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Tony Marlon

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Encontrando ECOA nas Olimpíadas 2020

Ítalo Ferreira, campeão olímpico do surfe - Jonne Roriz/COB
Ítalo Ferreira, campeão olímpico do surfe Imagem: Jonne Roriz/COB

Tony Marlon

27/07/2021 15h16

Aos 36 e 36 do segundo tempo de Brasil 5 e China 0, estreia da seleção em Tóquio, Marta se aproximou de ser, ainda mais, a história. Seis vezes melhor jogadora do planeta, maior artilheira de todas as copas do mundo, havia feito dois dos três gols até ali, e ainda tinha um pênalti a ser batido. Geralmente por ela.

Imagine, estrear assim, num evento deste tamanho, sentar-se ao lado de Cristiane como a maior goleadora brasileira em Olímpiadas, mais um entre tantos recordes. Daí quem bateu foi a Andressa Alves, que fez. Bia Zaneratto fechou a conta pouco depois. Ao fim da partida, quando perguntada por qual motivo não cobrou, Marta respondeu assim: "aqui não tem vaidade, tem uma equipe".

Primeiro tem isso que é ECOA: eu existo sempre na relação com o outro, com a outra. E nada do que faço individualmente é fruto apenas de mim, mas de todos e todas nós, da comunidade a que pertenço, que me alimenta, que me encoraja e me empurra para frente. Marta é gigante por muitos motivos, este é só mais um deles.

Aí veio o ouro do Ítalo Ferreira, que desceu da prancha para entrar na história. Não esqueceu de carregar junto a Dona Mariquinha, que fez sua passagem em 2019, poucas semanas antes do neto vencer seu primeiro campeonato mundial. Quando o repórter Guilherme Pereira perguntou o que sentia naquele instante de topo do mundo, Ítalo não resistiu às lágrimas e às lembranças: "Eu queria que a minha avó estivesse viva agora para ver o que eu me tornei. O que consegui fazer pelos meus pais, por aqueles ao meu redor".

É ECOA dizer que somos frutos de outras histórias, de quem veio antes de nós. Não esquecer de sempre contar ao mundo quem nos carregou até onde estamos. Não esquecer de carregar para o futuro outros tantos e tantas iguais a mim, quando estava apenas começando.

É ECOA, também, não negar que as histórias nos atravessam, que nos fazem transbordar para além de nós. Feito fez o Guilherme, e isso também é história de hoje em diante.

É ECOA a celebração do peruano Ângelo Caro na final do street, quando o Kelvin Hoefler alcançou o histórico pódio olímpico com uma prata. Vibrou em cada boa manobra, gritou de felicidade nos acertos intermináveis. Correu para um abraço que deve estar no brasileiro até hoje.

Ângelo não precisou vencer para saber que, naquele momento, todo mundo ganhava junto com o Kelvin. Foi a primeira vez do esporte nos jogos olímpicos, depois de décadas de luta. E a luta é sempre coletiva.

E a leveza e a alegria da filipina Margielyn Didal, que não se cabia de felicidade com a medalha de Rayssa Leal, 13, também no skate? ECOA. E as palmas de agradecimento da comissão técnica de Zâmbia, elas sendo eliminadas, o jogo já beirando o final. Foi ECOA, e nunca é somente sobre futebol.

Quando poloneses e iranianos empatavam por 18 a 18, cada seleção tendo vencido dois sets no vôlei masculino, eu escutei alguém dizendo assim na transmissão: "o Irã está em um estado especial de coragem".

Na hora pensei que ECOA seja, também, sobre isso. Contar histórias de pessoas em um estado especial de coragem, fazendo o que precisa ser feito para chegarmos ali do outro lado, neste futuro que caiba e cuide de todos e todas nós.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL