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Após sofrer racismo, garoto fã de livros ganha apoio de 700 mil seguidores

Adriel criou uma página para compartilhar os livros favoritos - Arquivo Pessoal
Adriel criou uma página para compartilhar os livros favoritos Imagem: Arquivo Pessoal

Marcos Candido

De Ecoa, em São Paulo

02/06/2020 04h00

O sonho de Adriel Oliveira, 12, é um dia escrever um livro de fantasia. Na história estarão super-heróis, seres mágicos. Afinal, são os enredos fantásticos que gosta de ler em seu quarto, onde há uma estante com alguns de seus título favoritos. O gosto pelas aventuras é tão grande que o incentivou a criar a "Livros do Drii", uma página no Instagram com resenhas e dicas do livro. "Cada livro que leio, dá uma sensação diferente. Mas sinto alegria ao ler", diz.

Na quarta (27), porém, Adriel precisou enfrentar uma realidade nada mágica. Uma mensagem racista foi enviada contra a página onde compartilha seus livros. "Eu achava que preto era pra tá cavando mina, não lendo. Você foi criado para ser pobre e preto", escreveu um perfil anônimo.

O garoto publicou a ofensa nos Stories do Instagram antes de apagá-la. Triste, abrigou-se no consolo da mãe Daise Oliveira, 32, e ouviu dela para ser forte e não partir para a briga. Assim que retomou ao celular, a história se espalhou.

No mesmo dia, ganhou 60 mil seguidores. No sábado, comemorou a marca dos 500 mil. Nesta segunda (01), já são 750 mil seguidores no Instagram. Uma rede de solidariedade se formou para enviar livros ao estudante.

Winnie Bueno, criadora de um projeto de doação de livros, a Winnieteca, denunciou e repercutiu o caso. "Ele é uma criança. Uma criança sendo atacada de forma vil, desumana e cruel", escreveu nas redes sociais. Atores globais e artistas como Preta Gil, dezenas de editoras e fãs escreveram em solidariedade ou até lhe enviaram livros.

"Recebi milhares de mensagens de carinho", diz Adriel para Ecoa. "Um dos presentes que mais gostei foi um box do 'Harry Potter'. Nunca li, só tinha visto os filmes."

Aos cinco anos, Adriel aprendeu a ler para concorrer a uma bolsa em um colégio particular em Salvador. A instituição, porém, parou de oferecer ajuda filantrópica.

O garoto disputou em outra escola particular e passou. Mas mesmo com o incentivo, Daise estava desempregada e não tinha dinheiro para financiar o material escolar. Hoje ele cursa o sexto ano do ensino fundamental em uma escola estadual da capital baiana. Em quarentena, faz a lição de casa, mas precisa tomar umas broncas para responder às atividades

Os livros eram dados por uma madrinha. Outros eram obtidos de graça, em um posto de troca de livros instalado na cidade. O primeiro lido foi "João e Pé de Feijão". No momento, Adriel está lendo "Pollyanna", livro infantojuvenil da década de 10 da escritora Eleanor H. Porter. Não consegue, ainda, ler "Coraline", escrita por Neil Gaiman. "Eu fiquei com medo", confessa.

Às vezes, ele traz palavras então desconhecidas pela mãe, como o que é uma "resenha literária". Outras vezes, é a mãe quem ensina.

Nesta segunda (1), os dois foram juntos registrar um boletim de ocorrência por injúria racial.

"Expliquei a ele que o preconceito, infelizmente, acontece no mundo. Como mãe, tenho em meu coração que isso nunca deveria existir. Deus criou o ser humano sem distinção de cor. Criou a gente igual", diz a mãe.

"Toda essa 'resenha literária', que ele me explicou que é um resumo dos livros, ele posta. Ele mostra o mundinho dele no Instagram. Para muita gente pode ser nada, mas para a gente é tudo", diz. "Apesar disso que aconteceu, em troca meu filho recebeu o que mais gosta: amor e livro", conclui.

Conheça a página do Adriel: instagram.com/livrosdodrii

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