PUBLICIDADE
Topo

Sandra Caselato

Visitando o lado escuro da lua: como você tem vivido seu mundo subjetivo?

Sandra Caselato

Sandra Caselato, formada em artes plásticas e psicologia, é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas. Está sempre em busca de experiências que contribuam com a transformação pessoal e de outras pessoas. Especialista em Comunicação Não-Violenta, atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos.

15/09/2020 04h00

Às vezes minha bisavó acordava confusa no meio da noite, sem saber bem onde estava. Parecia desorientada sobre o local e os fatos que a cercavam. Em geral ela estava vivendo internamente uma história ou situação que gerava ansiedade. Uma vez era o café que ela precisava torrar, mas por algum motivo não conseguia completar o serviço e tinha medo da bronca que levaria de sua tia. Outra vez havia alguém dentro do banheiro, que não a deixava entrar. Numa outra noite havia um índio sentado em sua cama que a impedia de deitar e dormir.

Nessas ocasiões me lembro de acordar ouvindo a voz da minha mãe tentando acalmá-la, dizendo que essas coisas eram apenas imaginação e que não eram reais. A Bisa olhava desconfiada e contestava, reforçando suas histórias. "Olha o índio sentado lá", dizia apontando para a cama.

Das vezes em que presenciei essas situações, vendo a angústia das duas, intuitivamente eu procurava "entrar" na fantasia e interagir com as figuras, na tentativa de apoiar: "O índio está dizendo que está tudo bem, ele só veio visitar. Agora ele está agradecendo e já está indo embora para você poder deitar".

Nessas ocasiões em que a realidade que ela estava vivenciando não era negada, um novo desenrolar do "sonho" acontecia, ela parecia se acalmar e se sentir mais tranquila, até finalmente ir para a cama e dormir. Respeitar a experiência dela, mesmo que para mim não fizesse sentido, parecia funcionar melhor do que desconsiderar o que ela estava vivendo subjetivamente.

Isso que eu fazia de maneira rudimentar e intuitiva, fui aprender e aperfeiçoar anos mais tarde estudando e atuando como psicóloga. Já em meu trabalho de conclusão de faculdade, escrevi sobre as imagens mentais ou psíquicas (também chamadas de imaginação ativa, fantasia, sonho acordado etc), que são bastante utilizadas como recurso terapêutico em diversas linhas de Psicologia. Com a experiência que tenho hoje, eu teria mais recursos para acompanhar minha bisavó em seus processos internos e apoiá-la a vivenciá-los e elaborá-los, mas a essência desse conhecimento eu já havia descoberto: a realidade interna e subjetiva é tão importante quanto a realidade externa e objetiva.

Esse mundo interno de "fantasia", bastante presente em nossas vidas quando crianças, tende a desaparecer ou ficar em segundo plano quando crescemos, para depois retornar com mais força conforme envelhecemos e vamos nos desconectando do mundo externo, voltando a viver mais intensamente as fantasias e memórias de nosso mundo interior.

O pensamento ocidental de que a realidade externa e objetiva é mais importante ou mais real do que nossa subjetividade é em grande parte responsável por essa desconexão interna que vivemos principalmente durante nossa vida adulta.

Porém, apesar de aprendermos a não dar muita importância a esse mundo de sonhos e fantasia, ele não deixa de estar presente em nosso dia a dia, além da realidade concreta objetiva e consensual a que estamos acostumados. Nosso mundo interno, intuitivo, subconsciente ou inconsciente é parte da nossa vida como um todo e tem informações valiosas a nos passar, que muitas vezes não percebemos ou não damos importância.

Arnold Mindell, fundador da Psicologia Orientada por Processos, diz que, por ignorarmos essa nossa realidade subjetiva dos sonhos, vivemos uma epidemia global não diagnosticada. Pessoas no mundo todo sofrem de uma forma crônica de depressão leve, pois foram ensinadas a focar na realidade objetiva do dia a dia e esquecer a realidade subjetiva, que é igualmente importante. Isso se traduz numa sensação de que algo está faltando mesmo quando aparentemente tudo vai bem, e chegamos até mesmo a acreditar que essa sensação de vazio é parte inerente à vida.

Certos povos aborígenes acreditam que este Mundo dos Sonhos é a substância básica do mundo material e não existe separação entre esses dois mundos, eles são uma coisa só, uma mesma realidade. Sem o Mundo dos Sonhos nada existiria, ele é a energia que está por trás de tudo, é a força vital de todos os seres vivos, o poder das plantas e das árvores, e também dos objetos, das coisas feitas pelos seres humanos, as cidades, as organizações, as instituições, nossa estrutura social e cultural.

Esses povos aborígenes descrevem o Mundo dos Sonhos como o lado escuro da lua. A maioria de nós foca somente na parte iluminada e não vê o lado mais escuro, mas a parte iluminada é apenas um pedaço da totalidade da lua. Se olharmos com atenção, podemos ver o lado escuro cintilando silenciosamente ao lado da parte mais aparente da lua. Como diz Renato Rocha na música "A Lua", ela é sempre Cheia, mesmo quando Nova, Crescente ou Meia.

Focar apenas na parte iluminada da lua pode nos fazer pensar que a parte escura não existe enquanto na verdade precisamos dela para representar a lua inteira.

Da mesma forma, para termos uma vida plena, nos sentirmos inteiros e em conexão conosco mesmos e com o mundo ao nosso redor, precisamos ter consciência de que nossa realidade interna e subjetiva é uma continuidade da realidade externa e objetiva, e uma é tão real e importante quanto a outra.

Convido você a considerar como tem sido o contato com seu mundo de sonhos e fantasias. Você tem vivido sua realidade subjetiva ou tem esquecido que ela é parte importante de sua vida? Como tem sido sua experiência interna? Você costuma visitar o lado mais escuro da lua?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.