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Tony Marlon

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que fazemos diariamente é política

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Imagem: iStock

Tony Marlon

31/08/2021 06h00

O conceito de imaginação política aprendi com o Instituto Update, de São Paulo. Nos últimos anos, ele é um dos lugares que tem estudado sobre inovação e o fazer político na América Latina. A busca é por pontos de luz.

Importante aqui não resumir política a partidos. Política é o ato de negociar os caminhos, as ideias. De construir entendimentos entre duas pessoas ou mais, um sul comum. O que todas e todos nós fazemos diariamente, o tempo todo: negociar a vida. Assim, toda existência é política, mesmo que ela não ocupe cargos ou partidos.

Entre tantas coisas, o Update mostra em suas publicações que nós deste canto aqui do mundo, vira e mexe estamos em busca de alguém que nos salve. Inclusive de nós mesmas. Essa ideia está mais bem desenvolvida no Emergência Política América Latina.

Algo assim: uma voz, em geral a de um homem, e isso explica muito a nossa sociedade, que concentra em si uma série de qualidades, atributos, características que nos levariam a entregar nas mãos dele toda a responsabilidade em nos levar à Terra Prometida, como diz o Pastor King. Um Messias. E é aí que começam os problemas, já que uma pessoa assim não existe. Isso é apenas um discurso, que mais cedo ou mais tarde cai. Mas só para quem quer entender.

As lideranças que respeito, que brilham meus olhos, e que tem mais pistas do futuro em que eu gostaria de estar ali na frente, por exemplo, são hoje sujeitos coletivos. Estão distantes do personalismo que a nossa vida pública virou nos últimos anos.

Eles e elas sintetizam uma espécie de projeto comunitário de futuro, mas nunca reivindicam para si o título de embaixadoras deste projeto. Dizem que são, dele, apenas mais uma peça. Se muito, um canal. Confie em quem se conta assim, no plural.

Espalhadas por todos os cantos deste país, neste exato momento, são estes sujeitos coletivos que estão costurando convergências entre os diferentes, sem conciliar com os violentos por intenção. Você não os enxerga na TV, nas revistas. Quase nada nos jornais, nos portais. Mas essas pessoas existem e geram grandes mudanças. Micro revoluções que serão projetos daqui a pouco.

São estes sujeitos coletivos, por exemplo, que trabalharam e trabalham incansavelmente para que quem tem fome, e já somos quase 20 milhões de pessoas nessa condição, possa ter um mínimo com o que se alimentar, só por hoje. No país em que o presidente da república acha que um fuzil é tão importante quanto o feijão.

Eu sei, cansa. Mas acordei pensando em algo que o escritor e ambientalista Kaká Werá me falou tem mais de 12 anos, não esqueço uma palavra sequer: a única coisa permanente na vida é a impermanência. O mundo é assim, cíclico. E tudo isso vai passar. E precisaremos estar inteiras para, então, começar tudo de novo. E eu sei, dolorosamente nem todos estaremos. Eu espero, que do outro lado, saímos com mais uma boa lição aprendida para nunca mais.

O caos é método. E não cansa apenas o corpo, alcança a imaginação também. Trabalhar para que não tenhamos tempo de nos recuperarmos das más notícias entre hoje e amanhã, todo dia uma dor diferente, é uma das formas de desesperançar a imaginação. Desesperançar a imaginação é uma das apostas do autoritarismo para a vitória. A gente não luta pelo que não consegue mais sonhar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL