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Sandra Caselato

Kairós, Flow e a essência da vida

Sandra Caselato

Sandra Caselato, formada em artes plásticas e psicologia, é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas. Está sempre em busca de experiências que contribuam com a transformação pessoal e de outras pessoas. Especialista em Comunicação Não-Violenta, atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos.

04/08/2020 04h00

Outro dia me deparei com um vídeo na internet de um rapaz falando que quando deixamos de ser crianças e nos tornamos adultos é fácil perdermos a essência do que é viver. Dizia ele que, quando adultos, passamos a acreditar que existe uma razão para estarmos vivos, uma meta a ser alcançada, um destino a chegar, para, no final, descobrir que lá no topo da ladeira está a morte. Segundo ele, na verdade, não existe um motivo para a vida: "Nós nascemos e morremos e não há razão para isso. A tragédia é que as pessoas acham que a vida é algo muito sério. Eu não acredito que vida seja particularmente séria, ela é importante, mas não séria."

Sua fala me chamou a atenção e fui procurar saber quem era o rapaz. Jacob Collier é um jovem músico britânico multi instrumentista que mistura diversos gêneros musicais. Começou fazendo sucesso na internet aos 20 e poucos anos e já recebeu alguns prêmios Grammy (2017 e 2020).

Além de apreciar sua fala também estou gostando de conhecer sua música. No momento ele está produzindo um novo álbum, quádruplo, chamado Djesse, com músicas inspiradas em sons de diversos lugares do mundo. O álbum é uma celebração da ideia desse "espírito infantil" que nos mantém conectados à essência do que é estar vivo durante nossa jornada. É a consciência de que estarmos vivos, aqui e agora, já é extraordinário e que simplesmente ser quem somos já é suficiente.

Crianças normalmente vivem esse estado e ainda não acreditam que precisam ser maiores ou melhores do que já são. Porém, conforme vamos crescendo, nossa educação nos tira do momento presente e nos faz colocar o foco no futuro. "O que você quer ser quando crescer?" é uma pergunta comum, que nos faz acreditar que na verdade ainda não somos nada ou o que somos não basta.

Nossa cultura valoriza a ideia de que precisamos fazer algo mais para sermos alguém, lutarmos para ter coisas e ser mais do que somos. É uma cultura de insatisfação e do eterno esforço. Essa busca constante pode servir de inspiração e motivação para realização de muitas coisas, porém pode também ser a base da depressão, da insatisfação e da sensação de que nunca temos o bastante e nunca somos o suficiente. Assim, vamos criando uma cultura da ansiedade e do estresse, do descontentamento com o que é e do eterno anseio por algo que nunca chega.

Enquanto sociedade ficamos tão bons em sempre buscar "algo mais" que perdemos o contato conosco mesmos e com a própria vida. Deixamos de saborear o que acontece no momento presente na expectativa de no futuro podermos desfrutar a vida. Deixamos de ser felizes agora acreditando que se fizermos x ou y, se alcançarmos isso ou aquilo, seremos felizes no futuro. O resultado é a ansiedade, o estresse e a depressão.

Semana passada escrevi nesta coluna sobre como nossa civilização encontra-se em estado coletivo de depressão estrutural e sistêmica: uma pandemia cultural, com resultados catastróficos: Suicídio e depressão: a pandemia cultural do século XXI.

Há séculos mestres considerados iluminados têm falado da importância de vivermos o presente, conscientes do aqui e agora. A ciência ocidental cada vez mais vem também reconhecendo os benefícios para a saúde física e mental de mantermos essa conexão com o momento presente. A prática da meditação mindfulness ou "atenção plena", por exemplo, tem sido indicada para reduzir o estresse, a ansiedade, a depressão e dores crônicas.

Além da meditação, costumo encontrar essa sensação de conexão mais profunda comigo mesma e com a vida através da criatividade, da arte, da música e do contato com a natureza. São momentos em que o tempo parece parar ou não importar. Saio da lógica do tempo cronológico, regido por Cronos, aquele deus grego implacável, que devora a todos nós, seus filhos, e passo a habitar uma outra dimensão de tempo, mais qualitativa e imensurável quantitativamente, regida por outro deus grego, Kairós. Filho da deusa da prosperidade, Kairós é o tempo eterno, que só existe no momento presente, sem referência ao passado ou ao futuro, é aquele instante em que não há mais caos, apenas felicidade plena.

Penso em Kairós conectado ao estado de Flow, termo proposto pelo psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, para designar o estado mental em que nos encontramos totalmente imersos e envolvidos no que estamos fazendo, com a consciência focada totalmente na atividade em si, como se fossemos parte dela. Neste estado de Flow, ou experiência de fluxo, experimentamos uma sensação de tempo distorcida, muitas vezes como se o tempo parasse ou passasse mais devagar.

Também consigo alcançar essa sensação de plenitude e vida em algumas relações com pessoas com quem posso ter momentos de interação verdadeira e significativa de total liberdade, em que simplesmente sou eu mesma, sem me preocupar com nada.

Tenho a felicidade de contar com alguns amigos com quem o tempo frequentemente parece parar, momentos em que Cronos deixa de nos engolir e desfrutamos a vida plenamente na presença de Kairós.

E você? Em que momentos ou situações você costuma sentir ou já sentiu essa experiência de fluxo e conexão com a vida?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.