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Desigualdade

Racismo no Brasil: 'Se você está cômodo na estrutura, precisa se incomodar'

De Ecoa, em São Paulo*

02/06/2020 14h05

O UOL Debate de hoje entrou na discussão do racismo, que virou um dos grandes assuntos no Brasil e nos Estados Unidos, com as mortes de João Pedro e George Floyd, ambos em ações truculentas da polícia. Para os especialistas ouvidos no papo, o que se vê hoje é uma estrutura cômoda para certa parte da população, que precisa tomar ações incômodas para tentar encerrar o ciclo de violência contra os negros.

O debate foi mediado por MM Izidoro, colunista de Ecoa, com participação de Stephanie Ribeiro, escritora e arquiteta; Tainá de Paula, arquiteta, urbanista e ativistas de lutas urbanas e Thiago Amparo, advogado e professor da Fundação Getúlio Vargas. Eles também abordaram o cenário de covid-19 no país, que mata mais pessoas de classes sociais pobres.

Para Tainá, o Brasil precisa tomar o exemplo dos Estados Unidos. Ela citou que, por lá, os negros representam 12% da população. O detalhe é que, quando esta parcela se levanta, consegue influir politicamente. No Brasil, com mais da metade da população negra, isso ainda não acontece.

Tainá - UOL - UOL
Imagem: UOL

"O Brasil está em perfeita sintonia com o fascismo, com as tensões raciais em que Trump e Bolsonaro operam. Eles se comunicam. Eles entram em diálogo na pandemia", analisou ela.

"George Floyd não é uma aberração na lógica da falsa democracia racial dos EUA, ele é mais um corpo, João Pedro também é mais um corpo desse estado necropolítico da negação de direitos de negros e negras. Com um diferencial importante, a população negra dos EUA está em 12% e a população negra brasileira está em 54%. Eu acho que a gente precisa beber nos EUA, nossa estruturação em quanto movimento negro. Está colocado que precisamos construir uma agenda racializada nacional, como a coalizão negra por direitos. Como a gente vai construir uma agenda negra brasileira depois do que vai acontecer no domingo de forma organizada", acrescentou ela.

O mediador MM Iziodoro relembrou que realizou entrevistas em que percebeu como pessoas muitas vezes se demoraram a se entender como negras.

"As pessoas atuam de uma forma de não entender a importância de nomear a violência. Tanto que a gente acha que é mais importante lutar pela paz e ignorar que a gente não vai chegar na paz se a gente não conseguir nomear a violência. Porque esse é um dos primeiros passos, a gente não banalizar. Uma das questões do racismo é que ele é tratado de forma banalizada a ponto de a gente conviver com práticas racistas e achar que aquilo é normal", afirmou Stephanie.

"Por exemplo, as novelas brasileiras são uma serie de reprodução de falas e atitudes racistas que são levadas para a maioria da população. E a maioria das novelas brasileiras sequer tem pessoas negras tratadas de forma noramal. E a gente fala da novela, as pessoas acham que é bobagem, e não é. Muito brasileiros são educados com novelas. Não existe paz se a gente naturalizar a violência. Se não a gente vai chegar uma coisa romântica, que a gente finge que está bom. Estamos vendo pessoas negras sendo mortas, enquanto a gente vê uma marcha com apologia ao nazismo", criticou ela, sobre o grupo de Brasília que apoia o presidente Jair Bolsonaro.

É o que muitas pessoas fazem, fingem que está tudo bem e elas não querem ser importunadas com que não está muito bem. E o incômodo é importante, porque não existem mudanças de sociedade se não houver incômodo. Se você está comodo nessa estrutura, você precisa se incomodar"
Stephanie Ribeiro

Thiago afirmou que é preciso que figuras públicas tomem posicionamento neste debate. "Muitas vezes no Brasil é confundido que tomar posicionamento numa situação como essa é tomar um partido politico. Que você vai ofender seus fãs ou algo do tipo. Todas as pessoas públicas já têm privilegio e um lugar de conforto, porque podem usar essa plataforma e a gente não pode ver o combate ao racismo de um grupo em relação a outro ou de um partido. É o mínimo de civilização a gente ter uma sociedade que as pessoas sejam iguais, que uma pessoa não receba 72 tiros como o João Pedro. Falar que isso não dever ser naturalizado tem que ser para qualquer pessoa. Celebridades, jogadores de futebol, artistas, isso transcende o aspecto de votei em X ou Y."

João PEdro - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Cinismo velado e o black money

Tainá falou sobre o cinismo velado que marca o racismo no Brasil.

"A minha raiva maior do racismo à brasileira é o cinismo velado das nossas relações raciais. O negro norte-americano teve a oportunidade de construir renda, estoque fundiário e estoque de riqueza, falando do black money real. A gente fala aqui de black money numa tentativa de colocar nossa economia de sobrevivência no mesmo patamar do black money nos EUA. Mas há um hiato enorme, porque nos EUA houve reparação econômica no pós-abolição", explicou ela.

"No Brasil, os direitos fundamentais do negro foram subjetivamente inseridos apenas em 1988. Não existe a palavra negro na Constituição. A gente demorou um século para ter direitos universais e mesmo assim os direitos não falam de nós", acrescentou.

A questão que está dada é: o negro brasileiro discute ainda em 2020 a sua humanização. Nós não somos sequer considerados humanos. Ainda somos tratados como corpos descartáveis"
Tainá de Paula

Ainda sobre representatividade, Stephanie pontuou que é preciso ver mais negros em cargos de chefia de empresas.

"Não adianta fazer post de 'black lives matter' se você não tem pelo menos 50% de pessoas negras na sua estrutura, que não sejam em cargos de subordinação, que sejam em cargos de decisão. A gente não tem isso no Brasil, de ver algo que tenha 70 ou 80% de pessoas negras. A gente ainda importa essas narrativas e isso é muito importante para a gente falar sobre representação e sobre identificação. Não é todo mundo que vem de uma família que tem consciência racial", explicou a escritora e urbanista.

"Você se identifica como negro também a partir do coletivo e isso não acontece no Brasil. (...) Ninguém quer ser negro neste país", acrescentou ela, sobre as dificuldades de representação e identificação entre as pessoas negras.

Thiago Amparo - UOL - UOL
Imagem: UOL

Privilégio branco

Thiago apontou que é preciso desmistificar a ideia de que racismo é um problema dos negros e afirmou que "não existe racismo se não existir privilégio branco. Temos que desconstruir a ideia de que racismo é um problema dos brancos. Primeiro temos de reconhecer que o racismo existe, [o branco precisa] reconhecer que vai reproduzir isso, reconhecer o que pode fazer em seu lugar de privilégio para levar em consideração a questão racial. Muitas vezes, eu sinto que é uma estratégia de silenciamento de pessoas negras, uma ideia de domesticação".

"Racismo não é problema de negros", acrescentou ele. "É uma relação que todos nós fazemos parte. (...) A gente quer o fim do patriarcado, do racismo e outras estruturas sociais. Que isso queime e que a gente construa tudo melhor, um futuro melhor juntos."

Tainá espera, também, um aquecimento da questão racial nas próximas semanas. "A gente vai se encontrar mais vezes porque a tensão racial no Brasil vai reverberar nas próximas semanas, se alinhando com a mobilização antifascista contra o Bolsonaro. É preciso que a gente construa um pacto civilizatório antirrascista com atores negros. Eu queria fechar pensando muito na frase da Tamika [Mallory], perguntando onde estão os nossos negros, os negros que a gente elegeu. Quem serão os protagonistas negros desse levante que a gente está construindo? É fundamental um levante afrolatino indígena brasileiro."

*Participaram desta cobertura Beatriz Sanz e Maurício Dehò (redação) e Caroline Monteiro e Diego Henrique de Carvalho (produção).

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