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Falta ao Estado brasileiro um programa antirracista

Rafaela e Neilton, pais de João Pedro, no programa Encontro com Fátima Bernardes, da Globo - Reprodução/Globoplay
Rafaela e Neilton, pais de João Pedro, no programa Encontro com Fátima Bernardes, da Globo Imagem: Reprodução/Globoplay
Tony Marlon

Formado em jornalismo pela Universidade Santo Amaro ? UNISA, Tony se reconhece antes como educador, feito todo mundo é. A partir do Campo Limpo, periferia da zona sul de São Paulo, trabalha por uma comunicação que mova positivamente corações, discursos, espaços e relações. Acredita que "Dislexicando" é a coisa mais bonita do mundo e quer o primeiro parágrafo de "O Livro dos Títulos" em sua lápide, lá no futuro. Anda falando por aí: "Não fosse o Sarau do Binho, até hoje eu não saberia que poeta é alguém que solta pipa na laje". É autor do podcast https://paisagemsonora.com

22/05/2020 04h00

Em artigo de julho de 2017, em O Globo, o jornalista e cineasta Dodô Azevedo escreveu que o Cais do Valongo é a resposta para tudo neste país, pois foi lá que o Brasil foi gestado. E continuou: o Congresso Nacional, Palácio do Planalto, tudo deveria mudar-se para o entorno do cais.

O Valongo é um lugar no centro do Rio de Janeiro, apontado como o maior porto escravagista da história da humanidade: um milhão de pessoas trazidas de África entre 1811 e 1843. Se entendi bem, Dodô nos convocava a não perder de vista que foi a violência extrema e o racismo que fundaram este país e nos arrastaram até este momento histórico. Mas que temos outras escolhas, como sociedade. Mas é preciso querer de verdade.

Já se passaram três anos desde a publicação do artigo e até hoje não o encontrei por aí pendurado em todas as salas e escritórios de partidos e movimentos progressistas deste país. Isso explica, em parte, o porquê a morte de João Pedro, mais uma criança negra assassinada pelo próprio Estado brasileiro, provoca, quando muito, notas de repúdio, mas nenhum sinal de convulsão social.

Ou, pior: o país que tem um jovem negro morto a cada 23 minutos, segundo o Mapa da Violência, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), é o mesmo que tem um campo progressista partidário que, em grande parte, nunca colocou a luta antirracista no coração do seu projeto político.

Mas que depois gasta milhões em pesquisa para entender por que perdeu tantos votos nos últimos anos. Vai entender.

O problema dessa conta é que enquanto um lado perde dinheiro, o outro perde a vida. Enquanto um lado empilha dor em cima de dor, luto em cima de luta, o outro não dedica meia página de um plano de governo com título assim: Pacto Nacional de Desmonte da Prática Racista no Estado Brasileiro.

Como todos os grupos políticos que se reivindicam vozes de grupos minorizados não conseguem ter mais da metade da população brasileira (56,1%) como prioridade em um plano de governo, eu realmente não sei.

Rafaela e Neilton Matos, mãe e pai de João Pedro, aparecem nas fotos do enterro expressando uma dor que não consigo imaginar o tamanho. Fizeram o que o mundo recomenda diariamente, ficaram em casa, convenceram o filho a ficar dentro de casa, e mesmo assim a morte os alcançou.

De um jeito ou de todos, as pessoas de sempre continuam morrendo, todos os dias. E as outras pessoas de sempre continuam dizendo que sabem como parar tudo isso, todos os dias.

Talvez quem nos trouxe até aqui não faça a mais vaga ideia de para onde irmos agora, e faz de conta que ainda sabe. Talvez precisemos de novas pessoas para ancorar nossos sonhos de um futuro que caiba todo mundo, e seremos nós mesmas a ser quem esperávamos. Talvez uma dessas pessoas fosse o João Pedro, mas não deu tempo. De novo, não deu tempo.

Ou a sociedade passa a cobrar todo o campo progressista que a luta antirracista seja o eixo fundador de qualquer programa de ontem em diante. Ou é melhor guardarmos nosso voto no bolso e esperar alguém com coragem suficiente para trabalhar pelo óbvio: estar vivo é um direito de todo mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.