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Relatos de transplantados: por que enterrar órgãos se dá para salvar vidas?

Rodrigo Machado passou por um transplante de medula óssea em 2013 com doação da irmã, Renata - Arquivo pessoal
Rodrigo Machado passou por um transplante de medula óssea em 2013 com doação da irmã, Renata Imagem: Arquivo pessoal

Keyty Medeiros

de Ecoa, em São Paulo (SP)

26/11/2019 04h00

"Compartilho meu corpo com aqueles que necessitam de uma nova oportunidade de viver." O texto é parte da carta escrita em primeira pessoa pela família de Gugu Liberato, que morreu na última sexta-feira (22) após um acidente doméstico na Flórida, para reproduzir um desejo do apresentador: a doação de órgãos. A carta foi lida na madrugada de sábado (23) para domingo (24) antes da cirurgia de retirada, que durou seis horas.

A ação da família de Gugu mostra como um gesto como esse pode impactar dezenas de vidas: 50 pessoas que estavam na fila de transplante nos EUA foram beneficiadas.

Quem recebe órgãos doados ganha uma nova oportunidade de viver, como cita a carta referente a Gugu. Foi o caso da brasileira Rafaela da Silva Santos, que, em 2013, passou por um transplante de rim após uma longa espera. "Por que você vai enterrar tantos órgãos bons se pode salvar tantas vidas?", questiona.

Conheça a seguir a história de Rafaela e de outras pessoas que tiveram a vida transformada pela doação de órgãos, inclusive a partir de iniciativas em vida.

Rafaela da Silva Santos - Arquivo pessoal
Rafaela da Silva Santos
Imagem: Arquivo pessoal
Rafaela da Silva Santos, 28 anos

Durante a adolescência, Rafaela da Silva Santos reparou em alguns inchaços recorrentes e inexplicáveis que apareciam em seu corpo e procurou um médico. A investigação levou dois anos, até a jovem descobrir ser portadora da glomeruloesclerose segmentar e focal (GESF), uma grave síndrome renal com alta taxa de rejeição a rins transplantados.

Dos 15 aos 22 anos, ela fez hemodiálise no Hospital das Clínicas, em São Paulo, até que, em 2013, foi submetida ao transplante. O corpo de Rafaela não chegou a rejeitar o rim recebido de doador falecido, mas houve complicações posteriores, decorrentes do procedimento. "Você pensa que vai fazer o transplante e todos os problemas vão se resolver depois, mas não é assim. A minha imunidade é muito baixa, eu tive problemas no fígado, no útero, quase perdi o olho por causa da pressão alta desenvolvida pela doença... Até hoje tenho que controlar a pressão com medicamento para não correr o risco de perder o olho", comenta.

O transplante renal é o procedimento mais comum no Brasil e pode acontecer com a doação de órgãos tanto por pessoas vivas quanto por falecidas. De janeiro de 2009 a junho de 2019, foram realizados 56.446 transplantes de rim no país, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).

"A doação mexe muito com a cabeça da gente, porque quem vai doar tem medo do que pode acontecer e quem vai receber também", comenta Rafaela. Enquanto aguardava na fila do SUS por um transplante renal, a jovem chegou a procurar doadores entre seus parentes, mas a ideia não foi bem recebida. "As pessoas são muito fechadas ainda. Cheguei a ouvir de parentes meus que eles morreriam com os órgãos bons, mas não doariam para mim e nem para ninguém", recorda.

"Eu sei que doar um rim para um desconhecido enquanto se está vivo pode ser desconfortável. Mas, depois da morte, por que você vai enterrar tantos órgãos bons se pode salvar tantas vidas?", questiona Rafaela.

Ela conta que, apesar das dificuldades com o transplante, a vida mudou para melhor. "A hemodiálise é uma coisa muito sofrida. Hoje eu só dependo dos remédios. Não dependo mais de máquinas, então posso ir para qualquer lugar e tudo mais."

Rodrigo Cristiano Machado - Arquivo pessoal
Rodrigo Cristiano Machado
Imagem: Arquivo pessoal
Rodrigo Cristiano Machado, 47 anos

O bancário Rodrigo Cristiano Machado passou por um transplante de medula óssea em 2013, após receber o diagnóstico de leucemia. Como a irmã, Renata, era 100% compatível, pôde doar a ele suas células-tronco.

O transplante possibilitou que Rodrigo, que sempre foi atleta, vencesse a leucemia e voltasse a correr e a nadar, suas grandes paixões, mas, em 2017, descobriu um novo câncer, uma espécie de sarcoma derivado da leucemia.

"O esporte sempre esteve comigo durante o tratamento. Eu já corria maratonas e, depois da leucemia, tive que fazer recuperação muscular. Mesmo depois, dentro do hospital durante o tratamento do sarcoma, fazia alguns exercícios na fisioterapia", conta. Depois de sair do hospital pela segunda vez, Rodrigo descobriu os Jogos Mundiais para Transplantados e, após receber autorização da médica que acompanhava o tratamento, foi competir na natação.

"Hoje o esporte tem uma outra cara para mim, porque não estou apenas fazendo um exercício, estou treinando para uma competição só com transplantados", comenta. Rodrigo já ganhou 10 medalhas nos Jogos Mundiais para Transplantados e acaba de voltar da primeira edição dos Jogos Brasileiros para Transplantados, que aconteceu em Curitiba no último final de semana, onde ganhou cinco medalhas de ouro.

Rodrigo recorda que já era cadastrado como doador de medula óssea quando descobriu a leucemia. "Por ironia do destino, fui em quem precisou de uma doação", comenta. "Um doador de medula óssea ou de rim pode doar vida em vida. E isso é muito bonito e importante. Você pode ver outra pessoa, que estava correndo um grande risco, ter uma outra oportunidade de vida através de um gesto de amor."

Iago Hairon - Arquivo pessoal
Iago Hairon
Imagem: Arquivo pessoal
Iago Hairon, 26 anos

O coordenador social Iago Hairon sofre de insuficiência renal crônica e, em 2015, foi submetido a um transplante. No entanto, o rim que ele recebeu sofreu uma trombose e não estava sendo irrigado pelas veias sanguíneas. Com isso, Iago perdeu o órgão poucas horas depois do procedimento.

Com isso, o jovem de 26 anos voltou para a fila de 5.563 pessoas que esperam por um transplante renal no Brasil e precisa fazer diálise peritoneal diariamente, mas não perde a esperança de encontrar um novo doador.

"Antes de precisar de um transplante, eu não tinha ideia de como era a vida de um paciente renal crônico. Nem sabia que isso existia. A decisão de doar órgãos é muito pessoal e envolve muitas questões, mas eu acredito que, com políticas públicas eficazes e campanhas, a gente consegue mudar esse quadro no Brasil", diz Iago, que é coordenador geral do Engajamundo, uma organização de liderança jovem que incentiva os jovens brasileiros a se engajarem para enfrentar os problemas sociais e ambientais do país.

"Para aqueles que ainda não pensaram em doar, eu diria para tentar se colocar no lugar do outro que está precisando, porque qualquer pessoa pode estar nesse lugar um dia e, assim, o ciclo continua."

Versão de quem doa em vida

Júlio César Pinheiro, 38, descobriu por acaso que poderia doar um rim para a prima, há sete anos.

Em 2012, após ter acompanhado nove anos de hemodiálise de Lilian Pinheiro, o empresário viu que a prima já não tinha mais veias ou acessos disponíveis no corpo para continuar o tratamento e, portanto, precisava de um rim urgentemente. Em pouco tempo, seria um caso de vida ou morte.

Após ir até um hemocentro doar sangue para uma conhecida, ele foi informado de que seu tipo sanguíneo, O negativo, é uma espécie de doador universal. E, após conversar com a tia, descobriu que tinha o mesmo tipo sanguíneo de Lilian e que era justamente a falta de compatibilidade sanguínea que estava dificultando a procura por um doador.

"Naquele dia, quando percebi que poderia ser doador, falei com minha tia e ela disse que esse tipo de coisa não se pede, se oferece. E, então, eu ofereci", recorda.

A decisão de Júlio de doar um rim para a prima foi contestada por parentes e amigos, e, mesmo durante as entrevistas com a psicóloga para acompanhar a decisão, ele teve sua disposição testada. Algumas pessoas ainda disseram que a prima deveria passar por aquilo, ou que era resultado da vida que levava e que, por isso, ninguém poderia ajudar.

Júlio não desistiu, mas os números mostram que a desistência é muito comum, até porque o doador precisa estar plenamente seguro da decisão. Entre janeiro e junho deste ano, 5.458 potenciais doadores foram notificados para fazer uma doação em vida, mas, durante a fase de entrevista, com 3.149 pessoas, 41% dos candidatos se recusaram a doar, de acordo com o relatório da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), e apenas 27% dos transplantes se concretizaram.

"Eu não me sinto especial por isso, eu fiz o que precisava fazer", comenta Júlio.

Sete anos depois da doação, ele leva uma vida saudável, sem restrições e sem necessidade de nenhum medicamento. E Lilian se mantém com a saúde em dia, fazendo todos os tratamentos de manutenção e rotina de um transplantado.

Fila por órgãos no Brasil

Atualmente, 35.519 pessoas estão aguardando a doação de um órgão no país. Além delas, outras 668 crianças também esperam por uma segunda chance de vida. O relatório trimestral da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) revela ainda que, dos 4.355 órgãos que foram doados de janeiro a junho deste ano, 3.756 foram resultado da doação de pessoas que morreram, o que só é feito com autorização familiar.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado inicialmente, as pessoas retratadas na foto de abertura são Rodrigo Machado e a irmã Renata Machado, e não Júlio César Pinheiro e a prima Lilian Pinheiro. A informação foi corrigida.

Ecoa