meu marido assumiu os cuidados das samambaias e se vangloria que estão cada dia maiores", conta a artista têxtil carioca Estela de Andrade, 30, que coleciona plantas faz três anos e trouxe duas samambaias para casa durante a quarentena, além de outras dez novas plantas.

"Ele começou a acordar e tomar um sol na varanda de manhã. Aí começou a molhar as samambaias enquanto fazia isso. Virou hábito."

A artista têxtil carioca Estela de Andrade agua uma de suas plantas - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A artista têxtil carioca Estela de Andrade agua uma de suas plantas
Imagem: Arquivo pessoal

Para Estela, cuidar de plantas é como uma meditação ativa. "O prazer vem de ser uma atividade tranquila e que exige presença total", explica. "Quando você está com a mão na terra, tem que ter foco naquilo. É um exercício de atenção plena."

No confinamento, Estela está experimentando com uma horta de legumes e passou a observar mais suas plantas. Testou novos lugares para ver se gostavam de mais sol ou mais sombra e aprendeu sobre adubos.

"Observar é fundamental. Em isolamento, acabei criando uma relação mais íntima com elas, entendendo melhor o que gostam", disse. "Consegui até salvar dois vasos de bougainville."

Eduardo Butter e uma de suas plantas, companhia na quarenta - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Eduardo Butter e uma de suas plantas, companhia na quarenta
Imagem: Arquivo pessoal

A artista ajudou o amigo Eduardo Butter a comprar suas primeiras plantas, um pouco antes do início da pandemia. Agora fechado em casa, ele diz que elas ajudam a passar o tempo. "Traz um pouco de vida ao ambiente e um certo carinho na falta de proximidade humana", diz Eduardo, jornalista de 29 anos.

Ele tem 19 vasos em casa, a maioria suculentas que não necessitam de muita atenção e também uma samambaia, que está dando um certo trabalho. "Ela é dureza, fica muito seca às vezes. Fortaleceu meus dotes de faxina porque não para de cair folha", disse. "Estou descobrindo o que é cada uma, vendo como cuida. Tem sido por erro e acerto."

Conversando com plantas

A enfermeira Marina Adame sempre foi de abraçar árvores nas longas caminhadas que fazia pelas trilhas dos parques de Los Angeles. Agora, sem poder sair de casa há quase quatro meses, encontrou uma alternativa escondida bem debaixo do seu nariz: o quintal repleto de plantas em sua casa, das quais sua mãe cuidou a vida toda.

"Virei uma nerd das plantas", disse Marina, 40, que deu para propagar suculentas, ainda sem muito sucesso, e catalogar as plantas da mãe, que está doente. "É um ótimo exercício de conexão ir ao quintal todos os dias e sentir as plantas, cheirar as flores e as ervas, ouvir os passarinhos, ver as borboletas. Traz uma paz mental."

Marina Gomez, mãe de Marina Adame, no jardim de sua casa em Los Angeles - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Marina Gomez, mãe de Marina Adame, no jardim de sua casa em Los Angeles
Imagem: Arquivo pessoal

Marina também "conversa" com suas aloe veras, pergunta se querem água e capricha nos elogios. A planta mais nova da família é uma lavanda que ela cortou de um arbusto na saída do veterinário, quando teve que levar sua cachorra recentemente.

"Ser mãe de planta é um pouco mais difícil. Antes, eu dizia que elas ficavam melhor longe de mim. Elas são muito diferentes entre si", diz. "É preciso atingir um balanço mágico entre cuidar e não exagerar. Eu molhava demais, matei algumas."

Marina também tem uma goiabeira e uma árvore murta de crepe na porta de casa, que sempre fica repleta de flores rosas na primavera. Ela diz que, pela primeira vez na vida, parou para apreciar seu afloramento ao registrar em fotos para seu Instagram.

"Sinto que nossas vidas deram uma pausa e estamos percebendo a vida ao nosso redor. É algo meio existencial. Mesmo sendo uma plantinha, é um ser vivo. Há vida em todo lugar", disse.

Remédio ao egocentrismo

O ator carioca Orlando Caldeira entrou na onda das plantas justamente pelas samambaias, alguns anos atrás. Hoje, tem cinco em sua casa em Copacabana. "Comecei com samambaia e não parei mais. Tem uma memória afetiva de avó e casa de mãe", disse Orlando, 35.

"Para minha avó, todas as plantas serviam para alguma coisa. Lembro que sua casa tinha um cheiro que só depois fui entender. Eram cheiros de temperos, de tomilho, alecrim", lembra.

No último mês, Orlando comprou mais meia dúzia de plantas pela internet, incluindo sua favorita do momento, uma ravenala. O tempo livre serviu para replantar quem precisava de vasos maiores e dar mais atenção nas regas, que às vezes ele esquecia na correria do dia-a-dia.

"Foi muito importante voltar a olhar para elas. Muita planta dobrou de tamanho na quarentena porque eu olho para elas com outro tempo agora", disse Orlando, que tem dois cachorros, incluindo um filhote de boxer que adotou na quarentena.

"As plantas não interagem, não respondem ao meu humor, mas elas se comunicam, como o lírio. Você sabe quando um lírio está com sede, ele fica murcho", explicou. "As plantas nos deixam menos egocêntricos, nos fazem entender que não somos o centro do universo e que existem vários universos."

Orlando pensa na sua ravenala, que lembra uma bananeira e já está com mais de 1,60 metro. Recentemente, surgiu uma folhagem nova. "Imagina o que está acontecendo dentro dela! É um ser complexo."

Ecoa